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Casal gay que recebeu carta do Papa por batizar filhos ouviu 'não' de quatro igrejas

A família só viu a carta do Vaticano após voltar de uma viagem à Europa

Clarissa Pains, da Agência O Globo

Foi um périplo para Toni Reis e David Harrad conseguirem batizar seus três filhos na Igreja Católica. Eles passaram por quatro paróquias em Curitiba, onde moram, e ouviram "não" de todas elas. Até que resolveram procurar o arcebispo, Dom José Antonio Peruzzo, que deu a autorização logo nos primeiros minutos da audiência, pondo um fim à questão. O batizado ocorreu em abril, e a surpresa maior foi divulgada ontem, segunda-feira, por Toni Reis, em sua página do Facebook: o Vaticano enviou uma carta com agradecimentos do Papa Francisco.

— David e eu temos muitos amigos na América Latina que são católicos e que também têm essa dificuldade de batizar os filhos e de ter uma vida dentro da igreja com eles. Então resolvemos montar um mini dossiê sobre a nossa experiência e enviar ao Papa. Mas não esperávamos resposta, de jeito nenhum! Foi incrível quando vi a carta — conta Reis, de 53 anos, brasileiro, católico, professor e ativista dos Direitos Humanos.

O casal está acostumado a esse tipo de périplo. Juntos há 27 anos, Toni Reis e o inglês Harrad, de 59, puderam se casar oficialmente em 2011, quando o Supremo Tribunal Federal reconheceu a “união estável” para os casais de mesmo sexo. E foram os primeiros homossexuais a conseguirem adotar um filho a partir de uma decisão do STF — processo que demorou longos sete anos.

— Outros casais gays conseguiram adotar antes, mas sem chegar ao STF. Nós precisamos ir desde a primeira instância até o Supremo. Foi muito desgastante, mas criamos uma jurisprudência. Hoje, o casal gay que quiser adotar vai demorar bem menos. Acho que é fundamental ter exigências, porque cuidar de uma vida em casa não é algo simples, então é normal que se demore um ou dois anos. Mas não pode demorar mais para um casal gay só pelo fato de ser gay — destaca Reis.

Esse processo que chegou ao STF foi para adoção de Alyson, hoje aos 16 anos. Depois disso, Reis e o marido adotaram os irmãos biológicos Jéssica, hoje aos 14, e Filipe, de 11.

Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal

A família só viu a carta do Vaticano após voltar de uma viagem à Europa. Eles visitaram seis países — Itália, Inglaterra, França, Suíça, Espanha e Portugal —, e Reis conta que, em todos os lugares, foram tratados como família.

— Isso foi muito legal. Em promoções de restaurantes, em entradas de museus, sempre fomos tratados como família. É uma evolução muito importante — pontua ele.

Reis é católico desde criança. Já Harrad é anglicano. Os dois tiveram uma conversa com os filhos para saber o que preferiam: adotar uma religião, esperar até os 18 anos para se decidirem ou não manter laços com qualquer doutrina. Mas os três escolheram ser batizados na Igreja Católica.

— Nada foi imposto. Eles quiseram, então fomos atrás da vontade deles — diz Reis. — Enquanto estávamos fazendo nossa viagem, se soubéssemos que o Vaticano tinha mandado essa carta de agradecimento, teríamos procurado a assessoria do Papa Francisco lá. Uma pena que não sabíamos. Mas continuamos com o sonho do conhecer o Papa.

O pontífice segue uma linha avessa à dos conservadores católicos quando se trata do relacionamento da Igreja com os gays. Em 2016, ele que, segundo o catecismo, os homossexuais “não devem ser discriminados, e sim respeitados e acompanhados no plano pastoral”, repetindo uma fórmula utilizada durante o primeiro ano de seu pontificado, quando surpreendeu ao mundo com sua afirmação: “Se alguém é gay e busca ao Senhor com sinceridade, quem sou eu para julgá-lo?”.