Novelas

Conheça o ator que é a aposta de Gloria Perez para viver travesti em novela

"Acredito que com esse trabalho eu possa, mais uma vez, abrir as portas para a discussão sobre esses universos", aposta o cearense

Agência O Globo

O destino, por muito tempo, parecia conspirar contra Silvero Pereira, de 34 anos, e sua família. A pobreza e a seca que paralisava Mombaça, no interior do Ceará, eram como uma muralha que separava o menino franzino do mundo da fantasia em que ele tanto desejava brilhar. O tempo passou, ele se formou em teatro, ganhou notoriedade com a peça “BR-Trans” e agora está prestes a fazer sua estreia na televisão, na pele do motorista Nonato. O rapaz é um nordestino que deseja ser ator, em “A força do querer”, próxima novela das nove, escrita por Gloria Perez. Ele vai causar!

"Eu me vejo dentro dessa história. Nonato tem um pouco de mim. Sou de uma família rejeitada o tempo todo por conta da pobreza, e a arte nos salvou. Por conta do meu ofício, dei qualidade de vida para meus pais. Hoje, a minha cidade nos olha de maneira diferente", revela ele, que estreará a peça “Uma flor de dama”, no próximo dia 5 no Teatro Poeira, no Rio.

Pouco tempo depois de subir ao palco, Silvero vai começar a dar vida ao seu herói, empregado da família dos personagens de Humberto Martins e Lilia Cabral. Nonato trabalha com o intuito de ganhar dinheiro para investir em seu sonho. No meio da saga, no entanto, sua sexualidade vai passar por uma transformação: ele se descobrirá travesti, como revelou a autora.

"Acredito que com esse trabalho eu possa, mais uma vez, abrir as portas para a discussão sobre esses universos", aposta o cearense.

Gloria Perez conheceu Silvero ao vê-lo em cena na peça “BR-Trans”. Convidado por ela para fazer parte do folhetim, que terá direção de Rogério Gomes, o ator, que percorreu o Brasil pesquisando a vida de travestis e transsexuais para montar o espetáculo que o projetou, acabou “trocando muitas ideias” com Gloria. A trama debaterá as questões de gêneros:

"Ela foi ver a peça em busca de mais material para a novela e acabou se encantando pelo meu trabalho. Falamos muito sobre a travestilidade. Gloria foi muito generosa comigo".

Integrante do grupo teatral As Travestidas, que debate a sexualidade em suas produções, Silvero, que também é escritor, afirma que o próprio teatro chegou a ignorá-lo.

"Foi insistindo nesse projeto que mostramos que a ética e a arte são mais importantes do que o que a sociedade pensa sobre sexualidade. Hoje, somos considerados pop, as vedetes do teatro cearense", comemora.

Em casa, ele também é uma estrela. Filho de um pedreiro e uma lavadeira aposentados, Silvero revela que o momento é de “profunda realização”.

"Minha mãe, dona Rita Invenção Pereira, me assistiu no teatro pela primeira vez após 14 anos da minha estreia. Quando terminou minha apresentação, disse para mim que eu era “um grande herói”. Ela viu um garoto que passou por todas as adversidades da pobreza se transformar numa referência em seu estado.