Hailton Andrade (@hailton)
O Desafio iBahia de Surf está quase chegando ao fim, mas isso não quer dizer que nós participantes, ou você que acompanha nossa jornada, vai deixar o esporte pra lá depois de tudo isso. A experiência deixa marcas e algo que a gente vai levar pro resto da vida é o fato de ter pegado as primeiras ondas com os ensinos do mestre Armando Daltro e sua equipe - os instrutores Diego Kuhn e Deivson Souza, que também nos acompanham, manjam muito.
Baiano e campeão do mundo, Daltro rodou os principais picos do planeta e competiu com alguns dos maiores de todos os tempos, como o americano Kelly Slater.  Filho do ex-jogador Armandinho, campeão baiano pelo Leônico em 1966, quase entrou no mundo do futebol, mas trocou a bola pela prancha. Nascido no dia quatro de agosto de 1974, Mandinho, como é conhecido, tem 39 anos e atualmente preside a Federação Baiana de Surf. Em entrevista para o blog, ele fala sobre a carreira, surf atual e reverencia o esporte.
Quando o surf surgiu na sua vida?
Foi em 1984, quando fui morar no bairro de Piatã. Comecei a frequentar bastante a praia pra jogar bola, daà olhar para as ondas e ter vontade de surfar foi inevitável. As primeiras ondas foram numa prancha emprestada de um amigo, depois ganhei uma novinha, só que de isopor, eu achava o máximo aos 11 anos de idade.
Mas antes da prancha, a bola de futebol esteve no seu caminho. Chegou a pensar em seguir a carreira do seu pai?
Então, eu era bom de bola e fominha, jogava bola na escola, na rua onde morava, na praia, disputava os torneios da escola, acho que estava no caminho, mas daà apareceu a tal da prancha e esqueci a redonda. Não tive a oportunidade de ver meu pai jogar oficialmente, eu era muito novo quando ele parou, na época dele jogador não tinha o valor de hoje, caso contrário, com certeza teria incentivado mais.
Quando decidiu que seria surfista profissional?
Aos 18 anos, finalizando o 2º grau, consegui ser campeão Nordestino Profissional ainda sem me dedicar 100% aos treinamentos. Consegui um patrocÃnio para correr o Brasileiro no ano seguinte, então decidi que iria tentar a carreira de atleta e deu certo.
As remadas até o estrelato no surf mundial foram planejadas? Você sempre pensou que poderia chegar onde chegou?
Sim, iniciei nos eventos profissionais estaduais e regionais, depois fui ao Circuito Brasileiro, depois ao mundial da 2º Divisão até alcançar o WCT (1º divisão), atual WT. Confesso que não, apesar da minha dedicação, amor e profissionalismo com que eu encarava o esporte eu sabia que teria chances, mas tinha uma auto-avaliação que me dizia que eu não era tão bom quanto alguns caras que estavam no mundial.
O que foi mais difÃcil em toda a jornada como surfista profissional?
Acho que a falta de espaço para divulgar o trabalho na imprensa e, por consequência, a falta de investimento de patrocinadores.
O que foi mais positivo?
Claro que ter conhecido quase o mundo todo. PaÃses, cidades, praias, pessoas diferentes, culturas diferentes, impagável!
Já se passaram pouco mais de dez anos desde a conquista do WQS. O que te vem à cabeça quando tocam no assunto?
Orgulhoso, realizado e agradecido pela oportunidade de ter tido esse privilégio.
Quais foram os caras mais feras que competiram com você?
Kelly Slater, Andy Irons, Rob Machado, Fabio Gouveia, Victor Ribas, Sunny Garcia, Taj Burrow, Joel Parkinson, Mick Fanning, Mark Occy, entre outros.
Você já bateu Kelly Slater. Conta como foi vencer o cara que é tido como uma lenda do surf.
Califórnia, etapa do WCT (1º divisão) em Trestles, 1º fase do evento e minha bateria era eu, o atual campeão Mundial CJ Hoobgood (americano) e Kelly Slater (americano). Estava confiante e surfando bem nas condições do dia, ondas de um metro abrindo para os dois lados, eu e Kelly estávamos nos alternando na 1ª posição. Faltando pouco mais de um minuto, ele remou para o fundo e precisava de uma onda regular para virar a bateria a favor dele, ele tinha a opção da onda e escolheu ir para a direita e deixou que eu fosse para a esquerda. Ele fez um pouco mais do que preisava para virar a bateria a seu favor, mas na mesma onda eu troquei minha pior nota e ampliei a vantagem, voltando ao 1º lugar e vencendo os dois na casa deles. Foi como se tivesse vencido o evento, comemorei muito e fui bastante aplaudido pelo público local.
Atualmente, quem é pra você “O Cara” no esporte?
Citaria dois: Kelly Slater e Gabriel Medina.
Qual foi o melhor pico onde você já surfou?
G-Land, na Indonésia.
Quando veio a decisão de abandonar as competições?
Foi em 2007. Perdi minha vaga no WCT em 2005, depois tive que fazer uma cirurgia no ombro direito e fiquei seis meses parado. Quando retornei em 2006 tive dificuldade em conseguir voltar ao topo do ranking da 2º divisão mundial e não dava mais para continuar bancando os custos das viagens sem um bom patrocinador.
E a decisão de se tornar dirigente do esporte.
Fui incentivado por amigos e tomei a decisão em 2010. Quero buscar espaço para a modalidade, fomentar a prática do surf em todas as classes sociais e, principalmente, formar futuros campeões.
Quais são as principais dificuldades?
PatrocÃnio, espaço na mÃdia e polÃticas públicas acessÃveis.
Há tempos a Bahia não tem um cara entre os tops do surf mundial, disputando WQS, WCT… Quem você acha, entre os caras da nova geração, que pode chegar lá?
Acredito, na atual geração, em Marco Fernandez, Rudá Carvalho, Bernardo Lopes e Bruno Galini. E, para daqui a uns quatro anos, Wallace Junior, de Ilhéus.
Qual a melhor coisa que o surf te deu?
As ondas.
Como você o definiria em uma palavra.
Emocionante.
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