Gilmaro Nogueira
Esse texto é uma continuação do post anterior: “Hétero-passivo é tendência!”, que gerou muita discussão aqui no blog e nas redes sociais. Vou abordar o tema agora falando das mulheres por dois motivos: a) quero enfatizar o protagonismo das mulheres no ato sexual com homens; b) pretendo problematizar as concepções de identidade a partir da prática sexual anal.
Geralmente nos textos do blog evitamos trazer muitas referências teóricas, pois entendemos que a escrita aqui deve ser mais leve/livre, mas, nesse texto, vou me permitir citar teóricxs, pois algumas pessoas acreditam que estamos trazendo esses temas sem nenhuma reflexão científica, apenas como divagações de nossas mentes.
Gostaria também de dedicar esse texto a uma mulher excepcional, uma pessoa carinhosa, afetuosa, amiga, verdadeira e solidária. Uma mulher que conheci nas discussões de filmes e que aqui vou chamar de Nina Donna (ND), por uma escolha dela mesma.
A primeira vez que ND penetrou um homem foi aos 19 anos, quando convenceu um namorado a aceitar tal prática e depois fez o mesmo com outros homens.
Quero acrescentar que ND não sente atração por mulheres e se relaciona exclusivamente com homens. Não importa se esses homens são heterossexuais ou homossexuais, pois ela não considera essa diferença. Certa vez disse: “Não vejo heterossexuais ou homossexuais, vejo homens!” Outra singularidade é que no ato sexual há uma inversão de gêneros e, às vezes, ND se masculiniza e o companheiro se feminiliza.

Créditos: http://www.sauco.ru/
Qual seria a orientação sexual dessa mulher? Seria heterossexual ou homossexual? Alguns diriam heterossexual, pois suas relações são apenas com homens, mas sua prática sexual difere e muito do script heterossexual, em que o homem penetra a mulher – a domina. Para outros, a prática seria homossexual, pois centrariam sua análise no homem que é penetrado, no entanto, essa prática se dá entre sexos opostos, logo não pode ser homossexual.
Até me surpreendi com a grande quantidade de comentários no blog que consideram heterossexual a penetração de uma mulher num homem (sinal que a prática é mais comum do que o que imaginamos), mas cabe ressaltar que a prática sexual heterossexual, tal como pensada pelos psiquiatrias do séc. XIX, está ligada à reprodução da espécie e, por isso, confunde órgãos sexuais com órgãos reprodutivos, logo essa prática (mulheres penetrando homem) está fora do roteiro sexual prescrito.
Por isso questiono: qual a orientação sexual dessa mulher que penetra homens? Nenhuma dessas orientações mais conhecidas dão conta de explicar a sua sexualidade, mas não só a dela, todas as outras também escapam dessa divisão binária. É por isso que a heterossexualidade e a homossexualidade são consideradas apenas aproximações grosseiras e não realidades em si mesmas.
Surpreendi-me também com a grande quantidade de pessoas que pesquisam sexualidade e criticaram o texto tentando encaixar o hétero-passivo em homossexual do armário, aderindo assim à divisão hétero versus homo. Mais uma vez gostaria de ressaltar que não estou desconsiderando o preconceito contra homossexuais, o que empurra muitos sujeitos para o armário, mas não se pode perder de vista que a homossexualidade e heterossexualidade não são identidades naturais, mas invenções (não estou falando da prática sexual, mas da identidade e/ou da leitura que se faz da prática).

Fonte: http://www.sauco.ru/
Vou discutir um pouco essa questão, lembrando que muitas pessoas, com problemas de interpretação de texto, leram o artigo de Leandro Colling, “Porque a heterossexualidade não é natural?”, como se ele estivesse afirmando que a heterossexualidade é anormal ou patológica, ou como se quisesse naturalizar a homossexualidade como padrão.
Quando dizemos que a heterossexualidade não é natural, e que as identidades são invenções, estamos afirmando que nenhuma identidade é natural, nenhuma delas é anormal em si, mas que suas construções e signos associados à elas são invenções humanas. Não estamos patologizando nenhuma identidade, nem dizendo que as pessoas devam ser isso ou aquilo, mas apenas afirmando que “nenhuma identidade é natural – são ficcionais!”.
Mas com base em que fazemos tal afirmação? É apenas um modo de fazer política ou temos alguma teoria por base dessas considerações? Em que teoria se apoia a ideia de que a identidade não é natural?
Vou começar com a psicanálise. Para a psicanálise ninguém nasce mulher ou homem, nem masculino ou feminino, nem heterossexual ou homossexual. Os caracteres biológicos (pênis/vagina) não determinam nossa sexualidade. Nesse sentido, o sujeito só tem uma identidade após a saída do complexo de édipo, por volta dos 4 a 6 anos de idade. Não vou discutir aqui a teoria do édipo, mas importa saber que a identidade (sexual) é resultado da identificação da criança com um traço, e não o sexo, de um seus genitores.
Vou citar ainda alguns psicanalistas, entre eles: Paulo Roberto Ceccarelli[1], que considera que a homossexualidade é um artefato classificatório, uma invenção que faz parte de uma construção simbólica da cultura ocidental, que impõe uma sexualidade como natural e a reduz a função reprodutiva.
Ainda segundo Ceccarelli, os padrões de sexualidade humana não são inatos, mas criados, vivenciados dentro de um imaginário social ao qual estamos inseridos e, embora acreditemos na existência “natural” dos sujeitos heterossexuais, bissexuais e homossexuais, trata-se de uma crença ideológica, vivida como algo intuitivo e universalmente válido.
Outro psicanalista a questionar a concepção de identidade sexual* natural é Jurandir Freire Costa[2], motivo pelo qual prefere o termo homoerotismo, por acreditar que esse termo não representa uma substância homossexual, orgânica ou psíquica, comum a todos os homens. Costa critica a ideia de um psiquismo ou estrutura psíquica heterossexual ou homossexual, e em vez disso propõe que pensemos nessa divisão não como realidade natural, mas linguística.
Um terceiro psicanalista, Contardo Calligaris[3], problematiza a distinção homossexual e heterossexual como ponto crucial para definir a personalidade dos sujeitos e reflete que a fantasia define muito mais uma pessoa que a identidade. Um exemplo dado é que um homossexual com fantasias sadomasoquistas tem muito mais a ver com um heterossexual também com fantasias parecidas, do que com outro homossexual.
Mas um sujeito ressaltou no blog que a psicanálise não é uma ciência. Eu, pessoalmente vejo muita coerência na psicanálise, mas se alguém não quiser aceitar os argumentos psicanalíticos, podemos falar em antropologia, embora nos últimos dias existam antropólogos aderindo à biologia como forma de explicar as diferenças sexuais – uma vergonha!
Um dos antropólogos que discutiu a questão das identidades foi Richard Parker[4], analisando que a experiência sexual é produto de um conjunto de processos sociais, culturais e históricos, e não de uma natureza humana imutável. Muito embora os indivíduos tenham ao seu dispor um sistema de referência, e perspectivas culturalmente construídas e valorizadas, as experiências são singulares, produzindo um complexo múltiplo de subsistemas, conflitantes e contraditórios.
Ainda segundo Parker, muitas das categorias e classificações centrais utilizadas pela medicina ocidental estão longe de serem universais, ao contrário, essas classificações podem estar ausentes, ou no mínimo estruturadas diferentemente em muitas sociedades e cultura. Assim, a interação sexual entre homens, por exemplo, podem organizar uma diversidade de identidades.
Peter Fry e Edward MacRae[5] também discutem como se produziu as identidades sexuais no Brasil, evidenciando o modo como a ciência europeia cristalizou a divisão heterossexual versus homossexual. Esses dois antropólogos situam a identidade menos como um objeto da medicina ou psicologia, e mais como parte da cultura e política.
Um outro teórico importante é o sociólogo e historiador Jeffrey Weeks[6], que tem discutido o modo como essas identidades foram construídas pela ciência, e antes de representarem uma realidade natural, são produções políticas que tem por objetivo hierarquizar os sujeitos.
Os estudos culturais também têm questionado a ideia de uma identidade natural ou una, assim como a concepção de um sujeito heterossexual ou homossexual, opostos, que não sejam fluídos, marcados por inconstâncias, incoerências, mas, acima de tudo, situando essas identidades a partir de processos históricos e políticos.
Stuart Hall[7] inclusive alerta para o risco de essencializar posições identitárias, naturalizadas e fixadas sobre determinado significante (étnico, gênero ou sexo) fora da história e da intervenção política, destacando também que não podemos ser representados somente por determinado signo. Estamos sempre negociando diversos tipos de diferenças, de gênero, sexualidade e classe, para citar apenas alguns marcadores. Essa negociação se dá não apenas com um único conjunto de posições, mas com uma série de posições diferentes. Para Hall, a identidade tem se tornado uma “celebração móvel”, sendo constantemente transformada nos sistemas culturais que nos rodeiam, dessa forma, tem surgido novas identidades que fragmentam o indivíduo pós-moderno.
E, por fim, os estudos queer, que questionam as posições binárias e essencializadas, têm jogado mais uma última pá “pedra de cal”** sobre essas concepções essencialistas, ressaltando o modo como as tecnologias de gênero produzem sujeitos normais e anormais. Esses sujeitos, organizados em identidades estáveis, não são realidades em si mesmas, mas produzidos através de saberes e poderes. Esses estudos têm realizado uma crítica à heterossexualidade compulsória e a heteronormatividade.
Não vou continuar citando teorias que questionam a identidade, e importa dizer que essa concepção de heterossexualidade ou homossexualidade como natureza humana não se apoia na psicanálise, antropologia, sociologia, estudos culturais, história, estudos culturais e teoria queer.
Alguém pode desmerecer esses saberes e valorizar apenas as ciências exatas e biológicas como fonte de verdade. É bom lembrar que Prigogine, Nobel de química, ressaltou que as ciências duras não possuem um saber absoluto, isto é, são passíveis de questionamentos e, por isso, eu realmente prefiro as ciências humanas e sociais como modo de explicação da sexualidade, por um compromisso político e pelo valor que coloca no estudo da cultura e da história, o que pode explicar como pensamos o que pensamos.
Significa dizer que nem eu, nem você, nem Silas Malafaia, nascemos heterossexuais ou homossexuais, logo não há motivo para cura, uma vez que não há desvio, mas uma concepção de desvio, que hoje não se sustenta mais na ciência, ou melhor, nos saberes que citei acima.
Mas o que fazemos? Policiamos a sexualidade de modo a enquadrar as pessoas em heterossexuais ou homossexuais e fazemos uma assepsia de modo que a naturalização da heterossexualidade é constantemente garantida por estudos que deveriam questionar a essencialização.
Vou citar um exemplo: num estudo sobre comportamentos epidemiológicos entre homens que fazem sexo com homens, realizada em Minas Gerais, no ano de 2000 e publicado pelo Ministério da Saúde[8], foi perguntado a 446 participantes: “Que palavra você usa para descrever sua sexualidade?” e a resposta foi:
Ambígua, ativo, ativo liberal, atraente, bicha, bissexual, bofe, bonita, coisa boa, confuso, desejo, diferente, doentio, entendido, entendido ativo, entendido passivo, feliz, feminino, florzinha, frio, frio homem, Gay, gostoso, hetero-homo, homem, homem muito macho, homoerótico, homossexual, homossexual ativo, homossexual passivo, homoternurista, indefinida, intensa, liberado, liberdade, libidinoso, livre, mulher, normal, o máximo, pansexual, passivo, polissexual, prazer, relacionamento, responsável, sentimental, sexuado, sexual, tarado, ternura, tímido e metódico, travesti, veado, versátil, voraz, além de outros do tipo, não sei me categorizar, não me ocorre nada, não sei, não gosto de rótulo e isso parece um rótulo, não quero responder, nenhuma, num ambiente careta sou hétero.
A partir dessas respostas os pesquisadores enquadram esses sujeitos em três categorias: entendidos, gays e bissexuais. Ou seja, nos esforçamos constantemente para manter a divisão binária de heterossexual versus homossexual e às vezes consideramos a bissexualidade. A sexualidade é enquadrada em categorias limitadas.
As pessoas internalizaram essa divisão e algumas não conseguem pensar além dessas fronteiras. Mas como superar essa divisão? Alguns podem recusar a identidade e os rótulos, o que é válido, no entanto cabe ressaltar que mesmo quando você não se identifica com tal identidade, os outros atribuem rótulos aos sujeitos.
Há também uma outra alternativa, que é uma ideia de Jack Halberstam[9], teórico queer, que esteve em Salvador ano passado, e que considera que um modo de fazer política é através das identidades vernáculas ou populares, e isso justifica a identidade do heterossexual-passivo, do bolo-doido, total-flex, hétero-que-abre-excessão, e outros termos utilizados em Salvador, pelos sujeitos, para descreverem suas sexualidades. Essas identidades questionam a essencialização e, de certo modo, contaminam o binarismo.
Não estou aderindo a ideia de um novo sujeito natural, mas pensando que é tão viável o hetero-passivo quanto o heterossexual, uma vez que ambos são invenções, ficções. Ressalto que não desejo tornar com isso ninguém homossexual, ao contrário, o que menos queremos, e digo isso no plural, é designar ou imputar uma identidade ao outro, mas respeitar as identidades que os sujeitos escolhem. A poesia não está no heterossexual nem no homossexual, mas nas diferenças, em nossas singularidades e, por isso, cada um de nós temos uma orientação sexual diferente, haja vista que não somos iguais.
E o que isso tem a ver com nossa mulher sedutora? Tudo! Ela é mais uma dessas pessoas que questionam essa divisão. E sem nenhuma teoria a mesma recusa esses rótulos e por isso não separa os homens como heterossexuais ou homossexuais e por isso já “ficou” com vários amigos gays.
E para aqueles que acham que nossas concepções de sexualidade são um desserviço eu questiono: como as suas concepções de sexualidade natural têm produzido menos hierarquia? Que lugar há para os sujeitos que não se enquadram nas posições dicotômicas? Que propostas políticas suas concepções científicas têm para oferecer aos sujeitos que através das ideias preconceituosas são considerados anormais? Não estou afirmando que não possa haver alguma vantagem em outras concepções de sexualidade, mas é importante pensarmos os limites dessas concepções.
Ao ler um artigo meu sobre o questionamento da identidade, ND respondeu por email:
“Aprendi coisas com ele. Eu fico pensando nessas horas que se eu n tivesse te conhecido o qto de mim mesma eu tb n teria descoberto! Acho q só vc p me ver ou me mostrar como vccolocou em seu texto. E como isso explicou tantas coisas de toda a minha vida e como isso tb me fez ver outras possibilidades e quetões q antes n existiam por total falta de informação minha e tb por n saber direito o q pensar ou fazer com meus desejos, praticas e fantasias.No apagar das luzes ainda existe o q iluminar sobre o infinito mistério q somos nós mesmos.Sou muito grata ao universo pela possibilidade de te conhecer e de dividirmos ideias, pensamentos, esperanças … Essas trocas alimentam meu ser, minha alma”.
É nisso que acredito, que quando desnaturalizamos a sexualidade e respeitamos os sentidos que cada pessoa dá às suas vivências, nós permitimos ao outro um lugar humanitário, não-patológico. Quando enquadramos tudo em duas ou três posições, fazemos uma assepsia marginal na vida alheia, em outras palavras, violentamos os sujeitos.
Assim, em tempos de Marco Feliciano, eu renuncio à ideia do heterossexual passivo se vocês renunciarem à ideia do heterossexual. Quanto a identidade da mulher que penetra homens, não sei em qual ela se enquadraria, mas certamente “bonita e sedutora” seriam bem mais apropriadas que heterossexual ou homossexual.
*Uso o termo identidade sexual não como forma de designar o gênero, o que é mais habitual, mas para qualificar o termo identidade, que é muito genérico.
** Embora cite o termo “mais uma pá de cal” com uma analogia a um enterro, não estou dizendo que acredito no fim das ideias essencialistas e naturalizantes.
[1] CECCARELLI, P. R. A invenção da homossexualidade. In: BAGOAS – estudos gays, gêneros e sexualidades, Natal, 2, 71-93, 2008.
[2] COSTA, J.F. A inocência e o vício. Estudos sobre homoerotismo. Rio de Janeiro: Relume Dumara, 2002.
[4] PARKER. R. G. Cultura, economia política e construção social da sexualidade. In: LOURO. G. L. O corpo educado. Pedagogias da Sexualidade. Belo Horizonte, MG: Autêntica Editora, 2000.
[5] FRY, P. & MACRAE, E. O que é a homossexualidade. São Paulo: Brasiliense, 1985.
[6] WEEKS. J. O corpo e a sexualidade. In: LOURO. G. L. O corpo educado. Pedagogias da Sexualidade. Belo Horizonte, MG: Autêntica Editora, 2000.
[7] HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução Tomás Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro. 6. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.
[8] MINISTÉRIO DA SAÚDE. Bela Vista e Horizonte: Estudos Comportamentais e Epidemiológicos: Entre homens que fazem sexo com homens. Brasilía: 2000.
[9] HALBERSTAM, J. Masculinidad femenina. Barcelona & Madrid: Egales, 2008.