Beijos não bastam: breve reflexão sobre, e para, as travestis

Viviane V*

“Um beijo para quem é travesti”, escrevem em cima de algumas fotos e imagens por telas de computador.

E eu me pergunto, com alguma inocência e curiosidade sincera, se alguma destas pessoas, de fato, já beijou uma travesti. Se conhece alguma travesti, até, ou se já conversou com alguma por alguns minutos.

Não sei. E, ao não saber, começo a refletir sobre algumas coisas:

Quem manda estes beijos apresentaria, enfim, uma travesti à sua família? Como companheira, como amiga, como amante?

Quem manda estes beijos empregaria ou contrataria uma travesti para uma posição profissional compatível com suas qualificações? Respeitaria sua identidade de gênero (feminina) antes, durante e após sua eventual contratação?

E aquelas pessoas que não mandam beijos, então? Consideram-nas humanas, dignas de tratamento respeitoso, dignas da plenitude de seus direitos?

Tampouco saberia responder tais perguntas. Acredito, porém, que os beijos – figurados, reais ou inexistentes – possam trazer à tona discussões importantes.

A pessoa que aqui escreve se considera uma pessoa travesti – e não somente isso. Uma mulher travesti. E refletir sobre esta identificação tão marginalizada é, inevitavelmente, pensar sobre uma parte considerável de minha vida, em seus tormentos, dilemas e anseios, bem como nas vidas e realidades sociais de muitas outras pessoas. Travesti não é bagunça, parafraseando outra célebre frase, mas as sociedades contemporâneas fazem uma bagunça danada na vida de boa parte das travestis.

Luma Andrade: primeira travesti do Brasil a apresentar uma tese de doutorado, segundo informa a ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Transgêneros).

Embora não haja critérios objetivos para se dizer quem é travesti (tentativas de delimitar estes critérios não faltaram, no entanto), costuma-se associar as vivências travestis aos hormônios, às cirurgias plásticas, às ruas em que o sexo é negociado, aos assassinatos cotidianos, além de diversos termos ofensivos relacionados a estas pessoas. Mais que tudo, entretanto, acredito que as vivências travestis estejam associadas à ideia (equivocada) de que as travestis não têm direito às suas identificações como mulheres e/ou como pessoas femininas, quando não à sua humanidade mesma.

Ao serem desumanizadas, ao serem simplificadas àquilo que uma sociedade ávida por menosprezar deseja – ao lugar da abjeção, da marginalidade, da disponibilidade e abuso do sexo pago e descompromissado –, ao terem seus nomes sociais desrespeitados, as travestis seguem caminhos individuais repletos de problemas, tão complexos quanto se esperaria de qualquer grupo humano, mas compartilhando uma série de características comuns.

Processos de desumanização e simplificação não são novidade em nosso mundo. Eles foram particularmente presentes em um longo projeto idealizado na Europa Ocidental, historicamente referenciado como o projeto colonial. Ou ‘os projetos coloniais’. Em que a história deste(s) projeto(s) detestável(is) – com consequências nefastas até os dias de hoje – poderia contribuir ao entendimento crítico das vivências travestis?

Desumanizar e simplificar foram crimes massivamente cometidos contra pessoas que não pertenciam ao grupo social (branco, europeu, cristão) que tinha como projeto dominar e explorar terras alheias. Tais crimes foram, frequentemente, camuflados como ações supostamente bem-intencionadas, como ‘catequizar’, ‘civilizar’, ‘salvar’. Como se as sociedades europeias tivessem um direito divino à exploração de outras sociedades humanas. Como se as pessoas exploradas fossem as culpadas pela sua situação desumanizada após o ‘contato’ com colonizadores. Como se estas pessoas tivessem de se adequar a um mundo pensado por, e para, pessoas europeias.

Falam de um projeto para ‘preparar travestis e transexuais para disputar empregos’, e não deixo de pensar, como economista com alguma experiência profissional e por certo tempo desempregada ou subempregada (uma situação bastante privilegiada dentro do contexto das pessoas travestis), que a ‘preparação’ do mercado de trabalho às diversidades é algo mais fundamental e relevante que a preparação das pessoas trans a este mercado (o que não torna, evidentemente, o acesso a recursos educacionais inútil; pelo contrário, especialmente se consideradas as discriminações existentes contra pessoas trans em ambientes escolares).

Querem definir o que somos a partir de patologias, transtornos e imoralidades, tentando nos impor algumas poucas narrativas simplificadoras da ampla diversidade do que sentimos. Penso, então, nos absurdos do racismo ‘científico’, das lobotomias corretivas e das prisões de amores ilegais, e em como tudo isto é incompatível com algumas sociedades pré-coloniais onde ‘gênero’ não se definia exclusivamente entre ‘homem’ e ‘mulher’. Em como tudo isto é incompatível com sociedades que, agora discretamente envergonhadas de seu passado criminoso, se apresentam como promotoras de uma certa igualdade humana.

É preciso questionar as verdades e identidades que tentam nos impor na medicina, no direito e na sociedade em geral. É preciso construir uma nova história a partir destas supostas verdades dominantes, destruindo-as, quando necessário, com as armas resgatadas de passados esquecidos ou de futuros desejados.

Luana Muniz, que ganhou destaque nacional ao aparecer no programa "Profissão Repórter".

É imprescindível compreender cada morte de uma irmã travesti, seguida de desrespeitos vários nos meios de comunicação, como uma extensão palpável do projeto colonial europeu, cinicamente cristão, violentamente esbranquiçador, e comprometido com a regulação dos corpos e suas interações sexuais.

E, a partir destes questionamentos e compreensões, a conclusão é inequívoca: beijos, definitivamente, não bastam para superar a desumanização das travestis neste contexto histórico.

*Viviane é integrante do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade – CUS – e mestranda do Programa Multidisciplinar em Cultura e Sociedade da UFBA. Ela também é blogueira e sempre posta em http://porcausadamulher.wordpress.com/


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Um diário escrito com corpo, sangue e desejo

Fábio Fernandes

Rafael Medrado e Duda Woyda em "O Diário de Genet"

Você já imaginou um corpo sem órgãos? Ou melhor, que os órgãos que compõem a estrutura do nosso corpo fossem repensados, realocados de funções, posições fixas e articulações? Toparia se reorganizar? Não? Qual é o seu medo? Do desconhecido, do diferente, do anormal… medo de se tornar uma máquina inútil, fora da grande linha de produção?

O pensador Gilles Deleuze imaginou, através da metáfora conceitual dos Corpos Sem Órgãos, uma oposição aos organismos, uma fuga desses territórios fixos, dos sistemas que aprisionam e nos forçam a sermos cópias exaustivas e entediantes de outras existências. Cerceados e oprimidos, os seres são impedidos de experimentar outras existências, mundos e prazeres singulares, ao contrário, somos obrigados a seguir trajetos específicos e pré-determinados.

A rigidez de nosso corpo é a marca de uma existência dura, inflexível, organizada para ser “útil”. Útil ao que, subserviente a quem? Vale a pena existir para apenas pertencer a esse sistema? Tá a fim de experimentar novas formas de sentir, viver, ser e gozar? Tem medo? Você arriscaria gozar por outros lugares além da pica, da buceta ou mesmo do cu? Que tal enxergar pela boca, ouvir pelos olhos, falar com as mãos, sentir gostos e outros paladares com o nariz e tatear o mundo com os ouvidos?

Tá achando esse papo muito louco e absurdo? Então eu te proponho uma viagem ao mundo da experimentação, para a saída desse lugar comum do corpo e da arte. Eu te convido a mergulhar no universo de Jean Genet, um lugar em que é possível sair um pouquinho desse lugar de máquina. Um pedacinho desse mundo está sendo encenado/performado na peça “O Diário de Genet”, sob a direção de Djalma Thurler, em cartaz na Sala do Coro do TCA (Salvador).

Esse espetáculo/performance põe em cena os atores Duda Woyda e Rafael Medrado e logo de imediato percebemos que eles estão ali despidos de personagens: não há neles a representação de um sujeito, ou personas fixas, mas o mergulho do ator (e do público) numa performance visceral, intensa e muito mais sensorial do que o que nossa noção de realidade impõe.

Esse diário é escrito a partir de um texto não linear. O mundo marginal, inconstante, perigoso, vagabundo e sedutor do filho de uma prostituta, abandonado cedo pela mãe, e que viveu a juventude em reformatórios e prisões é experenciado com o vigor de dois corpos que se chocam em cena. As cenas entre os atores são intensas, em uma performance de danças vigorosas, flutuantes, violentas. Há ali, dois corpos que desejam se tornar um. Um corpo que deseja ser mil.

As experiências marginais de Genet se aliam a um texto forte, político, que almeja dar um soco no estômago de uma sociedade que constrói e define quem são os marginais, determina quais são os prazeres possíveis… violenta quem está fora das normas. Uma violência que transforma, por exemplo, a palavra “viado” numa injúria, no xingamento que massacra. Uma violência que determina quem pode gozar e por onde. Os corpos que estão em cena são politicamente subversivos: o choque da nudez, o suor literal de performances carregadas de potência, o encontro erótico e visceral dos marginais, o grito, o silêncio.

Cenários, iluminação e estrutura narrativa fogem do clichê das produções mais próximas dos formatos tradicionais de teatro. A direção de Djalma Thurler experimenta intencionalmente um teatro mais performativo, impactante, contemporâneo e carregado do hibridismo entre muitas artes.

O tecido narrativo ali costurado nos apresenta o desejo político de renunciar às prisões físicas, subjetivas e moralistas que se impõem sobre nós. A trama é complexa, mas carregada de uma força que põe o público em cena. Não há uma distinção rígida entre sentir e pensar, façamos os dois com o desejo multiplicado à milésima potência. Genet é ora Duda, ora Rafael, mas o público também é Genet. Genet simboliza o abjeto, o marginal, nos instiga a sairmos do cárcere de nossos falsos e ocos privilégios, vidas com pouquíssimo sentido para existirmos. É o convite para o risco de ir além do que você vê no espelho. E aí, ainda está a fim?

Datas: 04 DE MAIO A 26 DE MAIO DE 2013.
SÁBADOS E DOMINGOS: 20:00
VALOR: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)
TEATRO DA SALA DO CORO DO TCA.


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Como os homossexuais podem lidar com a solidão e o abandono na velhice?

Gilmaro Nogueira

Textos jornalísticos e acadêmicos têm ressaltado a dupla estigmatização que atinge sujeitos por serem homossexuais e idosos. Além de inúmeras situações de abandono, isso tem feito várias dessas pessoas retornarem ao armário. Essa realidade ainda precisa ser melhor explorada por pesquisas, para que possamos refletir como essas condições podem ser alteradas e que prioridade essa situação pode ocupar na agenda política do Movimento LGBT.

Mas, ao mesmo tempo em que essas pesquisas se fazem necessárias, produzem também um certo pânico e medo dessa fase da vida. A terceira idade não é apenas uma fase difícil na vida dos homossexuais, mas um fantasma que assombra diversos sujeitos que ainda estão distante de chegar em tal situação.

Alguns, toxicômanos de um corpo marcado pela juventude, reduzem tais questões a (des)erotização ou (des)sexualização, mas outros recebem essas notícias e estudos como “prova” de uma impossível existência homossexual saudável. Assim, em lugar de se problematizar as relações familiares e políticas que relegam os sujeitos idosos ao abandono, questiona-se a homossexualidade, e reforça-se o preconceito contra as relações entre pessoas do mesmo sexo.

A condição da homossexualidade na terceira idade é também uma punição social aos sujeitos – punição a um modo de vida/existência não condizente com o esperado; uma forma violenta de dizer que, no final das contas, uma escolha foi equivocada e que o indivíduo “optou” por um fim trágico. Um modo de anunciar aos jovens o que pode lhes esperar no futuro, caso não sejam heterossexuais.

Esse anúncio produz medo, receio e estigma. Alguns sujeitos passam a acreditar que o modo de ter cuidados na velhice é através do casamento e dos filhos, biológicos ou adotivos. Mas o abandono de muitos sujeitos heterossexuais na velhice têm demonstrado que o casamento e os filhos não asseguram o cuidado, embora, no caso desses, pesam apenas o estigma da velhice, uma vez que a heterossexualidade não é socialmente condenada.

Além do abandono, os sujeitos que estão nessa fase da vida, mesmo gozando de saúde e autonomia, são vistos, inclusive entre muitos homossexuais, como inaptos sexuais, alvo de piadas e aversão.

Lembro da expressão de espanto e aversão de algumas pessoas que assistiam ao filme Shortbus, numa cena em que um homem idoso beija um jovem. Essa situação também encurrala os homossexuais numa busca eterna de uma juventude, menos estigmatizada que a velhice. Obviamente que esse não é o único motivo para essa supervalorização da juventude.

Mas retornando a questão da velhice e abandono, como resolver tal situação? Foi uma das questões que analisamos num encontro de discussão de filmes, que realizamos na UFBA, no último dia 27/04. No final do encontro parecíamos pouco acreditar no casamento como modo de resolver tal questão e apostamos na amizade.

O filósofo Foucault também apostou na amizade. Para ele, a homossexualidade pode ser uma forma de escapar da normatização social através de novos estilos de vida, novas relações e, entre essas, a amizade. Amizade como uma relação de cuidado e afeto, tal como em épocas passadas. Foucault chega a dizer nesta entrevista que após o estudo da História da sexualidade seria preciso pensar a história da amizade e ressalta a importância de novos modos de relações afetivas, sexuais, éticas e políticas.

Amizade como política. Assim, é importante pensarmos na atuação dos sujeitos na busca por direitos negados, mas nossa concepção de política não pode se limitar a buscar ter o que os heterossexuais têm. É preciso apostar em uma nova ética – em relações que formulem novos conceitos de família e afeto, para além da instituição do casamento. Modos de cuidados não limitados ao vínculo biológico e/ou institucionalizado.

É preciso pensar numa existência que passe pelo encontro – de pessoas que aprendem a se amar, se cuidar, e que como toda e qualquer família há brigas, desencontro e reencontros. Foi essa a sensação ao final do nosso cine debate – de que o futuro é sombrio, incerto, mas que não precisamos enfrentar isso sozinhos e que ninguém poderá cuidar de nós tão bem quanto nós mesmos, e é por isso que, no momento, o que melhor podemos fazer é valorizar mais as nossas amizades do que, por exemplo, as marcas de nossas roupas.

 


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Um manifesto em respeito às diferenças

Leandro Colling

site XL

Estamos vivendo em um momento histórico em que está muito evidente a tentativa, feita na base de muita violência, muitas vezes em nome de Deus, de disciplinar os corpos e comportamentos das pessoas para que todas vivam de um mesmo modo. Só esse modo, muito restrito, no qual a rigor pouquíssimas pessoas conseguem se enquadrar 100%, é tido como respeitável e normal.

É claro que isso não é uma novidade da atualidade. Mas agora, com o crescimento do fundamentalismo religioso e de outras questões, tais discursos, que geram uma sucessão de ações e/ou outros discursos, essa tentativa de regulação de nossas vidas volta à pauta com força, acompanhada de muitas lágrimas, revoltas, dores, reações e alguma esperança. E isso faz com que ressurjam velhos discursos que, pouco tempo atrás, pareciam menos encorajados e, portanto, aparentemente fadados ao esquecimento.

Por causa desse contexto, bem mais complexo do que digo nessas poucas linhas acima, o espetáculo XL – Uma releitura queer do ballet Giselle, um solo criado e interpretado pelo coreógrafo e bailarino Eberth Vinícius, em cartaz no VIVADANÇA 2013, ganha importância e merece ser visto.

Eberth promove um espetáculo, ou melhor, um grito em defesa das diferenças que existem em todos nós, queiramos ou não, aceitamos ou não, saibamos ou não, queiram os fundamentalistas ou não. Para fazer isso, ele escolhe a linguagem de sua área de trabalho e, em sua releitura do ballet Giselle, faz uma dura crítica à própria dança que, em alguns casos, se transforma em um verdadeiro quartel de produção ritualizada e disciplinada de gestos, corpos, vidas. Se fizesse apenas isso, o espetáculo já valeria a pena.

Mas Eberth vai além da crítica ao ballet, pois desconstrói também a música, os papéis de gênero atribuídos para uma “verdadeira bailarina” e chega no lugar dos nossos detritos, naquele lugar onde descartamos aquilo que mais nojo nos provoca. Mas essas coisas nojentas, ironicamente, saem de nós mesmos, são partes nossas. Mas é lá que Giselle, a anti-bailarina, goza.

É no local da abjeção, para onde a sociedade destina os diferentes, que a nossa bailarina goza, se liberta, denuncia a norma e a implode. Quer analogia mais pertinente com os nossos tempos do que isso?

Vá ver o espetáculo, pense e faça você mesmo as suas relações e reflexões.

Foto de João Milet Meirelles

Publicado em: http://festivalvivadanca.com.br/2013/v1/pt/mural/51-um-manifesto-em-respeito-as-diferencas em 19/04/2013.

FICHA TÉCNICA

XL – uma releitura queer do balé Giselle”
Intérprete: Eberth Vinícius
Direção: Marcelo Sousa Brito
Trilha sonora: Felipe André Florentino (com colaboração de Adriana Prates, Voz em off Ana Karla Sampaio e trechos de músicas gentilmente cedidos pela dupla Solange Tô Aberta)
Designer de luz: Márcio Nonato
Produção: Soter Xavier e Junior Oliveira
Foto: Gabriela Leite

Apresentações: 24, 25 e 26 de abril, ás 19 horas no ICBA.


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Qual a orientação sexual de uma mulher que penetra homens? Bonita e sedutora, talvez!

Gilmaro Nogueira

Esse texto é uma continuação do post anterior: “Hétero-passivo é tendência!”, que gerou muita discussão aqui no blog e nas redes sociais. Vou abordar o tema agora falando das mulheres por dois motivos: a) quero enfatizar o protagonismo das mulheres no ato sexual com homens; b) pretendo problematizar as concepções de identidade a partir da prática sexual anal.

Geralmente nos textos do blog evitamos trazer muitas referências teóricas, pois entendemos que a escrita aqui deve ser mais leve/livre, mas, nesse texto, vou me permitir citar teóricxs, pois algumas pessoas acreditam que estamos trazendo esses temas sem nenhuma reflexão científica, apenas como divagações de nossas mentes.

Gostaria também de dedicar esse texto a uma mulher excepcional, uma pessoa carinhosa, afetuosa, amiga, verdadeira e solidária. Uma mulher que conheci nas discussões de filmes e que aqui vou chamar de Nina Donna (ND), por uma escolha dela mesma.

A primeira vez que ND penetrou um homem foi aos 19 anos, quando convenceu um namorado a aceitar tal prática e depois fez o mesmo com outros homens.

Quero acrescentar que ND não sente atração por mulheres e se relaciona exclusivamente com homens. Não importa se esses homens são heterossexuais ou homossexuais, pois ela não considera essa diferença. Certa vez disse: “Não vejo heterossexuais ou homossexuais, vejo homens!” Outra singularidade é que no ato sexual há uma inversão de gêneros e, às vezes, ND se masculiniza e o companheiro se feminiliza.

Créditos: http://www.sauco.ru/

Qual seria a orientação sexual dessa mulher? Seria heterossexual ou homossexual? Alguns diriam heterossexual, pois suas relações são apenas com homens, mas sua prática sexual difere e muito do script heterossexual, em que o homem penetra a mulher – a domina. Para outros, a prática seria homossexual, pois centrariam sua análise no homem que é penetrado, no entanto, essa prática se dá entre sexos opostos, logo não pode ser homossexual.

Até me surpreendi com a grande quantidade de comentários no blog que consideram heterossexual a penetração de uma mulher num homem (sinal que a prática é mais comum do que o que imaginamos), mas cabe ressaltar que a prática sexual heterossexual, tal como pensada pelos psiquiatrias do séc. XIX, está ligada à reprodução da espécie e, por isso, confunde órgãos sexuais com órgãos reprodutivos, logo essa prática (mulheres penetrando homem) está fora do roteiro sexual prescrito.

Por isso questiono: qual a orientação sexual dessa mulher que penetra homens? Nenhuma dessas orientações mais conhecidas dão conta de explicar a sua sexualidade, mas não só a dela, todas as outras também escapam dessa divisão binária. É por isso que a heterossexualidade e a homossexualidade são consideradas apenas aproximações grosseiras e não realidades em si mesmas.

Surpreendi-me também com a grande quantidade de pessoas que pesquisam sexualidade e criticaram o texto tentando encaixar o hétero-passivo em homossexual do armário, aderindo assim à divisão hétero versus homo. Mais uma vez gostaria de ressaltar que não estou desconsiderando o preconceito contra homossexuais, o que empurra muitos sujeitos para o armário, mas não se pode perder de vista que a homossexualidade e heterossexualidade não são identidades naturais, mas invenções (não estou falando da prática sexual, mas da identidade e/ou da leitura que se faz da prática).

Fonte: http://www.sauco.ru/

Vou discutir um pouco essa questão, lembrando que muitas pessoas, com problemas de interpretação de texto, leram o artigo de Leandro Colling, “Porque a heterossexualidade não é natural?”, como se ele estivesse afirmando que a heterossexualidade é anormal ou patológica, ou como se quisesse naturalizar a homossexualidade como padrão.

Quando dizemos que a heterossexualidade não é natural, e que as identidades são invenções, estamos afirmando que nenhuma identidade é natural, nenhuma delas é anormal em si, mas que suas construções e signos associados à elas são invenções humanas. Não estamos patologizando nenhuma identidade, nem dizendo que as pessoas devam ser isso ou aquilo, mas apenas afirmando que “nenhuma identidade é natural – são ficcionais!”.

Mas com base em que fazemos tal afirmação? É apenas um modo de fazer política ou temos alguma teoria por base dessas considerações? Em que teoria se apoia a ideia de que a identidade não é natural?

Vou começar com a psicanálise. Para a psicanálise ninguém nasce mulher ou homem, nem masculino ou feminino, nem heterossexual ou homossexual. Os caracteres biológicos (pênis/vagina) não determinam nossa sexualidade. Nesse sentido, o sujeito só tem uma identidade após a saída do complexo de édipo, por volta dos 4 a 6 anos de idade. Não vou discutir aqui a teoria do édipo, mas importa saber que a identidade (sexual) é resultado da identificação da criança com um traço, e não o sexo, de um seus genitores.

Vou citar ainda alguns psicanalistas, entre eles: Paulo Roberto Ceccarelli[1], que considera que a homossexualidade é um artefato classificatório, uma invenção que faz parte de uma construção simbólica da cultura ocidental, que impõe uma sexualidade como natural e a reduz a função reprodutiva.

Ainda segundo Ceccarelli, os padrões de sexualidade humana não são inatos, mas criados, vivenciados dentro de um imaginário social ao qual estamos inseridos e, embora acreditemos na existência “natural” dos sujeitos heterossexuais, bissexuais e homossexuais, trata-se de uma crença ideológica, vivida como algo intuitivo e universalmente válido.

Outro psicanalista a questionar a concepção de identidade sexual* natural é Jurandir Freire Costa[2], motivo pelo qual prefere o termo homoerotismo, por acreditar que esse termo não representa uma substância homossexual, orgânica ou psíquica, comum a todos os homens. Costa critica a ideia de um psiquismo ou estrutura psíquica heterossexual ou homossexual, e em vez disso propõe que pensemos nessa divisão não como realidade natural, mas linguística.

Um terceiro psicanalista, Contardo Calligaris[3], problematiza a distinção homossexual e heterossexual como ponto crucial para definir a personalidade dos sujeitos e reflete que a fantasia define muito mais uma pessoa que a identidade. Um exemplo dado é que um homossexual com fantasias sadomasoquistas tem muito mais a ver com um heterossexual também com fantasias parecidas, do que com outro homossexual.

Mas um sujeito ressaltou no blog que a psicanálise não é uma ciência. Eu, pessoalmente vejo muita coerência na psicanálise, mas se alguém não quiser aceitar os argumentos psicanalíticos, podemos falar em antropologia, embora nos últimos dias existam antropólogos aderindo à biologia como forma de explicar as diferenças sexuais – uma vergonha!

Um dos antropólogos que discutiu a questão das identidades foi Richard Parker[4], analisando que a experiência sexual é produto de um conjunto de processos sociais, culturais e históricos, e não de uma natureza humana imutável. Muito embora os indivíduos tenham ao seu dispor um sistema de referência, e perspectivas culturalmente construídas e valorizadas, as experiências são singulares, produzindo um complexo múltiplo de subsistemas, conflitantes e contraditórios.

Ainda segundo Parker, muitas das categorias e classificações centrais utilizadas pela medicina ocidental estão longe de serem universais, ao contrário, essas classificações podem estar ausentes, ou no mínimo estruturadas diferentemente em muitas sociedades e cultura. Assim, a interação sexual entre homens, por exemplo, podem organizar uma diversidade de identidades.

Peter Fry e Edward MacRae[5] também discutem como se produziu as identidades sexuais no Brasil, evidenciando o modo como a ciência europeia cristalizou a divisão heterossexual versus homossexual. Esses dois antropólogos situam a identidade menos como um objeto da medicina ou psicologia, e mais como parte da cultura e política.

Um outro teórico importante é o sociólogo e historiador Jeffrey Weeks[6], que tem discutido o modo como essas identidades foram construídas pela ciência, e antes de representarem uma realidade natural, são produções políticas que tem por objetivo hierarquizar os sujeitos.

Os estudos culturais também têm questionado a ideia de uma identidade natural ou una, assim como a concepção de um sujeito heterossexual ou homossexual, opostos, que não sejam fluídos, marcados por inconstâncias, incoerências, mas, acima de tudo, situando essas identidades a partir de processos históricos e políticos.

Stuart Hall[7] inclusive alerta para o risco de essencializar posições identitárias, naturalizadas e fixadas sobre determinado significante (étnico, gênero ou sexo) fora da história e da intervenção política, destacando também que não podemos ser representados somente por determinado signo. Estamos sempre negociando diversos tipos de diferenças, de gênero, sexualidade e classe, para citar apenas alguns marcadores. Essa negociação se dá não apenas com um único conjunto de posições, mas com uma série de posições diferentes. Para Hall, a identidade tem se tornado uma “celebração móvel”, sendo constantemente transformada nos sistemas culturais que nos rodeiam, dessa forma, tem surgido novas identidades que fragmentam o indivíduo pós-moderno.

E, por fim, os estudos queer, que questionam as posições binárias e essencializadas, têm jogado mais uma última pá “pedra de cal”** sobre essas concepções essencialistas, ressaltando o modo como as tecnologias de gênero produzem sujeitos normais e anormais. Esses sujeitos, organizados em identidades estáveis, não são realidades em si mesmas, mas produzidos através de saberes e poderes. Esses estudos têm realizado uma crítica à heterossexualidade compulsória e a heteronormatividade.

Não vou continuar citando teorias que questionam a identidade, e importa dizer que essa concepção de heterossexualidade ou homossexualidade como natureza humana não se apoia na psicanálise, antropologia, sociologia, estudos culturais, história, estudos culturais e teoria queer.

Alguém pode desmerecer esses saberes e valorizar apenas as ciências exatas e biológicas como fonte de verdade. É bom lembrar que Prigogine, Nobel de química, ressaltou que as ciências duras não possuem um saber absoluto, isto é, são passíveis de questionamentos e, por isso, eu realmente prefiro as ciências humanas e sociais como modo de explicação da sexualidade, por um compromisso político e pelo valor que coloca no estudo da cultura e da história, o que pode explicar como pensamos o que pensamos.

Significa dizer que nem eu, nem você, nem Silas Malafaia, nascemos heterossexuais ou homossexuais, logo não há motivo para cura, uma vez que não há desvio, mas uma concepção de desvio, que hoje não se sustenta mais na ciência, ou melhor, nos saberes que citei acima.

Mas o que fazemos? Policiamos a sexualidade de modo a enquadrar as pessoas em heterossexuais ou homossexuais e fazemos uma assepsia de modo que a naturalização da heterossexualidade é constantemente garantida por estudos que deveriam questionar a essencialização.

Vou citar um exemplo: num estudo sobre comportamentos epidemiológicos entre homens que fazem sexo com homens, realizada em Minas Gerais, no ano de 2000 e publicado pelo Ministério da Saúde[8], foi perguntado a 446 participantes: “Que palavra você usa para descrever sua sexualidade?” e a resposta foi:

Ambígua, ativo, ativo liberal, atraente, bicha, bissexual, bofe, bonita, coisa boa, confuso, desejo, diferente, doentio, entendido, entendido ativo, entendido passivo, feliz, feminino, florzinha, frio, frio homem, Gay, gostoso, hetero-homo, homem, homem muito macho, homoerótico, homossexual, homossexual ativo, homossexual passivo, homoternurista, indefinida, intensa, liberado, liberdade, libidinoso, livre, mulher, normal, o máximo, pansexual, passivo, polissexual, prazer, relacionamento, responsável, sentimental, sexuado, sexual, tarado, ternura, tímido e metódico, travesti, veado, versátil, voraz, além de outros do tipo, não sei me categorizar, não me ocorre nada, não sei, não gosto de rótulo e isso parece um rótulo, não quero responder, nenhuma, num ambiente careta sou hétero.

A partir dessas respostas os pesquisadores enquadram esses sujeitos em três categorias: entendidos, gays e bissexuais. Ou seja, nos esforçamos constantemente para manter a divisão binária de heterossexual versus homossexual e às vezes consideramos a bissexualidade. A sexualidade é enquadrada em categorias limitadas.

As pessoas internalizaram essa divisão e algumas não conseguem pensar além dessas fronteiras. Mas como superar essa divisão? Alguns podem recusar a identidade e os rótulos, o que é válido, no entanto cabe ressaltar que mesmo quando você não se identifica com tal identidade, os outros atribuem rótulos aos sujeitos.

Há também uma outra alternativa, que é uma ideia de Jack Halberstam[9], teórico queer, que esteve em Salvador ano passado, e que considera que um modo de fazer política é através das identidades vernáculas ou populares, e isso justifica a identidade do heterossexual-passivo, do bolo-doido, total-flex, hétero-que-abre-excessão, e outros termos utilizados em Salvador, pelos sujeitos, para descreverem suas sexualidades. Essas identidades questionam a essencialização e, de certo modo, contaminam o binarismo.

Não estou aderindo a ideia de um novo sujeito natural, mas pensando que é tão viável o hetero-passivo quanto o heterossexual, uma vez que ambos são invenções, ficções. Ressalto que não desejo tornar com isso ninguém homossexual, ao contrário, o que menos queremos, e digo isso no plural, é designar ou imputar uma identidade ao outro, mas respeitar as identidades que os sujeitos escolhem. A poesia não está no heterossexual nem no homossexual, mas nas diferenças, em nossas singularidades e, por isso, cada um de nós temos uma orientação sexual diferente, haja vista que não somos iguais.

E o que isso tem a ver com nossa mulher sedutora? Tudo! Ela é mais uma dessas pessoas que questionam essa divisão. E sem nenhuma teoria a mesma recusa esses rótulos e por isso não separa os homens como heterossexuais ou homossexuais e por isso já “ficou” com vários amigos gays.

E para aqueles que acham que nossas concepções de sexualidade são um desserviço eu questiono: como as suas concepções de sexualidade natural têm produzido menos hierarquia? Que lugar há para os sujeitos que não se enquadram nas posições dicotômicas? Que propostas políticas suas concepções científicas têm para oferecer aos sujeitos que através das ideias preconceituosas são considerados anormais? Não estou afirmando que não possa haver alguma vantagem em outras concepções de sexualidade, mas é importante pensarmos os limites dessas concepções.

Ao ler um artigo meu sobre o questionamento da identidade, ND respondeu por email:

“Aprendi coisas com ele. Eu fico pensando nessas horas que se eu n tivesse te conhecido o qto de mim mesma eu tb n teria descoberto! Acho q só vc p me ver ou me mostrar como vccolocou em seu texto. E como isso explicou tantas coisas de toda a minha vida e como isso tb me fez ver outras possibilidades e quetões q antes n existiam por total falta de informação minha e tb por n saber direito o q pensar ou fazer com meus desejos, praticas e fantasias.No apagar das luzes ainda existe o q iluminar sobre o infinito mistério q somos nós mesmos.Sou muito grata ao universo pela possibilidade de te conhecer e de dividirmos ideias, pensamentos, esperanças … Essas trocas alimentam meu ser, minha alma”.

É nisso que acredito, que quando desnaturalizamos a sexualidade e respeitamos os sentidos que cada pessoa dá às suas vivências, nós permitimos ao outro um lugar humanitário, não-patológico. Quando enquadramos tudo em duas ou três posições, fazemos uma assepsia marginal na vida alheia, em outras palavras, violentamos os sujeitos.

Assim, em tempos de Marco Feliciano, eu renuncio à ideia do heterossexual passivo se vocês renunciarem à ideia do heterossexual. Quanto a identidade da mulher que penetra homens, não sei em qual ela se enquadraria, mas certamente “bonita e sedutora” seriam bem mais apropriadas que heterossexual ou homossexual.

*Uso o termo identidade sexual não como forma de designar o gênero, o que é mais habitual, mas para qualificar o termo identidade, que é muito genérico.

** Embora cite o termo “mais uma pá de cal” com uma analogia a um enterro, não estou dizendo que acredito no fim das ideias essencialistas e naturalizantes.


[1] CECCARELLI, P. R. A invenção da homossexualidade. In: BAGOAS – estudos gays, gêneros e sexualidades, Natal, 2, 71-93, 2008.

[2] COSTA, J.F. A inocência e o vício. Estudos sobre homoerotismo. Rio de Janeiro: Relume Dumara, 2002.

[3] CALLIGARIS, C. O psicanalista explica por que a homossexualidade incomoda tanto? Revista Trip. Disponível em: http://revistatrip.uol.com.br/revista/204/reportagens/contardo-calligaris.html Acesso em: 20/01/2012.

[4] PARKER. R. G. Cultura, economia política e construção social da sexualidade. In: LOURO. G. L. O corpo educado. Pedagogias da Sexualidade. Belo Horizonte, MG: Autêntica Editora, 2000.

[5] FRY, P. & MACRAE, E. O que é a homossexualidade. São Paulo: Brasiliense, 1985.

[6] WEEKS. J. O corpo e a sexualidade. In: LOURO. G. L. O corpo educado. Pedagogias da Sexualidade. Belo Horizonte, MG: Autêntica Editora, 2000.

[7] HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução Tomás Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro. 6. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

[8] MINISTÉRIO DA SAÚDE. Bela Vista e Horizonte: Estudos Comportamentais e Epidemiológicos: Entre homens que fazem sexo com homens. Brasilía: 2000.

[9] HALBERSTAM, J. Masculinidad femenina. Barcelona & Madrid: Egales, 2008.

 


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Manifesto contra a DITADURA GAY no Brasil: os privilégios de uma “minoria”

Fábio Fernandes

A sociedade está cansada desse assunto. Aborrecida e temerosa com esses pecadores, amorais e anormais que querem transformar o mundo num “viadeiro”. A intenção é a de destruir a família nuclear, natural e tradicional: e a procriação? E a Bíblia? E as nossas crianças? Essas pessoas querem impor um estilo de vida, querem mais privilégios que todos, uma maioria que está sofrendo com esse ódio gayzista. Somos obrigados a ver dois homens de mãos dadas e se beijando? Já basta a dificuldade de saber que essa gente existe.

Aposto que essa gayzada é a favor de cotas para negros e índios: o que eu tenho a ver com uma escravatura de não sei quantos séculos atrás ou do fato deles serem pretos, pobres ou terem estudado em uma escola pública de merda? Ah, faça-me o favor! Essa gente deve apoiar também essa lei ridícula que enche de regalias as empregadas domésticas! E nós temos culpa por sermos privilegiados, agora vamos ser explorados até por isso, já não basta o imposto de renda exorbitante que pagamos?

Deve ser a mesma gente que acha incrível essas mulheres ousadas (pra não chamar de putas) que saem a qualquer hora por aí usando roupas curtas, com conduta de vadia e reclamando quando são assediadas e estupradas. Esse Brasil, ah Brasil! Mulheres, negros, pobres e viados agora me chegam com essa história de opressão, machismo, homofobia e racismo pra lá e pra cá. Essas coisas NÃO EXISTEM. As coisas são como são, como Deus fez, ou seja, cada um com o que merece… quer dizer, eu estou falando do lugar das mulheres, a linda missão de ser mãe e colaborar para constituir a família e o lar, para que todos fiquem unidos; falo dos negros, gente para quem eu oro todos os dias, pois carregam uma maldição por serem pretos e muitos seguem uma religião diferente da cristã (a diabólica macumba), mas nada que uma conversão sincera não resolva (pelo menos em parte); e dos pobres, que reclamam demais, pois não bastam os altos impostos que nos cobram pra manter bolsas-família, hospitais e escolas públicas!

Ah, quem se esforça nessa vida se torna gente! Esse papo de menos favorecido socialmente é desculpa pra quem quer tudo fácil. Quanto à gayzada, esses sim eu condeno, não somos obrigados a aceitar esse tipo de comportamento, essa opção pela imoralidade que está se transformando numa ditadura! Sou contra os privilégios que querem dar a essas “pessoas”.

Esse meu desabafo surgiu quando eu li o texto de um tal de Leonardo Sakamoto, blogueiro do UOL, defendendo essa ditadura gay. Por sorte, na parte dos comentários, encontrei uma resposta à altura, incrível, um alívio diante de tanta mentira, deturpação e baboseira. O leitor defende a criação de um “Movimento Mundial contra a discriminação dos homens adultos, brancos heterossexuais, com escolaridade superior e empresários com boa renda”. Pessoas, isso é genial! Somos nós que sofremos com tanta opressão, fazemos esse país funcionar (e também financiamos os benefícios que essa outra gente que citei acima suga às nossas custas). Leiam e observem se não é dos argumentos mais lógicos, naturais e verdadeiros já ajuizados:

“Duvido que a UOL ou o Sakamoto autorizem publicar esse meu comentário, mas quem sofre discriminação somos nós: homens adultos, entre 30 e 50 anos, heterosexuais, sadios, brancos, com nível de escolaridade superior, empresários, e com uma renda compatível com nosso trabalho. Nós que não temos quotas para nada, ou leis especiais que nos protejam, ou direitos exclusivos em detrimento do conjunto da sociedade. Nós é que estamos sendo discriminados todos os dias, e sofrendo essa campanha permanente de perseguição e difamação dos meios de imprensa, da mídia e dos políticos, judiciário e governos. Os negros, pobres, gays, os doentes, os loucos, os velhos, os jovens, as crianças, os estudantes, os desempregados, os trabalhadores assalariados, os nordestinos, os mexicanos, os cubanos, os haitianos, os imigrantes ilegais, os deficientes, os analfabetos, as mulheres, enfim TODOS TEM LEIS PARA LHES PROTEGEREM E DAREM PRIVILÉGIOS, somente nós, não temos, e somos discriminados para tudo. Nem a ONU se preocupa com nossos direitos humanos. Sofremos discriminação e perseguição dia e noite e NADA é feito por nós. Não vão me convencer a virar gay, e não vão fazer com que eu fique na praia por 3 meses consecutivos para que pensem que descendo de ancestrais africanos. Continuarei sendo branco, homem, heterosexual, adulto, com boa escolaridade e com boa renda, pagador de impostos (ALTÍSSIMOS) mas não recebedor de serviços públicos à altura dos impostos que pago. Creio que vou lançar um MOVIMENTO MUNDIAL CONTRA A DISCRIMINAÇÃO DOS HOMENS ADULTOS BRANCOS HETEROSEXUAIS COM ESCOLARIDADE SUPERIOR E EMPRESÁRIOS COM BOA RENDA. Talvez seja a maneira de conseguir ter algum direito nesse planeta onde TODOS OS OUTROS GRUPOS só me dão o dever de TRABALHAR PARA sustentá-los, sem direito algum em troca.”

Entenderam? Nós, homens brancos, adultos, heterossexuais, com escolaridade superior e empresários com boa renda trabalhamos para sustentar toda essa corja e não temos nenhuma regalia, nenhum direito. Este é o nosso Brasil.

Tenham muita calma, leitoras e leitores. Essa personagem que introduz meu texto é ficcional, mas livremente inspirado no comentário sobre o tal movimento hétero e branco, esse sim eu li e fiquei… abismado, chocado. Estamos vivendo em uma fase na qual pessoas historicamente oprimidas estão saindo da invisibilidade, exigindo direitos e escancarando a necessidade de enxergamos e convivermos com as diferenças. Os muitos discursos por direitos iguais, baseados no raciocínio de que todos somos humanos e por isso não precisamos de “tratamentos diferenciados”, ignoram opressões históricas que violentam mulheres, negrxs, não heterossexuais, pessoas pertencentes a classes sociais mais baixas e também a religiões fora do círculo do cristianismo.

Durante séculos, mulheres não puderam votar, estudar, gozar, possuir um emprego para além dos afazeres domésticos e sempre foram criadas para serem mães, donas de casa e darem prazer sexual aos homens. O século XX foi marcado pelo surgimento das políticas feministas de libertação da mulher, do corpo feminino aprisionado, agredido, estigmatizado e até hoje oprimido (alguém aqui se lembra do tratamento dado às mulheres divorciadas?). Muitos desses movimentos falharam em incluir, na sua pauta, mulheres negras, pobres e moradoras de periferia, ou seja, estavam mergulhados em racismo e classismo. A discussão contemporânea segue no intuito de minimizar essas exclusões, realizar diálogos.

Negras e negros foram “libertos” e jogados das senzalas paras as ruas, sem direito a trabalho digno, estudo e moradia. Não tiveram acesso a uma mínima cidadania. Mais de um século depois e ainda somos descendentes de um país que chutou a população negra para as margens das cidades, impedindo-os de terem acesso a direitos básicos. As favelas, periferias, o povo preto que vive nas ruas, a cor negra predominante nas cadeias e presídios é produto de uma história que finge cordialidade, esconde um racismo que nem sempre é pronunciado, mas se faz presente na estrutura básica de uma sociedade que vive o medo da violência nas cidades e discute maioridade penal. A exclusão e discriminação racial é ignorada enquanto uma raiz fundamental para muitos de nossos problemas.

Carolina do Norte - EUA (1950)

A explícita desaprovação de uma parte da sociedade pela lei que garante direitos trabalhistas às empregadas domésticas é sintoma dessa mesma sociedade que tem fetiche em “escravizar” e explorar os mais pobres, pois a eles resta uma alternativa: aceitar a sua “condição”. Como também ignorar que o preconceito às religiões de matriz africana, rotuladas como “seitas”, ainda existe? O candomblé e a umbanda, por exemplo, foram demonizadas, estigmatizadas, violentadas, deturpadas e proibidas também porque sua origem as condenou “naturalmente”. O mundo precisa mesmo se resumir às referências cristãs e tudo que estiver fora dessa visão teológica deve ser condenado?

Agora sim eu posso falar dos que estão querendo impor uma “ditadura gay”. Desde a ascensão da burguesia no século XIX, com o surgimento das noções de heterossexualidade e homossexualidade (releia aqui um texto de Gilmaro Nogueira e outro de Leandro Colling discutindo especificamente esse tema), as sexualidades foram reprimidas, silenciadas e caladas em torno do ideal burguês da família e do casal legítimo, cuja função primordial seria a de reproduzir. A família nuclear e tradicional se torna mais uma peça da engrenagem de produção capitalista. O sexo, as práticas sexuais, em séculos anteriores, era realizado com menos pudores, vergonhas e proibições. Isso não quer dizer que tudo era permitido e nenhuma norma existia, mas, segundo o filósofo Michel Foucault, nessa época “os corpos pavoneavam”.

Com o estabelecimento de uma sociedade capitalista e industrial, o sexo estaria incompatível com os meios de produção e a força do trabalho não poderia ser dissipada com o excesso dessas práticas. Todo o esforço humano (e do homem) deveria estar focado no trabalho intensivo, na produção incessante e lucrativa das indústrias e cidades que cresciam imensamente. As práticas sexuais deveriam estar atreladas à reprodução, não ao gozo, ou seja, somente ao nascimento de mais mão-de-obra.

Pessoas não heterossexuais obviamente estariam fora dessa lógica (re)produtiva, seriam um obstáculo à meta capitalista de uma família burguesa escrava desse sistema. As sexualidades “ilegítimas” e “ilícitas” seriam agora analisadas, dissecadas como uma rã na mesa de um cientista, por juristas, médicos, religiosos, biólogos, políticos e moralistas que agora poderiam regular o sexo segundo leis bem rígidas. Não ser heterossexual é estar inserido no buraco do proibido, imoral, pecaminoso, abominável, anormal, perverso, ilegal, doentio e principalmente improdutivo. Esses seres devem buscar o seu lugar nas sombras da invisibilidade; ou aceitam esses rótulos, estigmas, marcas e desaparecem (de várias formas, incluindo a morte) ou se adequam à “normalidade heterossexual”.

A artista Marcela Tiboni e o corpo disciplinado

Séculos de apagamento, violência e exclusão explodiram em mulheres, negros e pessoas não heterossexuais o rasgamento do silêncio que gritava um NÃO bem sonoro aos seus corpos, vivências e suas muitas possibilidades. Esses corpos estariam fora do que foi delimitado pelo Estado, medicina, direito, religião e pelo capitalismo: historicamente violentados, proibidos, colonizados, impedidos de existir. São esses discursos que se transformam em violência e matam diariamente os diferentes: não heterossexuais, mulheres, negros e pobres. Mas, gostem ou não, essas pessoas existem e não querem impor estilos de vida, não almejam “gaycizar” o mundo, querem apenas coexistir com o valor, respeito, dignidade e direitos sendo quem são… e sem o medo que oprime e mata.

Apesar da ênfase dada à ditadura gay, inclusive no título deste texto, quero reforçar e refletir aqui que são inúmeras as opressões e normatividades impactando sobre essas pessoas, pesando muitas vezes simultaneamente sobre um mesmo corpo (uma mulher negra, lésbica, empregada doméstica, moradora de uma periferia e de classe baixa, por exemplo). A invenção da falaciosa ditadura gay ocorre quando transfere-se o status de opressor aos que são oprimidos: essa é uma das estratégias utilizadas por aqueles que se deparam com relações de poder e hegemonia sendo problematizadas, questionadas e criticadas. Pense nisso e REVEJA os seus privilégios, façamos o exercício de olhar para o outro com mais sensibilidade.

E você ainda vai reproduzir esse papinho, o opressivo mimimi de que gays, lésbicas, travestis, transexuais etc. querem impor o seu “comportamento subversivo” à toda sociedade? Vai acreditar que essas pessoas são o mal que vai acabar com a família feliz que você faz parte (sem ao menos ponderar que o conceito de família vai além de apenas um único modelo)? Vai engolir essa mentira chamada DITADURA GAY? Uma mentira bem contada pode bem se disfarçar de verdade, mas olhares e ideias mais críticas podem revelar esse teatro dos vampiros.


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O que o caso Feliciano nos ensina?

Leandro Colling

Fiquei esperando para escrever esse texto porque gostaria de terminá-lo com a comemoração da queda de Feliciano na Comissão de Direitos Humanos. Como isso não aconteceu, e parece que nem vai acontecer, resolvi escrever para tentar dar apenas algumas pistas rápidas para a questão título deste post.

O que esse movimento gerado a partir da escolha de Feliciano para presidir a Comissão nos ensina? Pela sua importância, esse momento merece ser estudado com muito cuidado e tempo, por isso vou apenas pincelar muito mais algumas possibilidades de estudo (hipóteses) do que conclusões, sempre a partir dos meus temas de interesse, a saber, as questões políticas, subjetivas e comunicacionais e suas relações com as sexualidades.

Antes de seguir, sugiro a leitura de um texto escrito por Eduardo d´Albergaria (Duda), Cientista Social, Especialista em Políticas Públicas (MPOG) e militante da Cia Revolucionária Triângulo Rosa, aliás, um dos grupos que desempenhou grande papel em Brasília nesse processo. Entre outras coisas, ele dá ótimas reflexões sobre como esse fundamentalismo foi crescendo aos poucos no Brasil.

Mas vamos às minhas pinceladas:

1) O movimento fora Feliciano é um movimento vitorioso, apesar do pastor ainda estar na presidência da Comissão de Direitos Humanos. Na história recente, pelo menos, não tínhamos visto tamanha mobilização social em torno de uma pauta que diga respeito diretamente às questões LGBT. Diversas pessoas, famosas ou não, que nunca se envolveram em mobilizações políticas foram às ruas e/ou se manifestaram nas redes sociais ou pela imprensa. O fundamentalismo religioso teria vencido caso a reação não tivesse ocorrido. Podemos até não ganhar, mas não ficaremos calados jamais. Nesse sentido, fica valendo a máxima foucaultiana de que o poder coercitivo é também produtivo.

Mas a maior vitória, na minha leitura, se deu no campo das subjetividades. Encontrar tantas pessoas partilhando a sua indignação, trocando abraços, afetos, esquecendo problemas anteriores, unidas em torno de uma questão, certamente deu um grande alívio para uma série de pessoas. Eu estou entre elas. Afora isso, ainda pensando pela lente das subjetividades, nossas mensagens contrárias aos fundamentalistas religiosos apontaram para outras formas de viver a vida, e milhares de outras formas de se identificar, bastante distintas entre si.

Ou seja, através de um velho instrumento como os cartazes, publicizados via on-line ou não, podemos perceber que as pessoas, definitivamente, não se deixam encaixar em algumas letrinhas. E, paradoxalmente, isso é o que alguns sempre enxergaram como fraqueza de um movimento, aqui nesse nosso momento revela-se como nossa grande riqueza e força. Somos, e podemos ser muito mais, uma multidão de diferentes, unidos em torno do respeito às nossas diferenças;

2) Se, por um lado, podemos entender o movimento como vitorioso, por outro lado ele novamente evidenciou os nossos problemas. Neste caso, duas coisas ficaram muito evidentes, outra vez. Já falei delas em outros textos aqui no blog, mas é preciso citar de novo. Uma delas é o quanto a excessiva partidarização cega completamente determinadas pessoas e determina, em absoluto, as suas ações. Não me refiro somente a um ou dois partidos políticos, pois ficou também evidente, nesse caso, que diversos partidos devem ser responsabilizados pelo que aconteceu. E essas legendas terão que colher os frutos disso nas próximas eleições;

3) Outra questão diz respeito à nossa incapacidade de unir diversos movimentos sociais para além da sigla LGBT.O movimento contra o fundamentalismo religioso, no caso Feliciano, em sua maioria, é ainda composto por pessoas e grupos LGBT. É evidente que entre eles também existem pessoas que militam nos movimentos negros, por exemplo, mas os movimentos negros, das religiões de matriz africana e feministas, apesar das falas explicitamente racistas, desrespeitosas e misóginas do pastor, tiveram uma participação muito tímida nas manifestações. Pensar com calma sobre o porquê disso é fundamental para essa luta contra o crescimento do fundamentalismo religioso no Brasil;

4) O papel das redes sociais cada vez mais se desenha como fundamental para a divulgação de informações (sejam verdadeiras ou falsas) e para a articulação das pessoas. Mas esse ativismo on-line também apresenta os seus limites. Muitas pessoas informam que irão às manifestações e não vão, outras se contentam apenas em protestar no ambiente on-line, fazendo aquilo que algumas pessoas já qualificaram de certa “descarga de consciência”, do tipo já “fiz a minha parte”.Mas existe uma potencialidade das redes, que nesse movimento ficou mais evidente, e que não deve ser menosprezada. Trata-se de criatividade nas mensagens, na variedade de suas autorias, a incorporação de pessoas que dificilmente teriam vontade ou condições de estar nas manifestações off-line. Outro limite: ao que parece, as mobilizações on-line funcionam mais quando marcadas a curto prazo. Marcar pelas redes uma mobilização para daqui a duas semanas parece algo demasiado para essa dinâmica contemporânea, onde os temas vencem com velocidade cada vez mais espantosa;

5) A imprensa brasileira inicialmente resistiu um pouco a fazer uma cobertura intensa sobre o caso, mas depois do crescimento das manifestações o espaço concedido foi aumentando. Mas como nós bem sabemos, espaço não é tudo. O conteúdo dos textos, via de regra, foi bem ruim. Só me lembro de uma reportagem, da revista Isto é, que considerou as declarações de Feliciano como racistas e homofóbicas. Os demais textos apenas diziam que o pastor “é acusado de racismo e homofobia, mas ele nega”.Entre os comentaristas, também fomos obrigados a ouvir “análises” como a de Alexandre Garcia, chamando os manifestantes de baderneiros. Esse tipo de comentarista não consegue, ou não quer ver, o grau de insultos a que as pessoas foram submetidas por Feliciano e Bolsonaro, para ficar apenas em dois casos. Não tenho dúvidas que os manifestantes tiveram que fazer um grande esforço de “segurar a onda” mediante tantos insultos e desrespeito. Por outro lado, tivemos comentaristas excepcionais, como o professor Vladimir Safatle;

5) Por último, deixo para comentar a revelação da relação entre Daniela e Malu. Como eu disse a um jornal da Bahia, nesse momento histórico, essa revelação teve um peso simbólico e político muito grande, mas que também não foi suficiente para derrubar Feliciano da Comissão, pelo menos até o momento em que escrevo esse texto. O grande espaço concedido pela imprensa ao caso pode surpreender algumas pessoas, menos aquelas que conhecem um pouco das dinâmicas de produção das notícias. Um dos critérios de noticiabilidade mais usados em nossas redações tem relação direta com a fama das pessoas envolvidas nos fatos.

Sobre essa cobertura, novamente muitos aspectos poderiam questionados, tais como: 1) Quer dizer que apenas agora, a partir do caso Daniela, a união civil entre pessoas do mesmo sexo, ou casamento, vira um tema que deve ser enfrentado pela sociedade brasileira? 2) Até quando a imprensa vai continuar revelando sua total ignorância em relação ao uso de termos básicos do campo da sexualidade, a exemplo da simplória diferença entre o que são pessoas gays e o que são pessoas lésbicas? 3) Esse caso significa que toda nossa luta vai ficar ancorada com a bandeira única do casamento ou união civil entre pessoas do mesmo sexo? E as demais bandeiras?

Ainda estou cheio de perguntas para fazer, mas fico por aqui, até a próxima.

 


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Hétero-passivo é tendência!

Gilmaro Nogueira

Um homem heterossexual pode sentir prazer sendo penetrado por outro homem? Um homem que sente prazer sendo penetrado por outro homem pode ser chamado de heterossexual?

Antes de discutir essas questões, quero indicar alguns textos: Porque a heterossexualidade não é natural; O ânus é um órgão sexual, de Leandro Colling e Aqui ninguém é hetero; Um homem heterossexual pode sentir desejo por outro homem, esses últimos de minha autoria.

É importante lembrar que, no Brasil, segundo os estudos antropológicos, até a década de 80, os homens se dividiam em: machos e bichas, sendo o macho o que penetrava outros homens e as bichas os sujeitos que eram penetrados.

O homem que penetrava não perdia o status de macho, inclusive em algumas situações tal fato era uma prova de sua virilidade. A partir dos anos 80, com a popularização dos discursos científicos oriundos da Europa, uma nova concepção de sexualidade ganha amplitude no Brasil, em que os sujeitos não são mais divididos em machos e bichas, mas em heterossexuais e homossexuais, sendo que os heterossexuais são os que desejam e mantém práticas sexuais com o sexo oposto, enquanto os homossexuais com o mesmo sexo. Uma concepção não substitui a outra e, embora a segunda passe a ter mais força, as duas continuam operando no Brasil.

É comum ouvir casos de homens considerados heterossexuais que penetram outros homens, isto é, de alguma forma, nossa cultura mantém uma certa permissividade ao homem considerado heterossexual penetrar um outro homem, desde que não tenha ocorrido algum envolvimento emocional e afetivo e os atos não tenham sido sistemáticos (constantes).

Esse tipo de homem, heterossexual, masculinizado, foi e é considerado o ápice do desejo de muitos homossexuais, símbolo de uma masculinidade verdadeira e autêntica. Não obstante era preciso que, além de masculinizado, esse homem fosse ativo, isto é, um “comedor”, mas eis que agora começa a surgir uma categoria de sujeitos que se dizem heterossexuais passivos.

Quem é esse homem hétero-passivo? São homens que se identificam com a heterossexualidade (evidente), mantém relações afetivossexuais com mulheres (essas relações podem ser através de vínculos matrimoniais ou casuais, com ou sem vínculo afetivo), rejeitam qualquer traço de feminilidade em si ou nos parceiros, sentem prazer penetrando mulheres, mas nas relações com homens querem ser penetrados.

Os heterossexuais passivos não penetram homens, são sempre penetrados. Os que mantém relações sexuais penetrando e sendo penetrados por outros homens se denominam de heterossexuais versáteis, que é uma categoria bem mais comum.

Não sou tão ingênuo de acreditar que em outros momentos da história esses homens não existissem, mas, hoje, com a popularização da internet, utilizada como mecanismos de busca por parceiros, esses sujeitos parecem aumentar e formular/textualizar uma identidade: a de hétero-passivo.

Onde se encontram tais sujeitos? Minha aposta é que em muitos espaços de sociabilidade, principalmente em bairros populares (mas duvido muito que seja apenas nestes), ocorrem interações que não podem ser explicadas pela dualidade heterossexual versus homossexual ou ativo versus passivo.

Foi nos sites de relacionamentos manhunt e disponível que analisei muitos desses perfis em minha pesquisa de mestrado realizada no Programa Multidisciplinar de Pós-graduação em Cultura e Sociedade. Alguns diziam que buscavam novas experiências e que estavam dispostos a serem penetrados; outros sinalizavam que eram experientes e que desejavam serem apenas passivos nas relações sexuais.

Outra forma de sociabilidade entre esses homens ocorre nos chats do UOL (tomara que o Pastor Feliciano não descubra e denuncie à Polícia!). Existem salas específicas e uma delas é destinada a sexo entre homens heterossexuais.

Na maioria das vezes essas interações se iniciam com diálogos sobre o sexo com mulheres, depois começam a falar de masturbação entre homens e, por fim, sexo anal entre homens.

Encontrei também no Yahoo Respostas, um fórum que tem por objetivo trocar informações entre usuários da internet, a seguinte dúvida de um usuário:

“Sou casado e tenho uma vida hetero prazerosa. Só que desde 5 ou 6 anos de idade dou minha b… e preciso disso.Não sei se é homossexualismo ou vício… Só sei que é uma necessidade. Minha mulher não sabe e nem quer saber desses meus desejos.Não sinto atração por homens, só por pênis, por isso nunca tive um namorado, nem fui ativo com homem…Acho que sou um bissexual diferente e não sei o que fazer”.(Post completo e com respostas).

O sujeito acima não consegue um lugar identitário para seu desejo. Sente prazer com o sexo heterossexual, mas não consegue evitar o desejo de ser penetrado.

Um caso explorado midiaticamente é do ex-pastor evangélico da Igreja Universal, Alexandre Senna, que tornou-se ator pornô passivo, após o pedido da esposa, que não aceita que ele penetre mulheres, mas também porque seu pênis não está no padrão da indústria pornô. As pessoas que comentam as notícias nos sites e blogs sempre dizem que o mesmo é um homossexual enrustido, pois não concebem um heterossexual fazendo sexo anal passivo.

O que podemos dizer sobre esses sujeitos? O mais comum e pouco reflexivo, mas que tem lá sua verdade, é pensarmos no modo com as representações sociais negativas da homossexualidade podem fazer com que um grande número de sujeitos recuse tal identidade. Acho, contudo, que isso não responde completamente a questão.

É mais produtivo invertermos a pergunta: o que esses sujeitos dizem a nós? Essa questão faz muita diferença pois, se tomarmos os sistemas classificatórios para explicarmos os sujeitos, aniquilamos as diferenças, enquadrando-os em poucas possibilidades. Ao contrário, se utilizarmos as experiências e questionarmos os sistemas classificatórios, podemos problematizar o quanto a divisão heterossexual, homossexual e bissexual é limitante e não dá conta de explicar a sexualidade humana, que é complexa e atravessada por diferenças e singularidades.

Vale ressaltar que, mesmo recusando a homossexualidade, esses sujeitos assumem uma outra identidade problematizada, considerada anormal até por aqueles que aceitam a homossexualidade. Constroem, também, uma identidade considerada desviante.

É bem certo que a heterossexualidade confere um status de privilégio, no entanto, a passividade marca negativamente o homem. Poderíamos pensar numa tentativa de limpar a passividade de um status negativo e histórico? Talvez a masculinidade se transforme em um padrão cultural tão fortemente exigida que mesmo na passividade seja preciso estar dentro de tais padrões.

Podemos dizer que essa identidade hétero-passivo é uma invenção? Sim, toda identidade o é! A divisão hétero versus homo, ampliando para bissexualidade, é também uma invenção da ciência oitocentista, uma ficção. Uma criação que, apoiada no positivismo, acredita que poucas palavras conseguem dar conta da paisagem sexual. Uma limitação e higienização da nossa singularidade.

Nós estamos, no entanto, tão impregnados dessa construção binária que, se um homem se envolve com outro, nós questionamos o sujeito e nunca a divisão binária. Por que não questionamos essa ideia de que os heterossexuais não sentem prazer anal? Será que é possível mesmo que exista um grupo tão hegemônico em termos quantitativos que ignore determinada área do corpo?

Não estou desconsiderando (digo mais uma vez) o modo como o preconceito dificulta uma assunção à homossexualidade, mas considerando que, além de se proibir uma identidade, se interdita também o corpo, isto é, há uma castração anal, um interdito sobre o ânus. Os heterossexuais têm o ânus castrado, diz Beatriz Preciado.

Bem, enquanto a gente fica tentando responder essas questões, e por mais que alguns queiram simplificar tudo, achando que o mundo se divide em duas ou três possibilidades, os sujeitos vão vivendo suas fantasias, cada um com uma história singular, que problematiza nossas concepções e classificações.

Por essas e outras, hétero-passivo é tendência e está na moda!

 


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Jéssica Cristopherry: a arte de se TRANSformar e o nascimento de uma estrela

Fábio Fernandes

O escritor Oscar Wilde, em uma de suas tiradas clássicas, disse que “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”. Assim como na insolúvel indagação filosófica sobre quem veio primeiro, se o ovo ou a galinha, delimitar onde começa a imitação e onde termina o original ou quem é cópia de quem, diria que é impossível precisar os limites entre arte e vida.

E para que essa incessante busca por respostas tão definitivas? O entre-lugar da dúvida, do mistério e da incompletude é certamente algo que me fascina no fazer artístico: é como sentir-se empurrado do penhasco de qualquer zona de conforto, com minhas certezas abaladas, boiando numa terceira margem de um rio qualquer por aí. Esta é a ARTE que me seduz, me expõe, me trai, me faz sentir vivo… e quando tudo isso decorre de um material simples, leve e que revela a espontaneidade da arte e a dramaticidade da vida, ou vice-versa? É possível resumir e retribuir essa sensação de catarse sob a forma de aplausos e sorrisos.

Foi dessa forma que o documentário Jéssica Cristopherry, produção que celebra a parceria entre Paula Lice, Rodrigo Luna e Ronei Jorge e o lançamento da Buh!Fu Filmes me tocou. O filme registra o desejo e o processo de TRANSformação da atriz Paula Lice na drag queen Jéssica Cristopherry, em um mergulho apaixonado no universo transformista e na cena soteropolitana. O glamour, a fechação, o brilho, o artifício e a extravagância da maquiagem, dos figurinos e das performances encantam e atraem Paula, que transborda seu amor por essa arte em suas falas, seu olhar atento e sua dedicação e entrega na composição de Jéssica.

Durante o processo, ela é auxiliada pelo diretor teatral pernambucano Rodrigo Dourado, pesquisador da cena transformista, e pelos mais badalados e respeitados artistas transformistas de Salvador, que contam suas histórias com muito bom humor e narram como “nasceram” suas personagens: Rainha Loulou, Mitta Lux, Valerie O’harah, Carolina Vargas e Ginna d’Mascar. A pergunta lançada à Paula Lice, em certo momento do filme, dá o tom da construção de sua persona: “você tem que pensar… quem vai ser a Jéssica nesse caldo?”

E quem é a drag queen ou a artista transformista e o que essa arte nos revela sobre nós mesmos? De um modo geral, a drag é muito mais exagerada e “carregada” de artifícios de maquiagem e figurino do que a transformista, pois essa, em sua montagem, tentaria ao máximo se aproximar do ideal de gênero alinhado com as referências do mundo feminino, ao contrário da primeira; mas mesmo essas definições se mostram precárias, pois há algumas artistas que as extrapolam e transitam entre ambos os polos. Em um texto anterior, postado aqui no blog, Leandro Colling já fez algumas reflexões sobre o tema, que podem ser lidas aqui: http://www.ibahia.com/a/blogs/sexualidade/2012/09/11/o-que-o-universo-trans-nos-ensina-%E2%80%93-parte-1/

Essa predileção pelo inatural, exagerado e pelo artifício, que transbordará na superfície de Jéssica Cristopherry, se relaciona intimamente com o conceito de camp. Segundo a escritora Susan Sontag, o camp é um modo de ver o mundo que não se refere à beleza, mas sim a um grau de artifício e/ou estilização e uma sensibilidade que, em sua excentricidade, não se enquadra no molde de um sistema, pelo contrário, questiona os sistemas e suas normas estéticas, mesmo sem a intenção de fazê-lo. Ele é também a glorificação da “personagem”: mais quais os limites identitários que delimitam as fronteiras entre a personagem e o ator que o “veste”? Até que ponto começa e termina Paula Lice e Jéssica Cristopherry e os outros atores e suas personas?

A drag seria então a metáfora e a crítica à noção de que os gêneros masculino e feminino seriam “naturais”, explicitando seu caráter de construção reproduzida cultural e socialmente. Afinal, por mais impactante que essa afirmação possa parecer, percebam que todos nós nos “montamos” todos os dias ao sairmos de casa, ao escolhermos uma saia, um brinco, um batom ou uma calça, determinada camisa, calçado, corte de cabelo e comportamentos que são determinados como de “homem” ou de “mulher”.

A naturalização dessa encenação dos gêneros é tão absorvida por todos que é chocante para a maioria ver um homem de salto ou usando saia. Mas existe mesmo algo no “corpo masculino” que determine ser impossível um homem passar um batom na boca? Por que será que chama tanta atenção uma mulher sendo taxista, mecânica ou motorista de ônibus? A diferença, para a drag, é que ela assume a artificialidade de sua imagem através da arte, de sua figura exagerada, de sua persona hiperbólica.

Não existe um “gênero original”, somos sempre cópias de outras cópias, que podem ser subvertidas no próprio processo de repetição. Mas como assim? Eu estou afirmando que somos programados por leis que definem como se deve ser um homem ou uma mulher de “verdade”? Sim. Mas alguém consegue alcançar esse status de “pureza”? Obviamente não. E é por isso que, segundo a filósofa Judith Butler, “o gênero é a estilização repetida do corpo, um conjunto de atos repetidos no interior de uma estrutura reguladora altamente rígida, a qual se cristaliza no tempo para produzir a aparência de uma substância, de uma classe natural de ser”.

E é nesse processo de produzir uma mulher “por cima” de uma mulher, essa sim explicitamente artificial, mais brilhante, fechativa, excêntrica, fantástica e glamorosa, que nasce Jéssica Cristopherry. Esse é também um dos grandes dos trunfos do filme, a narrativa da gênese de uma hipermulher, ou como ressaltado no slogan do filme: uma “atriz, mulher e transformista”.

O documentário de 52 min, filmado principalmente no famoso Beco dos Artistas, é também uma sensível e afetuosa homenagem aos talentosos artistas reunidos em torno da protagonista e a essa arte deliciosa que materializa o sonho de irmos além dos nossos corpos e gêneros rígidos, da possibilidade de nos transformarmos em estrelas, de sermos divas. Os diálogos espontâneos, os ensaios e performances, o bom humor e as confissões sem papas na língua formam o tecido de uma narrativa leve, singela e poderosa. Elas brilham sob as luzes de um palco e recebem os aplausos de um público que também mergulha nesse lindo devaneio de ir além dos limites da vida. E por que a vida precisa ter tantos limites? A arte nos mostra que é possível sermos muito maiores que a vida, rasgando a casca opressiva do cotidiano e poeticamente nos revelando que podemos ser mais, mais, mais.


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A homonormatividade não existe

Gilmaro Nogueira

No último texto que postei aqui no blog, problematizei o uso equivocado do conceito de heteronormatividade, muitas vezes substituindo homofobia. Agora minha proposta é a de questionar o uso do conceito de homonormatividade. A ideia não é fazer um policiamento do que viria a ser um uso correto dos conceitos, mas porque acredito que esses usos problemáticos têm implicações políticas muito sérias e concretas, como pretendo demonstrar ao final deste texto.

Vou recuperar o conceito de heteronormatividade como: uma ordem social/sexual que convoca/impele todos os indivíduos a se comportarem como heterossexuais, ou melhor, com um suposto modelo “natural” da heterossexualidade, mantendo uma linearidade/binaridade entre sexo e gênero. O que chamamos de linearidade entre sexo e gênero nada mais é do que uma norma, exigida pela sociedade em geral, que determina: se você é identificado como tendo determinado sexo (órgão sexual) você é obrigado a ter determinado gênero que corresponda ao seu sexo.

Para que os indivíduos sejam interpelados pela heteronormatividade é preciso que esse modelo lhes confira privilégios ou benefícios, sendo: uma representação de gênero tida como natural e normal – e que, por conseguinte, produza exclusão, ou seja, empurre alguns sujeitos para o campo da anormalidade, da não humanidade ou, como ocorre frequentemente, os transforme em exóticos, objetos de estudos para serem explicados, dissecados pelo dito “saber científico”.

O que seria então a homonormatividade e quais seus efeitos? Seria um conceito oposto à heteronormatividade?

Não há um conceito fechado de homonormatividade, mas quem tem usado essa expressão/conceito, faz uma associação com um estilo de vida gay ou de uma suposta comunidade gay que privilegia determinados valores, tais como: a produção de um corpo “perfeito”, jovem e uma ideologia de consumo que atribui valor às marcas dos bens adquiridos. Dito de um outro modo, seria a forma como a comunidade homossexual exclui os próprios homossexuais que não se encaixam dentro desse perfil geracional, estético e de consumo.

Concordo que existe uma valorização ou até mesmo hipervalorização de determinados padrões corporais, e de uma busca permanente pela juventude, além de uma identidade cada vez mais marcada pelo consumo, associada ao bom gosto e ostentação, mas é coerente e correto que nomeemos esse fenômeno de homonormatividade, como já fizeram alguns estudiosos no Brasil?

Defendo aqui que, para que exista uma normatividade, é preciso que:

1)    Uma norma interpele os sujeitos, isto é, exerça alguma coerção sobre os indivíduos. A homonormatividade teria que interpelar todos os sujeitos a vivenciarem um ideal normativo comportamental homossexual, tendo práticas eróticas com o mesmo sexo ou não;

 

2)    Essa coerção opere pela concessão de benefícios e vantagens. Os indivíduos que organizassem suas vidas conforme esse modelo deveriam ser considerados mais normais, naturais e coerentes;

 

3)    Produza sujeitos excluídos de um campo de normalidade ou aceitabilidade.

Temos uma norma simbólica que confere um status de normalidade aos sujeitos homossexuais e, o contrário, aos sujeitos não-homossexuais? Que privilégios têm os sujeitos que vivenciam os seus gêneros em desconformidade com a linearidade do sexo/gênero? Que exclusão existe no campo da cultura aos sujeitos que não subvertem o sexo e gênero? O conceito de homonormatividade não atende esses critérios e, por isso, sugiro que o seu uso é inadequado, incorreto e inclusive nocivo para a produção do respeito à diversidade sexual e de gênero.

O conceito de homonormatividade aparece ligado com uma cultura ou comunidade homossexual e começa, de modo problemático, a supor que exista uma comunidade e/ou cultura que comungue de certos valores e ideais (jovialidade e consumo) e que ela não seja marcada pela diferença, fissuras e contradições, objeto de disputas e ressignificações.

E há como pensar que essa idealização e valorização da jovialidade e consumo, por exemplo, ocorra apenas nas homossexualidades? Pensar a valorização ou até mesmo a ditadura da beleza e jovialidade ou o status consumista como produto de uma vivência homossexual é desconsiderar um mercado voltado para o corpo que é cada vez mais apresentado como um estilo de vida, uma postergação da velhice e de uma cidadania que se opera cada vez mais pelo consumo também nas heterossexualidades. Ideal normativo que tem produzido, segundo especialistas, as anorexias, bulimias, e outros transtornos alimentares.

Outro problema: para que exista uma homonormatividade seria necessário que os sujeitos pudessem se desvincular da heteronormatividade ou das normas sociais, o que não é o caso. Em que contexto denominado de homonormativo os sujeitos são elogiados por não serem heterossexuais ou não construírem seus gêneros conforme o suposto modelo natural do sistema sexo/gênero?

Não há como estar fora das normas, pois o que nos dá o status de sujeito é justamente o ideal normativo. É através do campo simbólico da linguagem que somos alguma coisa em sexo e gênero e, assim, nos situamos sempre em relação às normas.

Nossas vivências reiteram as normas do modelo sexo/gênero. Nossas subversões questionam o modelo naturalizante mas não implanta uma nova ordem, faz no máximo fissuras no discurso heterocentrado,

Não significa dizer que somos determinados pela cultura normativa sem nenhuma possibilidade de escolhas, mas que nossa transgressão ocorre num campo limitado, um espaço que, por mais subversivo que seja, mantém vínculos com as normas. Se assim não for, não há sujeito, não há humanidade.

Uma das metáforas utilizadas pelxs teóricxs queer é que escolhemos as roupas que usamos a partir das peças disponíveis em nossa guarda-roupa, isto é, estamos limitados a um certo espaço, um território de ação. Nossas possibilidades de subversão são limitadas.

E se a homonormatividade pode ser entendida como assimilação, é preciso questionar: assimilação de que? Da heteronormatividade, ou seja, a homonormatividade é uma das facetas dessa ordem social. E não é por acaso que, associado a esses ideais de consumo e padrões de corpo, aparece um outro valor que é a expectativa de gênero, de modo que não adianta ser jovem e usar boas marcas de roupas, é preciso que o homem seja masculino e a mulher feminina.

Uma vez associado a tais ideais de gênero, temos como separar tais fenômenos da heteronormatividade? Se assim o fizermos, destituímos a própria concepção de heteronormatividade.

É preciso dizer que Judith Butler advertiu para o cuidado de usar um conceito que responda a todas as opressões, seja a heterossexualidade compulsória, a heteronormatividade, a luta de classes, o patriarcado, etc. E para resolvermos tal problema é preciso que analisemos a problemática em questão não apenas através das normas de gênero, mas que articulemos com questões, tais como: classe, etnia, territórios, etc.

Sem transversalizarmos nossas análises envolvendo, além das questões de gênero, o modo como a ideologia capitalista convoca os sujeitos a serem não apenas cidadãos, mas cidadãos reconhecidos pelo consumo, vamos continuar reproduzindo um número infinito de conceitos que dizem menos sobre a realidade do que as concepções já existentes.

Talvez Beatriz Preciado seja quem mais tenha tentando articular tais questões, ao alertar para o modo como o capitalismo se serve da produção e proliferação das identidades. Assim, PENSO que a homonormatividade nada mais é que uma faceta da heteronormatividade, articulada com o discurso capitalista.

E se teoricamente ou conceitualmente é um equívoco, politicamente também, pois nomear de homonormatividade o que é heteronormatividade coloca os seguintes problemas:

- Enfraquece a crítica à heteronormatividade ao ocultar seus efeitos no interior das homossexualidades;

- Toma as minorias atingidas pelo ideal normativo como produtoras de tal ideal, isto é, o oprimido se transforma em opressor, tal como as críticas de que o negro tem preconceito com o próprio negro, como se esses indivíduos não fossem também marcados pelo racismo do discurso opressor. Transforma-se assim os sujeitos ou grupos como possíveis de decidir e aplicar determinadas normas que excluem os outros, perdendo a possibilidade de uma crítica cultural mais ampla;

- Viabiliza que a diferença e disputas de ideais simbólicos e políticos sejam entendidas como norma, isto é, possibilita uma indeterminada produção de conceitos normativos associados às minorais, tais como: queernormatividade, transnormatividade, ativismonormatividade, ou mais comum/vulgar, ditadura gay. Essa proliferação também enfraquece a crítica aos efeitos da heteronormatividade e iguala oprimido e discurso opressor.

Por fim, homonormatividade existe tanto quanto heterofobia, isto é, na cabeças dos fundamentalistas que acreditam que queremos instalar um modo de ser-viver homossexual.

Gostaria de agradecer aos amigos, do Grupo Cultura e Sexualidade (CUS), que apontaram críticas e sugestões à esse texto, entre eles: Leandro Colling, Fábio Fernandes, Denise Bastos, Carla Freitas, David Sousa, Ana Nunes e Raquel Flourence.

 

 


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