Fábio Fernandes
Desde tempos muito remotos, o ser humano transforma aqueles que são “diferentes” em fetiches, espetáculos a serem contemplados e aplaudidos sob olhares de espanto, riso, medo e chacota. Esses seres, distantes da definição de normalidade aceita e postulada por discursos e regimes jurídicos e políticos, já tiveram o seu lugar em um palco circense mais… “bizarro”, digamos assim.
Eram muito comuns em cidades norte-americanas, nos séculos XIX e XX, os freakshows (show de horrores), espetáculos em que o objetivo era causar espanto no público exibindo uma diversidade de atrações cujos corpos apresentavam diferenças genéticas mais incomuns, como o gigantismo, o nanismo, a neurofibromatose, pessoas albinas, gêmeos siameses, além de animais como vacas de duas cabeças, bichos com um olho só, porcos e cabras de quatro chifres etc.
São esses os considerados corpos marginais, ou simplesmente abjetos, situados em zonas invivíveis, já que não se adequam a modelos de corpos nem de vivências exigidas para serem considerados normais: falta-lhes algo para possuírem o estatuto de sujeitos, como se fossem menos humanos ou, enfim, inumanos.
E @s travestis, transexuais, intersexos e transgêneros? Seus corpos embaralham a noção de gênero inteligível, ou seja, resultante da perfeita equação entre sexo, gênero, desejo e práticas sexuais (nessa lógica, os que nascem com pênis devem se tornar homens, desejar e praticar sexo com mulheres e essas seguiriam o modelo pelo mesmo raciocínio binário), como reflete a pensadora Judith Butler. Esse é um dos caminhos para o sonho perfeito criado pelo capitalismo, o do conforto de uma sociedade que se realiza em bens de consumo, trabalho digno, casa aconchegante e família feliz de comercial de margarina.
A identidade travesti está, de um modo geral, associada à fabricação de um novo corpo, ao invés de sua constante simplificação em práticas e orientações sexuais, que podem ser as mais diversas. Elxs investem justamente nesse contínuo de construção/desconstrução de seus corpos e, por conseguinte, das próprias vivências e matrizes sociais a que pertencem. Mas qual corpo não é modificado, interferido, alterado de uma forma ou outra?
Quantas medicações não ingerimos durante toda a nossa vida? E as longas sessões de academia, as tatuagens e as mudanças em salões de beleza? E as cirurgias plásticas, também não são alterações corporais? Com certeza, sim. Mas tocar no sacrossanto sexo/gênero é um crime, um pecado, um passaporte para se tornar uma aberração. Contraditório, não?
Travestis rompem as linhas tradicionais de gênero e nos propõem reflexões sobre o quanto diversificado é todo e qualquer ser humano. Suas identidades, no entanto, são estigmatizadas e não incluídas na “zona de conforto” que – ilusoriamente – nos traria a segurança e a “felicidade” amplamente divulgada na contemporaneidade.
Corpos trans têm dificuldades em acessar a bens básicos como educação, saúde e a possibilidade de emprego, por isso muitas travestis encontram na prostituição sua única alternativa: elas são estigmatizadas, violentadas e invisibilizadas… mas, por outro lado, atraem os muitos homens que as desejam e se tornam fetiches e personagens desse show de horrores contemporâneo que toma conta das TVs, invade nossos lares, expondo acriticamente as mazelas de nossa população mais humilde, ou pior, transformando a miséria, a violência e a pobreza em espetáculo.
Esses referidos programas de televisão, também conhecidos como “jornalismo de esgoto” (me recuso a citar seus nomes), recorrem constantemente a personagens que possam se tornar o mais novo monstro a ser exposto em seu palco bizarro. São programas que existem em todo o Brasil, com um formato semelhante, exibindo cadáveres, entrevistando presos em flagrante e sugando ao máximo o sofrimento alheio para transformar tudo isso em “notícia”, em show.

Link com vídeo e reportagem: http://noticias.r7.com/camera-em-acao/video/valor-do-programa-pode-ter-provocado-briga-que-resultou-na-morte-de-travesti-em-sp-512d2a40b61c826a75297079/
Travestis são personagens recorrentes nesses programas, quase sempre exibidas em delegacias e em situações que as identificam como “fora da lei”, bandidas, marginais, roubando e/ou agredindo seus clientes ou envolvidas em confusões que merecem as luzes desse freakshow. O que nunca é respeitado, inclusive, é o próprio gênero delas: os repórteres sempre se referem às travestis como ele, “o travesti”. Seu gênero está visível na forma como se apresentam, seja em seus nomes sociais ou na identificação mais que explícita com o feminino; a opção por referir-se de forma contrária é a de denotar o seu status de anormalidade.
A intenção dessas reportagens em “coisificar” as travestis é refletida nas situações de acusação por roubo ou violência praticados por elas: quase sempre as supostas “vítimas” são poupadas do escracho de aparecer em tal situação, tem o rosto tapado pela edição ou sequer aparecem nela. Sem contar os efeitos sonoros que ajudam na ridicularização desses corpos, completamente expostos aos risos perversos, que se ouvem nas delegacias.
Além de terem seus rostos expostos na TV, essas reportagens logo são compartilhadas na internet e vistas por milhares de pessoas. Não são raros os comentários rotulando-as como aberrações, pobres coitadas, almas perdidas ou mesmo criminosas. Essa exposição é um verdadeiro gozo para quem gosta de se deliciar da desgraça alheia e conferir casos de “bizarrices” e “anormalidades” (basta jogar no google ou youtube termos como “delegacia” e “travesti”, para conferir alguns exemplos).
A narrativa desses jornalistas de esgoto reforçam com intensidade o caráter de abjeção e inumanidade intrínsecos às pessoas trans… aprisioná-las nessas margens garantiria o conforto higiênico de ter e fazer parte de uma família normal, de ser uma pessoa normal, refletindo-se, em alguns pais, na reprodução de uma recorrente frase: “meu filho, seja gay, mas nunca se torne UM travesti, pelo amor de Deus!”.
Podemos discutir de onde vem essa noção de abjeção e normalidade. Quem cria e quem determina quem é normal ou anormal? Quem merece esse rótulo? Quem merece ser aceito e fazer parte de forma íntegra à sociedade? Quais são os corpos que de fato importam? Assim como algumas comunidades ditas populares, circunvizinhas a bairros de luxo, são consideradas cânceres nas cidades e cidadãos e cidadãs negrxs e pobres são ainda constantemente marcadxs por cor da pele e classe social, existem pessoas ainda menos humanas. Há elementos desse abjeto em cada ser humano, em todo o campo social e essa abjeção é um ponto de vista, assim como as culturas também são, ou seja, o que nos causa estranheza aqui pode ser o referido “normal” em outros lugares e contextos socioculturais.
Podemos dizer que todos temos nossos monstros, que não vivem em armários e florestas, mas em toda parte, subjetivos e ao mesmo tempo reais, parte de si, parte do outro, para além de linhas ou traços definidos simplesmente pelos parâmetros de normalidade. Mas os “monstros” que a sociedade elege para serem alvo de risos, contemplação e violência, esses sim são os que sofrem com a invisibilidade, a exclusão e a ignorância. São inúmeras as violências sofridas, porém ocultadas ou impunes, mortes frequentemente ignoradas e subjetividades destruídas sob as luzes de um palco impiedoso. Levantem-se, aplaudam nossas aberrações, plateia.








































Passando para parabenizar o brilhante texto do Jornalista Fábio Fernandes. Seu texto é direto, sem apelações e com muita sensibilidade. Continue neste caminho. Mais uma vez, parabéns!
Esse texto caiu como uma luva, pois aqui em SSA no horario do meio dia, (em alguns canais esses programas são exibidos duas vezes durante o dia, indo até a noite.) so se vê esse tipo de programa “policialesco bizarros”, um verdadeiro freakshow da desgraça humana. Onde um bando de jornalistas e apresentadores desumanos exibem (na maioria das vezes pessoas negras, pobres ou muito pobres), humilham essas pessoas em seus ridiculos programas que se dizem “jornalistico”.
Não entendo porque o Ministério Publico não retira do ar esses programas, pois eles não poupam ninguem, alem de não acrescentar em nada, sem contar a falta de respeito com o telespectador. Os programas não se constragem em mostrar claramente e muitas vezes sem censura, imagens de pessoas mortas, dilaceradas, mulheres nuas, brigas de adolescentes(muitas vezes estudantes), imagens de PEDOFILIA, videos de acidentes bizarros, atropelamentos e tudo o que for de doentil, bizarro e depreciador da vida humana.
É uma pena, pois parece que as autoridades do estado estão deitados eternamente em berço esplendido, em um sono eterno,alem de cego, surdo e mudo.
Lamentável.
Texto abordado de forma ímpar! Parabéns ao jornalista Fábio Fernandes por abordar esse tema.
Lembro de um caso ocorrido aqui no município de Castro Alves durante as Eleições Municipais. Uma mulher com sérios problemas mentais tirou a roupa em público e houve quem filmasse. Um desses programas exibiu esta filmagem como se fosse de uma eleitora que estava comemorando a vitória de seu candidato. Um absurdo. E mesmo informado sobre a situação da jovem, o vídeo, que posteriormente foi postado no site do programa, não foi retirado, e nenhum esclarecido sobre o real estado da jovem foi prestado ao telespectador. Muito triste.
Texto maravilhoso, Fábio Fernandes. As travestis são aqueles seres que nos assombram porque ultrapassam as linhas nas quais enclausuramos nossos desejos, expondo o diálogo entre os corpos generificados que acreditamos poder ser objetos de desejo ou não.