Chuva pesada, trovões e relâmpagos à vontade. Táxi disponível, quase nenhum. 19 pontos de metrô me separavam da estação em que deveria pegar o trem às 8h30. Eram 7h30. “Sem adrenalina, não há viagem”. Ao menos é nisso que precisava acreditar pra não ficar tenso. Um aplicativo no celular chamado Explore Guangzhou avisava que a jornada até a Guangzhou South Railway Station duraria apenas 32 minutos. Meu coração interpretou a mensagem como um “relaxa, garotão”. O superlativo ajuda na calmaria.
Ou o metrô ou o condutor. Um dos dois devia ser inglês. Em exatos 32 minutos cheguei na estação final e peguei o trem. Antes mesmo de deixar a cidade de Guangzhou, a ferrovia se aquecia com o comboio chegando aos 300km/h rumo ao município de ZhuZhou (originalmente 株洲), na província de Hunan, cerca de 630km ao norte. Na saída, ao cortar a capital da província de Guangdong, em que moro, construções podiam ser vistas em todo lugar – literalmente. Morros, encostas, beiras de rios e espaços já bem cheios. Nada parece escapar da voracidade do mercado imobiliário chinês que parece estar fervilhando seguindo os pontilhados da economia do país. Outro dia, um passarinho de olhos puxados me disse que os resultados dessa avidez dragoniana não passam de aparência e que a escassez de procura pra tanta oferta já rasbica uma futura bolha econômica. Nunca li nenhum noticiário local abordando esse possível lado da moeda Yuan, entretanto. Falando de economia, a capa do jornal que passei os olhos (e obviamente não li) falava do BRICS – não consegui traduzir muito mais do que isso.
Em duas horas e meia a jornada foi concluída. À bordo de um trem de alta velocidade, o conforto é garantido. “Ahh, se todo trem na China for assim”, suspirava. “Zhuzhou é uma pequena cidade. Tipicamente chinesa, você vai entender mais do espírito do país quando visitá-la”, avisou a minha anfitriã. Estudante de mestrado em literatura chinesa, Nana (o nome inglês de Li Yana) é uma garota cuja mente fervilha em cultura. Mil ideias, mil livros e mil filmes parecem disputar espaço em sua imaginação.
Excentricidades gustativas
Já no destino, fomos direto para um restaurante apreciar o que a comida local tem a oferecer. A província de Hunan é famosa pelos seus excêntricos pratos e petiscos fortemente apimentados! Não sou amante da pimenta. Como diria um amigo, na escala de 1 a 5 sou nível -1 nesse quesito. No buffet do restaurante, vegetais diversos, frutas, carne de carneiro, vaca, peixe, camarão ainda vivo e sapo. O peixe, segundo Nana, é uma especiaria da região. O modo de preparo dele é assustador, preciso dizer. Ele tem sua boca aberta ao máximo até sua mandíbula ser quebrada. Com a intensa dor, ele solta os excrementos que poderiam fazer mal ao seres humanos. Assim, dilacerado e sem vida, ele é deixado no buffet para ser servido. Segundo Nana, o peixe tem um nome que em tradução livre seria “amarelo escuro gritante”. O episódio me lembrou a bizarra história que ouvi sobre povos do país que comiam cérebros de macacos enquanto os animais ainda estavam vivos. Soube por alguns chineses, entretanto, que essa prática é ilegal e rara, atualmente. Os peixes, ao menos, são servidos mortos.
O camarão, por sua vez, é morto apenas quando jogado na água fervente. Essa água fica em uma panela colocada ao centro da mesa. A gás, o fogo continua o cozimento dela durante toda a refeição enquanto os alimentos são inseridos em uma das duas partes da panela: uma normal, outra apimentada. Assim é o “hot pot” – estilo de culinária típica do sul da China. Na primeira vez que experimentei sapo, achei a carne bem gostosinha e me surpreendi com a textura nem tão mole quanto a do peixe e nem tão dura quanto a da galinha. Depois, parei pra pensar e me achei bem estúpido: “claro que o bicho não poderia ser diferente já que é um anfíbio e vive entre a terra e a água”. As crianças chinesas, mais espertas que eu, são ensinadas na escola que não podem comer sapos encontrados soltos na natureza porque estes comem insetos evitando problemas nas colheitas, ou seja, fazem bem aos seres humanos. Os que podem virar jantar são apenas os criados para tal fim. Se eles dizem isso, então tá.

"Afim de um vinho local?", me perguntou o pai de minha amiga. "Por que não?", respondi. A tal bebida era cachaça das "braba". Todo mundo entornando e eu parei no segundo gole. O brasileiro aqui perdeu feio
Trem made in Zhuzhou
Conhecida como a capital nacional dos trens por sediar uma indústria responsável pela produção de boa parte do transporte ferroviário do país, Zhuzhou possui um memorial dedicado as locomotivas, um dos principais locais de visitação da cidade. Em parceria com a Alemanha, tecnologia de ponta foi desenvolvida na região. O rigor com a fabricação de trens-bala, contudo, tornou-se mais rigorosa após um acidente que vitimou fatalmente aproximadamente 300 pessoas, em Xangai, há dois anos.
A cidade também é notável quando o assunto é transporte ecologicamente responsável. Com uma frota de 1600 ônibus elétricos espalhados em cidades como Pequim, Xangai, Guangzhou, Tianjin, Changsha, Kunming e até em Taiwan (fora da chamada “Chinese Mainland” ou China Continental), a fábrica local abastece, desde 2011, 25% do mercado nacional do setor, segundo o site oficial do governo (hunan.gov.cn). A cidade também oferece um sistema gratuito de aluguel de bicicletas bem interessante. Pode-se ficar com uma delas por até três horas com possibilidade interminável de renovação. Pude ver em diversos locais da cidade o ponto de retirada e devolução das bikes. “Muito conveniente”, como os chineses dizem. Aliás, dessas bicicletas eu desfrutei bem.
Na foto, acima, eu e Nana a bordo das bikes públicas. Depois do rolé, posto mais sobre Hunan.
Até mais! 看你


























































































