An√°lise das Melhores Reda√ß√Ķes / ENEM 2009

O ENEM 2009 prop√īs ao candidato dissertar sobre o tema “O indiv√≠duo frente √† √©tica nacional“, em, aproximadamente, trinta linhas, levando em considera√ß√£o uma charge de Mill√īr Fernandes (Dispon√≠vel em: http://www2.uol.com.br/millor. Acesso em 16 de setembro de 2013, √†s 13h10), um texto de Lya Luft, retirado da revista Veja, e outro de Contardo Calligares, publicado no site http://www1.folha.uol.com.br, ambos refletindo sobre indigna√ß√£o e corrup√ß√£o.

Veja, a seguir, uma redação que obteve excelente pontuação, no exame:

L√°grimas de crocodilo

O Brasil tem enfrentado, com frequ√™ncia, problemas s√©rios e at√© constrangedores, como os elevados √≠ndices de viol√™ncia, pobreza e corrup√ß√£o ‚Äď tr√™s mazelas fundamentais que servem para ilustrar uma lista bem mais longa. Por√©m, mesmo diante dessa triste realidade, boa parte dos brasileiros parece n√£o se constranger ‚Äď e, talvez, nem se incomodar ‚Äď, preferindo fingir que nada est√° ocorrendo. Em um cen√°rio marcado pela passividade, √© preciso que a sociedade se posicione frente √† √©tica nacional, de forma a honrar seus direitos e valores humanos e, assim, evitar o pior.

Na √©poca da ditadura militar, grande parte da popula√ß√£o vivia inconformada com a atua√ß√£o de um governo opressor, afinal, com as restri√ß√Ķes √† liberdade de express√£o, n√£o era poss√≠vel emitir opini√Ķes sem medir os riscos de violentas repress√Ķes. Apesar de uma conjuntura t√£o desfavor√°vel para manifesta√ß√Ķes, muitos foram os movimentos populares em busca de mudan√ßas, mesmo com as limita√ß√Ķes na atua√ß√£o da m√≠dia. Talvez a sensa√ß√£o de um Brasil melhor hoje ajude a explicar a in√©rcia da sociedade diante da atual crise de valores na pol√≠tica e em todas as camadas da popula√ß√£o.

Muitos n√£o percebem, mas esse panorama cria um paradoxo perverso: depois de tanto sangue derramado pelo direto de expressar opini√Ķes e participar das decis√Ķes pol√≠ticas, o indiv√≠duo se cala diante da crise moral contempor√Ęnea. Nesse contexto, protestos se transformam em lam√ļrias, lamenta√ß√Ķes em voz baixa, que ningu√©m ouve ‚Äď e talvez nem queira ouvir. Ou ent√£o em piadas, ‚Äú√≥timo‚ÄĚ recurso cultural para sorrir e se alienar frente √† falta de uma postura virtuosa. Assim, apesar de viver em um pa√≠s democr√°tico, o brasileiro guarda seus direitos ‚Äď e os dos outros ‚Äď no bolso da cal√ßa, pelo menos quando tem uma para vestir.

Para que o indiv√≠duo n√£o se dispa de sua cidadania, √© preciso honrar o sistema democr√°tico do pa√≠s. Nesse contexto, o povo deve ir √†s ruas, de modo pac√≠fico, para exigir uma mudan√ßa de postura do poder p√ļblico. Al√©m disso, a mobiliza√ß√£o deve agir na dire√ß√£o de quem mais necessita, ajudando, educando e oferecendo oportunidades para exclu√≠dos, que vivem √† margem da vida social, abaixo da linha da humanidade. Para tudo isso, entretanto, √© preciso uma mudan√ßa pr√©via de mentalidade, uma retomada de valores humanos esquecidos, que s√≥ ser√° poss√≠vel com a ajuda da fam√≠lia, das escolas e at√© mesmo da m√≠dia.

Por tudo isso, fica claro que o brasileiro deve parar de negar e de rir do evidente problema √©tico que enfrenta. Trata-se de quest√Ķes s√©rias, cujas solu√ß√Ķes s√£o dif√≠ceis e demoradas, mas n√£o imposs√≠veis. Se a sociedade n√£o se mobilizar imediatamente, chegar√° o dia em que as piadas alienadas e alienantes resultar√£o, para a maioria, em risadas de hiena. E, para a minoria privilegiada, imune ‚Äď ou beneficiada? ‚Äď √† crise √©tica, restar√£o apenas olhos marejados.

Análise da Redação

Par√°grafo 1: T√≥pico frasal constru√≠do com muita compet√™ncia. Observe que os tr√™s per√≠odos apresentam uma Introdu√ß√£o, um Desenvolvimento e uma Conclus√£o, nos quais s√£o apresentados o Tema da reda√ß√£o ‚Äď “O indiv√≠duo frente √† √©tica nacional” ‚Äď e a Tese do autor sobre o tema ‚Äú… √© preciso que a sociedade se posicione frente √† √©tica nacional, de forma a honrar seus direitos e valores humanos e, assim, evitar o pior.‚ÄĚ

Parágrafo 2: Começa o produtor textual a relacionar seus argumentos que irão embasar sua Tese. E começando muito bem, pois busca em seu repertório cultural uma informação histórica que enaltece o comportamento do brasileiro no período ditatorial no País, emitindo uma comparação com os tempos atuais.

Parágrafo 3: Aqui, o candidato amplia sua reflexão sobre o comportamento do brasileiro, apontando sua estranheza sobre a acomodação da sociedade brasileira, numa época em que vivemos uma democracia plena.

Par√°grafo 4: No √ļltimo par√°grafo do Desenvolvimento, o produtor textual sugere qual deve ser o comportamento pol√≠tico do brasileiro, al√©m de j√° apresentar sua vis√£o humanista ‚Äď fundamental na reda√ß√£o do ENEM! ‚Äď, sobre o problema, ao citar que ‚Äú… a mobiliza√ß√£o deve agir na dire√ß√£o de quem mais necessita, ajudando, educando e oferecendo oportunidades para exclu√≠dos, que vivem √† margem da vida social, abaixo da linha da humanidade.‚ÄĚ

Par√°grafo 5: Na Conclus√£o, outro exemplo de um perfeito T√≥pico Frasal, apresentando sua Proposta de interven√ß√£o “Se a sociedade n√£o se mobilizar imediatamente, chegar√° o dia em que as piadas alienadas e alienantes resultar√£o, para a maioria, em risadas de hiena.” e um per√≠odo finalizador constru√≠do com refinamento textual: ‚ÄúE, para a minoria privilegiada, imune ‚Äď ou beneficiada? ‚Äď √† crise √©tica, restar√£o apenas olhos marejados.‚ÄĚ

Acrescente-se o uso correto da Variante Padrão da Língua Portuguesa e, também, a precisão na construção da Coerência e da Coesão Textuais.

Abraços Fraternos,

Paulo Jorge


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An√°lise das Melhores Reda√ß√Ķes / ENEM 2008

Com a aproxima√ß√£o das datas de realiza√ß√£o das provas do ENEM ‚Äď Exame Nacional do Ensino M√©dio 2015, a partir desta semana e nas pr√≥ximas seis, vamos postar e analisar as melhores reda√ß√Ķes dos √ļltimos concursos deste important√≠ssimo exame nacional, a fim de refletirmos sobre as compet√™ncias que comp√Ķem arquitetura textual do texto dissertativo-argumentativo e s√£o cobradas no ENEM, ali√°s para outros concursos tamb√©m, como Petrobras, Caixa, Banco do Brasil, Pol√≠cia Federal dentre outros.

O ENEM de 2008 pediu uma resposta para o seguinte enunciado: ‚ÄúComo preservar a floresta Amaz√īnica‚ÄĚ. Foram sugeridas tr√™s possibilidades:

1) suspender imediatamente o desmatamento;

2) dar incentivos financeiros a propriet√°rios que deixarem de desmatar;

3) ou aumentar a fiscalização e aplicar multas a quem desmatar.

Inicialmente, vejamos uma redação sobre o tema que alcançou uma ótima pontuação:

(Sem título)

A floresta Amaz√īnica vem sofrendo h√° muito tempo com o desmatamento, problema que compromete a realiza√ß√£o natural do ciclo da √°gua, prejudicando, assim, o funcionamento pleno deste bioma. Desse modo, √© necess√°rio preservar tal ambiente; e uma das maneiras de faz√™-lo √© a efetiva√ß√£o de pagamentos a propriet√°rios de terra a fim de que parem de desmatar a floresta. Contudo, n√£o se deve executar apenas esta a√ß√£o.

O cumprimento de tal atitude pode, sim, diminuir o √≠ndice de desmatamento da Amaz√īnia, j√° que os propriet√°rios de terra podem utilizar este pagamento para suas necessidades ao inv√©s do lucro que eles ganhariam se estivessem explorando os recursos naturais de forma exorbitante, o que significa que, pelo menos teoricamente, o padr√£o de vida desses indiv√≠duos n√£o seria alterado.

Por outro lado, h√° uma enorme probabilidade de que, mesmo recebendo dinheiro, alguns propriet√°rios de terra continuem devastando a floresta para enriquecerem mais rapidamente, o que, com certeza, √© uma evid√™ncia concreta da sociedade capitalista e ambiciosa contempor√Ęnea. Afinal, isto mostra que certas pessoas se preocupam apenas consigo mesmas, sem se importarem com o meio ambiente.

Al√©m disso, devido √† extens√£o territorial do Brasil, a verba enviada aos latifundi√°rios da Amaz√īnia pode n√£o chegar a essa regi√£o, fazendo com que eles permane√ßam desmatando-a. Outro motivo relevante para a ocorr√™ncia de tal evento √© o fato de, infelizmente, existirem muitos corruptos neste pa√≠s, os quais roubam parte do dinheiro.

Diante da problem√°tica em quest√£o, √© indispens√°vel que os ambientalistas promovam manifesta√ß√Ķes pac√≠ficas que tenham como objetivo a conscientiza√ß√£o dos adultos e do governo para que ambos compreendam que √© necess√°ria a preserva√ß√£o ambiental, pois s√≥ assim as gera√ß√Ķes futuras ter√£o meios de extrair da natureza o que √© essencial para a sobreviv√™ncia.

An√°lise

Par√°grafo 1: O produtor textual atendeu plenamente √† proposta de reda√ß√£o, pois escolheu a segunda alternativa, ou seja, defendeu a ideia de ‚Äú… dar incentivos financeiros a propriet√°rios que deixarem de desmatar;‚ÄĚ e colocou no par√°grafo inicial do texto. Ao mesmo tempo em que defende sua tese em rela√ß√£o a sua escolha: ‚ÄúDesse modo, √© necess√°rio preservar tal ambiente; e uma das maneiras de faz√™-lo √© a efetiva√ß√£o de pagamentos a propriet√°rios de terra a fim de que parem de desmatar a floresta.‚ÄĚ Constru√ß√£o perfeita da Introdu√ß√£o.

Par√°grafo 2: Para defender sua tese, o candidato apresenta seu primeiro e bom¬† argumento ‚Äú… j√° que os propriet√°rios de terra podem utilizar este pagamento para suas necessidades ao inv√©s do lucro que eles ganhariam se estivessem explorando os recursos naturais de forma exorbitante…‚ÄĚ com um T√≥pico Frasal constitu√≠do de Introdu√ß√£o, Desenvolvimento e Conclus√£o ‚Äď nessa ordem, o que demonstra compet√™ncia na progress√£o frasal.

Par√°grafo 3: Aqui, o candidato faz uma contra-argumenta√ß√£o correta ao argumento citado: ‚ÄúPor outro lado, h√° uma enorme probabilidade de que, mesmo recebendo dinheiro, alguns propriet√°rios de terra continuem devastando a floresta para enriquecerem mais rapidamente…‚ÄĚ

Par√°grafo 4: Neste par√°grafo, o candidato falha, pois apresenta mais duas contra-argumenta√ß√Ķes o que prejudica a defesa de sua tese. Defender um ponto de vista apresentando apenas um argumento e tr√™s contra-argumenta√ß√Ķes √© demonstrar inconsist√™ncia argumentativa.

Par√°grafo 5: Chama √† aten√ß√£o negativamente, o fato de o candidato citar ‚Äúmanifesta√ß√Ķes pac√≠ficas‚ÄĚ em sua proposta de interven√ß√£o, uma vez que n√£o houve refer√™ncia a elas ao longo do texto.

Sem d√ļvida uma reda√ß√£o acima da m√©dia, com corre√ß√£o no uso da variante padr√£o da l√≠ngua e coes√£o perfeitas, embora um pouco fragilizada pela engenharia argumentativa.

Abraços Fraternos!

Paulo Jorge


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A ORTOGRAFIA E A ORTOFONIA D√É0 PREST√ćGIO √Ä MINHA LINGUAGEM

 

 

NOVO ACORDO ORTOGR√ĀFICO

Queridas amigas leitoras e queridos amigos leitores,

Embora seja comparavelmente menos importante o aspecto ortogr√°fico e ortof√īnico em nossa l√≠ngua, h√° um alarde enorme que recai sobre os falantes e escritores de palavras de nossa l√≠ngua portuguesa ou brasileira. O povo cai matando em cima daquelas pessoas que usam palavras fora da escrita ou fala correta ¬†conforme o acordo ortogr√°fico. Com isso, perde-se o prest√≠gio, emprego, namoro, e at√© algumas “amizades” se afastam do ciclo de conversa√ß√£o que mant√©m esses falantes.

Certa feita uma amiga contou-me que estavam passeando por um shopping de Salvador com outras duas amigas e encontraram-se com tr√™s rapazes amigos. Dentre eles, um chamou-lhe aten√ß√£o por sua beleza e corpo perfeitos tal qual um “deus grego”! – Aff! Nossa que homem lindo! Pensou ela. Mas igualmente a ela, ele tamb√©m era muito t√≠mido e nada falava, mas se entreolhavam bastante o que provocou o rompimento de sua timidez e a levou a perguntar o nome dele ao que obteve resposta e continuaram entabulando um certo di√°logo. Ela permitiu que ele falasse e s√≥ ouvia um assunto: ACADEMIA, afinal o homem era bem malhado, sarado justamente por praticar esses exerc√≠cios musculat√≥rios. rsrsrsrsrs. Pois bem, ele abriu o leque de palavras escorregadias que tiram qualquer beleza aos olhos de todo preconceituoso ou preconceituosa lingu√≠stica. Ele dizia que suas pernas eram grossas porque fazia bastante exerc√≠cios em “bicicreta” e que logo ap√≥s deitava na ” tauba” pra enrijecer o abd√īmen e continuava malhando o “peitoril” pra depois de v√°rios outros exerc√≠cios se olhar no “vrido” e ver “seus m√ļsculo tudo alterado”. Minha amiga j√° sem saber o que fazer de tanto ouvir os escorreg√Ķes do pobre rapaz s√≥ fazia sinais desesperados para irem embora, pois seus ouvidos n√£o aguentavam mais serem “agredidos” com tanta palavra ofensiva que derrubaram toda beleza daquele rapaz. Acabou toda beleza mesmo. Como se a linguagem dele tivesse derrubado sua m√°scara de bom e lindo rapaz. Ela pedia pra concluir o entabulado di√°logo e despedia quando ele perguntou-lhe se ela estava “sastifeita” com a conversa e pra completar tentou marcar um novo encontro com outra pergunta “- Que dia a gente se encronta?” Deu pra ela que educadamente despediu-se com um aceno de m√£o e um piscar de olho meio sem gra√ßa! Foi-se embora e sorrindo contava os momentos dolorosos que viveu durante aquele encontro. Moral da hist√≥ria. A ortografia ou ortofonia d√° prest√≠gio e a grafia errada ou fala errada tira prest√≠gio e beleza do falante. Ent√£o sob o ponto de vista da ORTOGRAFIA OFICIAL √© considerado erro n√£o obedecer √†s normas ortogr√°ficas.

 

Falando e escrevendo na norma

A ortofonia divide-se em orto√©pia (ou ortoepia) e pros√≥dia. ORTO√ČPIA (OU ORTOEPIA) Estuda a pron√ļncia correta das palavras. Ao errar a pron√ļncia, comete-se a caco√©pia.

Vejam a pron√ļncia correta de algumas palavras usuais:

Pron√ļncia correta Pron√ļncia que deve ser evitada Pron√ļncia correta Pron√ļncia que deve ser evitada
abóbada abóboda estrangeiro estrangero
asterisco asterístico estupro estrupo
advogado adevogado mendigo mendingo
bandeja bandeija meritíssimo meretíssimo
beneficente beneficiente meteorologia metereologia
bugiganga bugiganga mortadela mortandela
cabeleireiro cabelereiro privilégio previlégio
Caramanch√£o Carramanch√£o Reivindicar Reinvindicar
caranguejo Carangueijo Seja Seje
Disenteria Desinteria Sobrancelha sombrancelha
Empecilho Impecilho Umbigo imbigo

 

Interpretação válida

Palavras muito usadas que mudaram a grafia (Veja hiperlink)

Quanto à ortografia vejamos como se escreve algumas palavras:

Lembro que as ideias t√™m mais import√Ęncia sobre a forma de escrever. Mas a conviv√™ncia com os coment√°rios preconceituosos acaba constrangendo as pessoas que escrevem algumas palavras incorretamente e que foram incorporadas no vocabul√°rio geral por estarem fixadas publicamente e, justamente, pelo pudor de n√£o corrigir os erros. Que conflito, hein?! Acho melhor corrigir na hora adequada a fim de produzir aprendizagem em vez de surtir efeito contr√°rio como constrangimento, por exemplo.

Então, proponho que a gente monte um post periódico com os erros mais comuns observados, para correção em casa diariamente, ou seja, anotar ou fotografar palavras duvidosas e recorrer ao PAI DOS INTELIGENTES, o dicionário.

Destaquei algumas palavras e você poderá completar a partir de hoje com outras que encontrar em sua rua, bairro, cidade ou estado:

  1. Acessor ‚Äď a forma correta √©¬†assessor.
  2. excessão Рo correto é exceção.
  3. Mandato judicial ou mandato de segurança Рo certo é mandado judicial ou mandado de segurança.
  4. 4. Mandato é procuração, ou tempo de duração de cargo eletivo. Mandado é qualquer ordem judicial.
  5. Degladiar Рo certo é digladiar
  6. Haja visto ‚Äď o certo √© haja vista
  7. ‚ÄúHaviam‚ÄĚ ou ‚ÄĚ faziam‚ÄĚ no sentido de existiam – o certo √© ‚Äúhavia‚ÄĚ, n√£o h√° flex√£o. Ex: havia cinco anos, fazia cinco anos.
  8. afim‚ÄĚ, quando se quer dizer a fim. Afim significa semelhante. A fim signfica ‚ÄĚ com o objetivo de‚ÄĚ.
  9. Presado ‚Äď o certo √© prezado

10. Implica em‚Ķ ‚Äď com o verbo implicar, no sentido de ‚Äúter como consequ√™ncia‚ÄĚ n√£o se usa a preposi√ß√£o ‚Äúem‚ÄĚ ‚Äď o certo √© ‚Äúexcesso de velocidade implicou acidente‚ÄĚ.

11. sessão, cessão e seção

SEÇÃO dignifica corte, segmento, setor (setor de esportes);

CESSÃO é o ato de ceder (transferir ou doar algo); e

SESSÃO (com três esses) significa intervalo de tempo de uma reunião para determinado fim.

 

Outras palavras que podem nos confundir:

acender = p√īr fogo

ascender = subir, levantar

amoral = desconhecedor da moral

imoral = contra a moral

apreçar = marcar o preço

apressar = acelerar, ter pressa

arrear = p√īr arreios

arriar = abaixar

bucho = est√īmago, barriga

buxo = arbusto

broxa = pincel

brocha = prego, tacha

caçar = ir à caça, buscar

cassar = anular, tornar sem efeito

cela = cadeia, quarto

sela = arreio

ch√° = bebida

xá = título de soberano no Irã

chalé = casa campestre

xale = cobertura para os ombros

xeque = lance do jogo de xadrez, contratempo

cheque = tal√£o de cheque

comprimento = extens√£o

cumprimento = saudação

concertar = combinar

consertar = remendar, reparar

conjetura = suposição, hipótese

conjuntura = situação

coser = costurar

cozer = cozinhar

deferir = conceder, permitir

diferir = adiar, diferenciar

descriminar = inocentar, absolver

discriminar = diferençar, distinguir

despensa = compartimento onde se guardam objetos em geral

dispensa = desobrigação, ser dispensado

discente = relativo a alunos

docente = relativo a professores

emergir = vir à tona

imergir = mergulhar

emigrante = o que sai

imigrante = o que entra

esperto = inteligente

experto = perito, expert

flagrante = evidente, pego em flagrante

fragrante = arom√°tico, com fragr√Ęncia

fuzil = arma

fusível = resistência

incipiente = iniciante (c de começo)

insipiente = ignorante

indefesso = incans√°vel

indefeso = sem defesa, fraco

infligir = aplicar pena, multa

infringir (lembra infração) = transgredir, violar, desrespeitar

intercess√£o = s√ļplica, rogo

interseção = ponto de encontro de duas retas, linhas

laço = laçada, nó

lasso = cansado, frouxo

ratificar = reforçar, confirmar

retificar = corrigir, consertar

tacha = brocha, pequeno prego

taxa = tributo

tachar = censurar, notar defeito em

taxar = estabelecer o preço

vultoso = volumoso

vultuoso = atacado de congest√£o na face

 

Como se escreve

Cuidemos, portanto de nossa ortografia e ortofonia a fim de aumentar nossa compet√™ncia gramatical e nosso prest√≠gio social no meio em que vivemos diariamente. Certamente esse procedimento j√° far√° uma grande diferen√ßa para atingirmos melhores condi√ß√Ķes de reivindicarmos nossos direitos e darmos nossas opini√Ķes usando a palavra certa e evitando embara√ßos e risos alheios al√©m de julgamentos discriminat√≥rios.

Um abraço,

Professor Adil Lyra


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A Coerência Textual

Coer√™ncia √© a liga√ß√£o em conjunto dos elementos formativos de um texto. √Č o instrumento que o autor vai usar para conseguir dar um sentido completo a ele.

Em uma redação, para que a coerência ocorra, as ideias devem se completar. Uma deve ser a continuação da outra. Caso não ocorra uma concatenação de ideias entre as frases, elas acabarão por se contradizerem ou por quebrarem uma linha de raciocínio. Quando isso acontece, dizemos que houve um quebra de coerência textual.

A coer√™ncia √© um resultado da n√£o contradi√ß√£o entre as partes do texto e do texto com rela√ß√£o ao mundo. Ela √© tamb√©m auxiliada pela coes√£o textual, isto √©, a compreens√£o de um texto √© melhor capturada com o aux√≠lio de conectivos, preposi√ß√Ķes, pronomes e outros elementos coesivos.

A incoerência de um texto pode ser observada por um falante da língua, mas não é tão fácil identificá-la quando estamos escrevendo.

Pode-se dizer que um texto √© incoerente quando o entendimento dele √© comprometido. Na maioria das vezes esta pessoa est√° certa ao fazer esta afirma√ß√£o, mas n√£o podemos achar que as dificuldades de organiza√ß√£o das ideias se resumem √† coer√™ncia ou √† coes√£o. √Č certo que elas facilitam bastante esse processo, mas n√£o s√£o suficientes para resolver todos os problemas.

Dicas para escrever com coerência

1) Manter a ordem cronológica: não se deve relatar antes o que ocorre depois, a não ser que se pretenda criar um clima de suspense ou tensão (mas nunca esquecendo que, no final, a tensão deve ser resolvida).

2) Seguir uma ordem descritiva: isto é, seguir a ordem em que a cena, o objeto, o fato são observados, dos detalhes mais próximos para os mais distantes, ou vice-versa; de dentro para fora; da direita para a esquerda etc.

3) Uma informação nova deve se ligar a outra já enunciada: à medida que o texto avança, as novas ideias devem se relacionar às antigas, de maneira que todas permaneçam interligadas.

4) Evitar repeti√ß√Ķes: uma ideia j√° enunciada pode ser repetida ‚Äď e, em alguns casos, √© imprescind√≠vel que isso ocorra ‚Äď, mas desde que acrescentemos uma informa√ß√£o nova ao racioc√≠nio, um novo elemento, capaz de aclarar ainda mais o assunto de que estamos tratando. Ou seja, devemos evitar redund√Ęncias: √† medida que escrevemos, o texto se amplia gra√ßas √† agrega√ß√£o de novas ideias, e n√£o porque insistimos no que j√° foi tratado ou usamos um excesso de palavras.

5) N√£o se contradizer: uma tese exposta e defendida no in√≠cio n√£o pode ser atacada no final do texto. Se o objetivo do autor √© discutir sobre diferentes argumenta√ß√Ķes em torno de um mesmo tema, deve deixar claro quem defende qual ideia. Nesses casos, todo cuidado √© pouco: a contradi√ß√£o n√£o deve ser assumida pelo autor, mas sim, surgir da diversidade de opini√Ķes.

6) N√£o escamotear a realidade: um dado concreto, real, s√≥ pode ser contestado com base em investiga√ß√Ķes cient√≠ficas. Um fato de conhecimento p√ļblico pode ter novas vers√Ķes, mas com base em depoimentos fidedignos. Encobrir a realidade com rodeios ou subterf√ļgios, apenas para dar maior veracidade a uma ideia, acaba sempre comprometendo a qualidade do texto e, √†s vezes, abalando a reputa√ß√£o do autor.

7) Evitar generaliza√ß√Ķes: afirmar, de forma infundada ou n√£o, que algo √© verdadeiro em grande parte das situa√ß√Ķes, ou para a maioria das pessoas, demonstra falta de argumentos ou preconceito do autor.

Fonte: Comunicação em prosa moderna, Othon M. Garcia,
14¬™ edi√ß√£o, Editora da Funda√ß√£o Get√ļlio Vargas.

Abraços Fraternos!

Paulo Jorge

 


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O Valioso Tempo dos Maduros

Envolta em pol√™mica, a autoria deste poema est√° creditada ao escritor da 1¬™. Fase do Modernismo Brasileiro M√°rio de Andrade (1893 – 1945), ao escritor e pol√≠tico angolano M√°rio Pinto de Andrade (1928 – 1990) e, tamb√©m, ao pastor e l√≠der da Igreja Betesda Ricardo Gondim, que reclama a autoria do texto, pois, segundo ele, o poema foi publicado originalmente com o t√≠tulo Tempo que foge, em seu livro Eu creio, mas tenho d√ļvidas, publicado pela Editora Ultimato, em 2007.

Querelas à parte, o poema desperta nossa sensibilidade pela franqueza do eu lírico ao fazer uma espécie de contabilidade da vida.

√ďtima Leitura!

O Valioso Tempo dos Maduros

Contei meus anos
e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente
do que já vivi até agora.

Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas
percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
J√° n√£o tenho tempo para lidar com mediocridades.

N√£o quero estar em reuni√Ķes onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
J√° n√£o tenho tempo para conversas intermin√°veis,
para discutir assuntos in√ļteis sobre vidas alheias
que nem fazem parte da minha.

J√° n√£o tenho tempo para administrar melindres de pessoas,
que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo
majestoso cargo de secret√°rio-geral do coral.
‚ÄúAs pessoas n√£o debatem conte√ļdos, apenas os r√≥tulos.‚ÄĚ
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços,
n√£o se encanta com triunfos,
n√£o se considera eleita antes da hora,
n√£o foge de sua mortalidade.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
o essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

Abraços Fraternos,

Paulo Jorge


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O Grande Segredo da Redação

A import√Ęncia de saber ler e escrever nos √© revelada antes mesmo de come√ßarmos a ser alfabetizados e nos √© intr√≠nseca, j√° que desde muito cedo brincamos com a linguagem por meio de l√°pis, caneta, papel, revistas, livros e, com o advento tecnol√≥gico, com celulares, computadores e tablets. A linguagem e as l√≠nguas fazem parte da nossa evolu√ß√£o como esp√©cie.

A escrita passa a ser vista pelos, agora, candidatos ao Enem e √†s demais provas, como obriga√ß√£o, assim como as demais disciplinas escolares. A impress√£o que se tem √© que devemos escrever adequadamente apenas um tipo textual ‚Äď a disserta√ß√£o-argumentativa, j√° que ela √© a maior exig√™ncia em exames de produ√ß√£o de texto, como se s√≥ existisse este tipo e n√£o os in√ļmeros g√™neros que circulam nas mais variadas esferas sociais ‚Äď para obtermos a nota m√≠nima para conseguirmos a t√£o sonhada vaga no curso universit√°rio desejado. E isso √© errado.

Obviamente, devemos levar em conta que cada indivíduo possui habilidades e preferências diferentes: uns se saem melhor nas exatas, outros nas biológicas e outros nas humanas e, ainda, há aqueles que se saem bem em todas as áreas. O problema de sair-se mal em produção de texto e em leitura, por exemplo, são as consequências para toda a vida, já que nos comunicamos oralmente e por escrito no ambiente de trabalho, na esfera íntima, na academia…, ou seja, em todos os segmentos.

Os alunos que possuem dificuldades em escrever e n√£o t√™m isto como um h√°bito, ao se depararem com a press√£o da escola e/ou com a necessidade de ‚Äúpassarem‚ÄĚ em um Enem ou em outro vestibular, por exemplo, ficam desesperados em busca de uma receita perfeita ‚Äď ou, quem sabe, m√°gica ‚Äď para escrever um texto. Mas esta receita n√£o existe.

Há, apenas, um grande truque, um segredo para escrever bem e para terminar de escrever um trabalho escolar, uma dissertação de mestrado, uma tese de doutorado ou qualquer outro tipo ou gênero: escrever.

A escrita deve ser parte integrante da rotina de um estudante que está se preparando para prestar o Enem ou outro vestibular e não apenas em relação aos estudos da Língua Portuguesa e da redação; as demais disciplinas devem ser estudadas através da escrita por meio da produção de rascunhos, resumos, relatórios, projetos, resenhas, respostas dissertativas, dentre outros.

Todos que lidam, em seu dia a dia, diretamente com a escrita devem se programar e organizar suas rotinas para escrever. Os candidatos ao Enem e aos vestibulares, por exemplo, em rela√ß√£o √† reda√ß√£o, devem realizar suas leituras, discuss√Ķes e pesquisas antes de fazerem as propostas. Ap√≥s esta primeira parte √© o momento de escrever.

Sentem-se, de maneira confort√°vel, em uma cadeira, de frente para uma mesa, em um c√īmodo agrad√°vel e quieto, sem distra√ß√Ķes como internet, celulares, televis√£o, r√°dio etc. Disponham-se a cumprir a proposta de reda√ß√£o de dois modos, alternadamente: sem preocupar-se com o tempo e controlando-o, como se fosse, realmente, o dia da prova.

Estudantes e candidatos devem se comprometer a escrever todos os dias e, pensando em redação, a fazer, pelo menos, uma proposta por semana. Este é o mínimo. Caso seja possível escrever mais de uma redação por semana, perfeito!

Nesta parte do processo, os rascunhos e as revis√Ķes s√£o important√≠ssimos. Autores consagrados como Guimar√£es Rosa dedicavam grande parte de seu tempo √† revis√£o de seus livros e devemos fazer o mesmo com as nossas reda√ß√Ķes reescrevendo-as at√© elas ficarem do modo como queremos.

Portal UOL Educação, 26 de agosto de 2014. Adaptado.

Abraços Fraternos!

Paulo Jorge


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Aviso da Lua que menstrua

Em 25 de julho de 1992, durante o I Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-caribenhas, em Santo Domingos, Rep√ļblica Dominicana, foi criado o Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, com o objetivo de se buscar um dia que servisse de marco internacional da luta e da resist√™ncia da mulher negra.

Para comemorarmos, com certo atraso, esse dia, trazemos hoje um poema de uma artista brasileira negra m√ļltipla: Elisa Lucinda. Poeta, jornalista, escritora, professora, atriz, letrista e cantora, Elisa √© respons√°vel por um dos poemas brasileiros mais traduzidos no mundo: Aviso da Lua que menstrua. Um monumento √† mulher, √† beleza e √† vida.

√ďtima Leitura!

www.blogueirasnegras.org

Aviso da Lua que menstrua

Moço, cuidado com ela!
H√° que se ter cautela com esta gente que menstrua…
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita.
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
T√° acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
√© que t√ī falando na “vera”
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
N√£o v√° sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos.
Às vezes pela ponte de um beijo
j√° se alcan√ßa a “cidade secreta”
a Atl√Ęntida perdida.
Outras vezes v√°rias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
√Č da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofando
cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almo√ßo: Eca!…
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu c√£o desejado
t√£o preocupado em rosnar, ladrar e latir
ent√£o esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
S√£o duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha…
ora, n√£o ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que est√° agredindo
que t√° falando palavr√£o imundo.
T√°, n√£o, homem.

Tá citando o princípio do mundo!

Elisa Lucinda

Abraços Fraternos!

Paulo Jorge


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Ler devia ser proibido

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Defensor incans√°vel do direito √† leitura, Paulo Freire iluminou nosso t√ļnel ao dizer que “Ler n√£o √© caminhar sobre as letras, mas interpretar o mundo e poder lan√ßar sua palavra sobre ele, interferir no mundo pela a√ß√£o“. √Č posicionar-se sobre si e sobre o mundo, principalmente sobre a realidade que cerca indiv√≠duo, independentemente de ela o oprimir, pois uma sociedade para se construir justa exige cidad√£os pensantes, por consequ√™ncia, atuantes em seu meio.

Mineira de Ouro Preto, historiadora, fil√≥sofa e escritora, Guiomar de Grammont reflete, nesta postagem, sobre A Import√Ęncia do Ato de Ler ‚Äď t√≠tulo de uma obra fundamental, de Freire ‚Äď usando o recurso da ironia com extrema riqueza e refinamento.

√ďtima Leitura!

www.pinterest.com

Ler devia ser proibido

N√£o me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madamme Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram, meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto √† pobre Emma Bovary, tomou-se esposa in√ļtil para fofocas e bordados, perdendo-se em del√≠rios sobre bailes e amores cortes√£os.

Ler realmente n√£o faz bem. A crian√ßa que l√™ pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrol√°vel. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilh√Ķes que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito √† realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquec√™-la com cabriolas da imagina√ß√£o.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem necessariamente ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas.

√Č preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, podem levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, podem estimular um curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos, em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo j√° vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas l√™em por raz√Ķes utilit√°rias: para compreender formul√°rios, contratos, bulas de rem√©dio, projetos, manuais, etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civiliza√ß√£o contempor√Ęnea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimens√Ķes, menos inc√īmodas. E esse o tapete m√°gico, o p√≥ de pirlimpimpim, a m√°quina do tempo. Para o homem que l√™, n√£o h√° fronteiras, n√£o h√° cortes, pris√Ķes tampouco. O que √© mais subversivo do que a leitura?

√Č preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privil√©gio concedido apenas a alguns, jamais √†queles que desenvolvem trabalhos pr√°ticos ou manuais. Seja em filas, em metr√īs, ou no sil√™ncio da alcova‚Ķ Ler deve ser coisa rara, n√£o para qualquer um. Afinal de contas, a leitura √© um poder, e o poder √© para poucos. Para obedecer, n√£o √© preciso enxergar, o sil√™ncio √© a linguagem da submisso. Para executar ordens, a palavra √© in√ļtil.

Al√©m disso, a leitura promove a comunica√ß√£o de dores, alegrias, tantos outros sentimentos. A leitura √© obscena. Exp√Ķe o √≠ntimo, torna coletivo o individual e p√ļblico, o secreto, o pr√≥prio. A leitura amea√ßa os indiv√≠duos, porque os faz identificar sua hist√≥ria a outras hist√≥rias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

Ler pode tornar o homem perigosamente humano.

Guiomar de Grammont

Abraços Fraternos,

Paulo Jorge


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Exposição de Motivos

A Exposi√ß√£o de Motivos √© um g√™nero textual no qual s√£o apresentadas as justificativas para cria√ß√£o, altera√ß√£o, modifica√ß√£o ou extin√ß√£o de um determinado fato, experi√™ncia, inven√ß√£o, lei dentre outros de car√°ter educativo, jur√≠dico ou cient√≠fico, de modo a indicar as ideias do remetente ou de um determinado grupo social. Tempos atr√°s, este documento transitava, exclusivamente, na esfera p√ļblica federal, no entanto ele j√° se mostra usual em diversas √°reas da sociedade.

A seguir, apresentamos um exemplo de Exposição de Motivos; aliás, antes de expor os motivos, faz-se necessário um texto de apresentação.

www.epocanegocios.globo.com

Salvador, 17 de dezembro de 2012.

Ilmo. Sr. Ant√īnio Carlos Peixoto de Magalh√£es Neto

Morador há quase quinze anos do Largo 2 de Julho, centro da cidade do Salvador, venho, através desta, expor alguns aspectos que, na minha opinião, precisam ser observados pelo novo gestor desta capital, no que se refere ao processo de recuperação e revitalização do nosso centro histórico.

A minha decisão em escrever esta exposição de motivos deve-se ao fato de ser morador da capital em que nasci e de morador do bairro que escolhi para morar.

Espero que minhas sugest√Ķes sejam analisadas pelo novo grupo gestor desta cidade t√£o degradada e, ao mesmo tempo, desejar a todos os senhores votos de uma gest√£o recuperadora e humanista, porque esta cidade e seus habitantes assim anseiam e merecem.

Exposição de Motivos

1) Moradores e comerciantes ‚Äď principalmente estes! ‚Äď depositam, a qualquer hora do dia e da noite, lixo na frente de restaurantes, lojas e edif√≠cios e, tamb√©m, em esquinas de ruas e pr√≥ximas a sinaleiras.

2) Caminh√Ķes-ba√ļ de cervejarias e produtos aliment√≠cios descarregam seu material, ao longo da manh√£ e da tarde, provocando engarrafamentos no local.

3) Existem pessoas no bairro exercendo ilegalmente a função de guardadores de veículos e que sugerem o uso de canteiros da praça para motoristas estacionarem seus carros particulares depredando plantas, árvores e calçada.

4) A polui√ß√£o sonora cresce muito com carros de vendedores de cafezinho e de artistas an√īnimos de CDs. Ao longo do dia e da noite, para chamarem a aten√ß√£o de clientes, colocam o som do carro no √ļltimo volume.

5) Alguns bares contribuem enormemente para a ampliação da poluição sonora, inclusive após as 22horas.

6) Empresas de motos e carros n√£o s√≥ colocam toldos em pra√ßas p√ļblicas, mas tamb√©m em canteiros de plantas.

7) Os jardins da praça estão completamente degradados.

8) O coreto da praça necessita de ampla reforma.

9) As barracas de venda de diversos produtos ‚Äď acaraj√©, plantas, cigarros dentre outros ‚Äď est√£o sujas e rasgadas.

10) Parte do jardim do Largo 2 de Julho está coberto por um equipamento de ferro que exige substituição.

11) Os moradores de rua representam um dos maiores desafios sociais do País e eles necessitam de uma atenção especial da prefeitura.

12) Muitos moradores reclamam da poluição sonora promovida pelo clube Fantoches.

13) A ilumina√ß√£o p√ļblica est√° funcionando parcialmente.

14) Durante algumas festas, S√£o Jo√£o e carnaval, por exemplo, institui√ß√Ķes do bairro ornamentam a pra√ßa com bandeirolas e outros adere√ßos. Ap√≥s o t√©rmino delas, os enfeites continuam, normalmente j√° rasgados, depreciando o nosso espa√ßo p√ļblico.

15) Durante o carnaval, propriet√°rios de bares degradam os espa√ßos p√ļblicos do bairro, pois escavam as cal√ßadas para coloca√ß√£o de balc√Ķes para venda de comidas e bebidas.

Atenciosamente,

Paulo Jorge de Jesus


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Poema à Língua Portuguesa

www.literareblogando.tumblr.com

A postagem da segunda-feira, desta semana, traz o belo e singelo Poema √† L√≠ngua Portuguesa, do poeta Oldney Lopes, que, segundo o site http://www.recantodasletras.com.br, ‚Äú√Č mineiro, nascido em Belo Horizonte, onde viveu os primeiros anos de sua inf√Ęncia. Mudou-se com a fam√≠lia para Curitiba, e l√° morou durante dois anos, mudando-se para Barbacena, cidade mineira na qual viveria sua juventude e onde escreveria, j√° aos doze anos, seus primeiros versos. Atualmente, reside em Brumadinho, cidade do interior de Minas Gerais.‚ÄĚ

‚ÄúEscritor e profissional das Letras por aptid√£o, gosta de transitar entre o verso e a prosa, mas com a poeticidade sempre presente em todos os seus textos. Na poesia, valoriza a forma, a sonoridade, a m√©trica e a rima, sem desprezar, entretanto, a sutileza que as entrelinhas encerram.‚ÄĚ

E √© justamente ‚Äú… a sutileza que as entrelinhas encerram.‚ÄĚ, constante no √ļltimo verso do poema, que confirma, aqui, a inclina√ß√£o do poeta pelos impl√≠citos. Impl√≠cito, claro, para aqueles que desconhecem os gram√°ticos (gramatiqueiros?!) da L√≠ngua Portuguesa.

Para nosotros, a crítica ferina está na superfície do texto.

Boa Leitura!

www.kdfrases.com

Poema à Língua Portuguesa

A língua portuguesa que amo tanto
Que canto enquanto encanto-me ao ouvi-la
Em cada canto é fala, é riso, é pranto
E nada h√° que a cale e que a repila.

√Č essa l√≠ngua t√≥rrida e faceira
Inebriante e meiga e doce e audaz
Que envolve e enleia a gente brasileira
E quem a utiliza é quem a faz.

√Č a l√≠ngua dos domingos, no barzinho
A mesma das segundas, no escritório
A que fala o andrajoso, no caminho
E o cientista, no laboratório.

√Č a mesma l√≠ngua, embora evolu√≠da,
Que veio de outras terras com Cabral
Escrita por Caminha, foi trazida
Na descoberta do Monte Pascoal

N√£o h√° quem fale errado ou fale mal
De norte a sul, é belo o que é falado
Na língua de Brasil e Portugal.
Para julgar quem fala certo ou fala errado

N√£o h√° no mundo lei, nem haver√°:
Quem faz da fala língua, é quem a fala
Gram√°tica nenhuma a calar√°
Gram√°tico nenhum ir√° ceg√°-la*!

Retirado do site: http://www.oldney.net

Abraços Fraternos!

Paulo Jorge

* Referência ao gramático Domingos Paschoal Cegalla, autor da Novíssima Gramática da Língua Portuguesa.


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