O √Ęnus √© um √≥rg√£o sexual?

Leandro Colling

O texto de hoje provavelmente vai gerar muita pol√™mica. As rea√ß√Ķes ao que postamos aqui s√≥ mostram o quanto os temas em quest√£o s√£o cercados por tabus e discursos de verdade que tentam, a todo custo, obrigar todas as pessoas a usar os seus corpos apenas dentro de uma mesma forma.

Vou direto √† resposta da pergunta do t√≠tulo: sim, o √Ęnus pode ser considerado um √≥rg√£o sexual. Na verdade, qualquer outra parte do seu corpo pode ser considerada como um √≥rg√£o sexual, se assim voc√™ desejar e o sentir. Primeiro vou falar do √Ęnus especificamente e depois ampliarei o debate para pensar o corpo como um todo, ok?

Sobre o √Ęnus ou, para usar a palavra mais usada pelas pessoas, o cu: alguns profissionais da sa√ļde e da sexologia at√© concordam que o √Ęnus pode ser considerado uma √°rea er√≥gena, que pode gerar prazer ao ser tocado. Alguns recorrem inclusive a Freud, que disse que um dos nossos primeiros prazeres na vida se d√° atrav√©s da chamada ‚Äúfase anal‚ÄĚ. Pois eu quero ir al√©m disso, sem me filiar aos freudianos. Quero defender que o cu pode ser considerado um √≥rg√£o sexual, tal como o p√™nis e a vagina o s√£o.

Profissionais da sa√ļde considerados bem progressistas dizem n√£o ter nada contra a pr√°tica sexual anal, mas enfatizam que o √Ęnus n√£o teria sido criado para esta finalidade e que, por isso, n√£o pode ser qualificado como um √≥rg√£o sexual, mas como um √≥rg√£o do aparelho digestivo do corpo humano.

Por mais simp√°tica e progressista que essa leitura pode ser ela esconde uma norma sobre a sexualidade, ou melhor, um conjunto de normas criadas pelo discurso m√©dico em conson√Ęncia com outras institui√ß√Ķes sociais que historicamente desejam controlar e regulamentar a sexualidade das pessoas. Por que? A vagina e a boca tamb√©m parte do aparelho digestivo e nem por isso s√£o desqualificadas como √≥rg√£os sexuais, no sentido de que podem ser utilizados na pr√°tica sexual sem problema algum.

Os profissionais da sa√ļde, em sua maioria, dizem que o √Ęnus √© um local cheio de impurezas, em suma, √© um local sujo e isso pode disseminar a prolifera√ß√£o de muitas doen√ßas. No entanto, as pessoas que praticam sexo anal (gays ou n√£o) j√° faz muito tempo que descobriram uma forma de deixar o √Ęnus bem limpo, atrav√©s do que os gays chamam de chuca (ou enema), uma esp√©cie de lavagem que consiste na introdu√ß√£o de √°gua no canal do √Ęnus para ser despejada logo em seguida. A vagina, o p√™nis e boca, caso n√£o sejam bem limpos, tamb√©m ser√£o √≥rg√£os bem sujos e proliferadores de doen√ßas. Ent√£o, por que considerar que apenas um √≥rg√£o √© sujo? O que opera por traz desse discurso?

Certamente, trata-se de uma leitura que √© influenciada pela norma hegem√īnica que estamos sempre problematizando em nossos textos aqui no blog. Michel Foucault estudou muito bem isso e devemos muitas dessas reflex√Ķes a ele. Em suma, essa norma tenta determinar tudo sobre a nossa sexualidade. Obriga que todos sejamos heterossexuais e de que fa√ßamos sexo apenas de uma determinada maneira e tamb√©m especifica muito detalhadamente quais partes dos nossos corpos s√£o er√≥genas e que podem ser considerados como √≥rg√£os sexuais.

Outros poderão alegar que o sexo anal deve ser combatido porque essa prática seria anti-natural, uma vez que não gera a reprodução da espécie humana. Mais um argumento que não fica em pé porque, se concordarmos com ele, toda e qualquer prática sexual só poderia ser feita se tivesse como objetivo a reprodução.

Mas, como eu disse no in√≠cio, n√£o quero tratar apenas do √Ęnus. Uso o cu apenas como um exemplo bem provocativo e pol√™mico para ilustrar como nossos corpos sofrem as influ√™ncias de saberes que regulam, historicamente, os nossos corpos, nossas sexualidades e nossos g√™neros. Eu poderia falar de outras partes do corpo que s√£o usadas, por algumas pessoas, como leg√≠timos √≥rg√£os sexuais. Entre elas, certamente, est√£o as m√£os. Para muitas l√©sbicas, por exemplo, as m√£os s√£o verdadeiros √≥rg√£os sexuais, elas podem se transformar em instrumentos fundamentais.

Para os praticantes de fist-fucking ocorre o mesmo. Para quem n√£o sabe, os praticantes de fist-fucking introduzem as m√£os e at√© os punhos no √Ęnus de seus parceiros sexuais. O p√™nis e at√© mesmo a ere√ß√£o, em geral, n√£o possuem import√Ęncia alguma nessas rela√ß√Ķes sexuais. Como nos alertam alguns pesquisadores, talvez essa seja √ļnica pr√°tica sexual que foi inventada no s√©culo 20. Vejam como nossa criatividade em rela√ß√£o √†s pr√°ticas sexuais ficou bloqueada a ponto de que em 100 anos apenas uma nova forma de praticar sexo foi criada. Enquanto isso, quase sempre fazemos sexo mais ou menos da mesma forma, muitas vezes seguindo um roteiro que obedece inclusive os padr√Ķes de uma ind√ļstria do entretenimento, notadamente a ind√ļstria porn√ī hegem√īnica, tema que desenvolverei em outro texto.

Para finalizar, quero defender, seguindo Deleuze e Guattari, que pelo menos desde o livro O anti-√©pido, de 1972, nos permitem entender o nosso corpo inteiro como um corpo sexual. Ou seja, n√≥s n√£o transamos apenas com p√™nis, vaginas ou √Ęnus, mas transamos com nossos corpos e g√™neros. E mais: transamos sempre em um contexto, com algum cen√°rio, transamos, em suma, em um ambiente.

Ali√°s, √†s vezes pensamos em detalhes sobre qual ser√° o ambiente da nossa transa. Se isso √© verdade, por que ainda vamos considerar como sexuais apenas determinados cent√≠metros de nossos corpos? N√£o estou sugerindo que todas as pessoas devam usar o √Ęnus como √≥rg√£o sexual, da mesma forma como muitas pessoas n√£o consideram os seus p√™nis ou vaginas como aparelhos fundamentais para a pr√°tica sexual e obten√ß√£o de prazer. Apenas estou evidenciando mais uma quest√£o relativa √† diversidade sexual que existe por a√≠, queiram algumas pessoas e/ou institui√ß√Ķes ou n√£o.

Por el CuloDevo boa parte das reflex√Ķes realizadas acima a Javier S√°ez e Sejo Carrascosa, autores do livro Por el culo ‚Äď pol√≠ticas anales, da editora Egales, lan√ßado ano passado na Espanha e ainda sem tradu√ß√£o em L√≠ngua Portuguesa.

Nessa obra, eles discutem esses e v√°rios outros temas. Termino com apenas um pequeno trecho da introdu√ß√£o do livro, onde eles dizem que a proposta do texto √© “ver o que o cu p√Ķe em jogo. Ver por que o sexo anal provoca tanto desprezo, tanto medo, tanta fascina√ß√£o, tanta hipocrisia, tanto desejo, tanto √≥dio. E, sobretudo, revelar que essa vigil√Ęncia de nossos traseiros n√£o √© uniforme: depende se o cu penetrado √© branco ou negro, se √© de uma mulher ou de um homem ou de um/a trans, se nesse ato se √© ativo ou passivo, se √© um cu penetrado por um vibrador, um p√™nis ou um punho, se o sujeito penetrado se sente orgulhoso ou envergonhado, se √© penetrado com camisinha ou n√£o, se √© um cu rico ou pobre, se √© cat√≥lico ou mu√ßulmano. √Č nessas vari√°veis onde veremos desdobrar-se a pol√≠cia do cu, e tamb√©m √© a√≠ onde se articula a pol√≠tica do cu; √© nessa rede onde o poder se exerce, e onde se constroem o √≥dio, o machismo, a homofobia e o racismo‚ÄĚ. (S√°ez e Carrascosa, 2011, p. 13).

Agora compare a possibilidade de pensarmos em políticas anais (das quais falarei mais nos próximos textos) e o grau de caretice e conservadorismo que estamos vivenciando no Brasil neste momento em matéria de respeito à diversidade sexual e de gênero. Talvez assim outros textos que já postamos por aqui sejam melhor compreendidos. Ou não.

Beijos, no lugar que voc√™ desejar… E n√£o adianta me mandar tomar naquele lugar… N√£o vou interpretar como um insulto. At√© a pr√≥xima semana.

 

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24 respostas a O √Ęnus √© um √≥rg√£o sexual?

  1. Zé Carlos Morais disse:

    Sim, assim como confirmar o questionamento o texto de voc√™s conseguiu introduzir reflex√Ķes e gerar uma curiosidade ainda mais espec√≠fica… √† quem se interessar: a procura… √© substancial, √© elementar, √© forte, assim como a decis√£o de experimentar na pr√°tica os desejos novos!!!

  2. josie disse:

    Professor Leandro souuma grande entusiasta dos seus textos e desde já vou reproduzir este na minha página. Bom o texto e gostaria de ter acesso ao livro que ainda nao foi traduzido. Tem ele em outra língua como ingês?

  3. Rodrigo disse:

    Realmente Leandro, o buraco do nosso cu √© revolucion√°rio…

    Abraços.

  4. Evandro disse:

    Nossa Excelente texto Colling me senti realizado! voc√™ descreveu tudo o que penso sobre sexualidade e de como desessencialisa as no√ß√Ķes de ativo e passivo e outros padr√Ķes normativos… obrigado por mais um texto de qualidade.

  5. F√°bio disse:

    Leandro, o texto está ótimo. Muito bem ponderado em tão pouco espaço!!!! As políticas do cu são verdadeiras e precisam ser colocadas em prática!!!!! Vou logo encomendar meu exemplar do livro!!!!!Bjo

  6. Candido disse:

    Que imenso cu se transformou a academia.

  7. Ola, Leandro Colling,
    Voc√™ n√£o √© o √ļnico a pensar dessa forma. Tem mais gente. Eu compartilho de reflex√£o semelhante: o corpo √© um grande √≥rg√£o sexual e essa discuss√£o vai longe.

    Sobre o fistfucking eu relativizo pois para cada pessoa a experiência tem uma conotação diferente ou uma relativização distinta. Assim sendo cada qual com a sua verdade e pratica, que nesse caso, são em formatos diferentes.

    Sobre A invenção da Heterossexualidade (http://www.skoob.com.br/livro/115180, essa é a capa do livro) já deve ser do seu conhecimento, acredito. Livro interessante para o artigo anterior.

    A academia precisa (re)discutir algumas coisas que considero b√°sicas. Dentre elas est√£o aquelas disciplinas que comp√Ķem o m√≠nimo necess√°rio a uma educa√ß√£o sexual. Alunas e alunos precisam saber estabelecer conex√Ķes entre seus conhecimentos, os corpos, gen√™ros, sexualidades, identidades de g√™nero, etc. porque sobre senso comum, normativas judaico-crist√£s j√° sabem muito. E, n√£o falo isso de forma transversal. Mas enquanto um imenso espa√ßo onde se possa falar sobre o √≥bvio: nossos corpos, nossas pr√°ticas sexuais, nossos prazeres, afetos e por a√≠ vai.

  8. ricardo disse:

    √© importante destacar a liberdade que o desejo nos proporciona seja ele onde quer que seja, anus ou outra parte do nosso corpo. viva o prazer sem preconceitos ou tabus…

  9. bruno disse:

    O texto ficou ótimo, exceto pela parte em que vc relaciona a vagina com o trato digestório. :/

  10. Carol Gomes disse:

    Ol√°! =)
    Pensando em termos de Educa√ß√£o al√©m de desmistificar esses tabus percebo a necessidade de ressignificar as pol√≠ticas anais aqui no Brasil, que hoje tem sido compreendida como a toler√Ęncia de ideias absurdas com um car√°ter trai√ßoeiro. Na verdade o que quer o conservadorismo √© essa compreens√£o perversa.. desta forma almejam a toler√Ęncia da absurdidade conservadora ao inv√©s da aboli√ß√£o dos preconceitos.

  11. Josemir Dalla Costa disse:

    A tempos tenho a id√©ia de reunir meus amigos gays aqui em casa e convidar um m√©dico proctologista para uma conversa. A gente acaba percebendo que embora usemos muit√≠ssimo o √Ęnus nas nossas rela√ß√Ķes sexuais (no meu caso ele √©, sim, meu principal √≥rg√£o sexual) a gente quase nunca fala sobre ele e a√≠, todas aquelas curiosidades e d√ļvidas – que inclusive podem ter consequ√™ncias para a nossa sa√ļde – acabam varridas para debaixo do tapete. Por exemplo: A “chuca”, que quase sempre √© feita com a √°gua morna do chuveiro, tem alguma contraindica√ß√£o? O esf√≠ncter anal fica “largo” se eu introduzir m√£o, p√©, garrafa, etc nele? Se o ativo tiver um pau muito grande, pode ferir a parede do fundo do reto? H√° alguma rela√ß√£o entre sexo anal e c√Ęncer de reto? N√£o seria importante fazermos “preventivo” anal regularmente (quantos de n√≥s j√° se preocupou em ter uma conversa com um m√©dico sobre orienta√ß√Ķes para uma vida sexual-anal?) E a escatofolia (√©, tem gente que tem tes√£o em ser “cagado”)? Qual tamanho que tem o reto? Ele varia de pessoa para pessoa? Como √© poss√≠vel caber um m√£o e meio bra√ßo dentro dele? O fato √© que a gente ignora praticamente tudo sobre o cu. Acho que est√° mais do que na hora de tirarmos o cu do arm√°rio tamb√©m. Quem tiver alguma opini√£o, por favor me escreva: kikodallacosta@hotmail.com.

  12. Róbson Bié disse:

    Incrivel, como ler isso √© de certo modo libertador, e cria N bases de cria√ß√Ķes e pensamentos, e ainda t√£o mais doce, saindo da minha zona de conforto, afinal como homossexual o ent√£o √Ęnus √© sim o principal √≥rg√£o de prazer,. logo e em verdade o texto me faz pensar, o que venho vivenciado e lutando tanto,. a pr√°tica infinda de prazer, e este n√£o e puramente sexual, mas o de se aceitar, de se tocar, de fazer parte do meio, de se deixar ver, de ser visto,. e que mesmo ilusoriamente assim dito, √© pr√°tica di√°ria, de quebra de preconceitos, de novas e divinas pr√°ticas do se conhecer, e dar espa√ßo para se conhecer o outro. Texto divino este !’

  13. fabio disse:

    pessoas do mesmo sexo é pecado. leia a bíblia sagrada.

  14. Hugo Lima disse:

    Tirando a forma (esse texto n√£o passou por revis√£o alguma: frases e par√°grafos pessimamente estruturados), o conte√ļdo foi muito bem escrito e abordado. Parab√©ns aos autores espanh√≥is e ao int√©rprete brasileiro. Realmente, precisamos informar cada vez mais nossa sociedade para que tabus sejam quebrados e possamos evoluir em corporeidade e assuntos afins. E fica a√≠ uma √≥tima diga e oportunidade de trabalho aos tradutores portugueses: que tal traduzir “Por el culo: politicas anales”? Ganharia destaque o precursor! Abra√ßos a todos e √≥timas descobertas libidinais!

  15. dejc-lewj disse:

    não, é um orgao excretor

  16. Marcelo disse:

    O √Ęnus √© √≥rg√£o excretor, como o p√™nis, que excreta urina e esperma, ou a vagina, que excreta a menstrua√ß√£o… √ďtimo texto! Parab√©ns!!!

  17. Jo√£o Victor disse:

    Eu e muita, muita gente uso o anus como órgão sexual, então ele é. Quem acha que ele não é, não usa e vai lavar louça.

  18. Gustavo Nóbrega disse:

    Ora, nunca nem pensei nesse debate, nessa pol√™mica. J√° comi tanto cu que nem pensava se era √≥rg√£o sexual ou n√£o… eu simplesmente comia e pronto! E nunca me arrependi! √Č muito mais gostoso que a parte frontal!
    Sobre cu só posso dizer que nunca dei o meu nem quero dar. Mas vou continuar comendo o cu de todas as mulheres que quiserem me dar!
    Não tem contra-indicação. Quem diz que tem é porque não conhece os bons prazeres da vida.

  19. Jo√£o disse:

    Então meu rim é um órgão sexual!

  20. Luiz Antonio disse:

    Estou com sessent√£o, nunca comi um c√Ļ porque nunca tive necessidade. S√≥ de pensar que o c√ļ √© a parte mais imunda, suja do corpo humano, evidentemente, s√≥ uma pessoa insano ou muito carente, faria isso, haja visto que √© pelo c√ļ que sai todas as impurezas.
    Entretanto, n√£o tenho nada contra quem o faz, coma c√ļ a vontade e viva eternamente na merda..

  21. ronivon disse:

    adorei muito bom o texto.esclareceu muita coisa boa e que merecia ser eesclarecido

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