Salvador

Conselho religioso do Afonjá diz que Mãe Stella deve prestar contas a Xangô

Ialorixá participou pela última vez de uma celebração em 23 de novembro, dia de Oxóssi

Alexandre Lyrio, do Correio 24h (alexandre.lyrio@redebahia.com.br)

Quem manda ali é ele e ponto. Por isso, ao chegarmos no Ilê Axé Opô Afonjá, não tivemos escolha. “Aqui fora, não! A entrevista vai ser lá dentro, na Casa de  Xangô”. Nessa hora, o orixá da justiça é convocado a, com o seu machado, pôr fim ao racha que acontece em um dos terreiros mais importantes do país.

Foto: Betto Jr | Correio*
Nesta segunda-feira (11), mais de duas semanas depois de Mãe Stella de Oxóssi pisar pela última vez no terreiro, quatro sacerdotisas convocaram a ialorixá a dar satisfações a Xangô e determinar o que deve ser feito na sua ausência: Edit Santos Andrade, a yakekerê Ditinha, 82 anos; Raimunda Antônia de Paula, Mãe Mundinha, iyá-dagan do Afonjá, 63; Valdomira Alcântara, a Ogalá Tutuca ou Mãe Tutuca, 63; e Maria Pimentel, a mãe Maria ou Iyá Efun, 69, todas do conselho religioso do terreiro.

Sentadas no sofá da antessala da Casa de Xangô, elas se negaram a falar em sucessão. “A gente tá aqui sem poder fazer nada. Porque as ordens são dela. Ela saiu e não falou nada com a gente. Já que ela queria sair, queria se ausentar, ela tinha que, primeiro, chegar, falar com Xangô. Mas ela não fez isso. Estamos esperando que ela preste contas a Xangô. Quem entregou o axé a ela foi Xangô e nós não podemos tirar isso dela”, afirmam as religiosas.

Todas também rejeitam a renúncia. Mas, mesmo em caso de abandono, elas aguardam que Mãe Stella aponte os rumos a se tomar. “O trono dela está aí dentro, no mesmo lugar, esperando ela voltar. Se ela está se sentindo bem lá, tudo bem. Mas tem que vir nos pés de Xangô e dizer qual posto cada um deve assumir, o que cada um tem que fazer”, diz Mãe Mundinha.

“Tenho 47 anos de santo e nunca vi nada igual. Nenhuma daquelas ali fez nada parecido”, emenda Mundinha, apontando para os quadros das ialorixás Aninha, Bada, Senhora e Ondina, as antecessoras de Stella. Pelo estatuto da casa, quando a mãe de santo se ausenta, a liderança automaticamente passa à yakekerê, a chamada Mãe Pequena, segunda pessoa do Conselho Religioso. No caso, Ditinha, que nesse momento conturbado preferiu o silêncio. 



Ela é a única que prefere não falar nada sobre o assunto. As demais explicam que o terreiro segue funcionando, mas, sem a ialorixá, tem algumas restrições. “Temos um limite. Determinadas obrigações, na ausência dela, não têm como a gente fazer”, diz Mãe Maria, sem dar detalhes de quais obrigações seriam. “Sobre isso não podemos falar”, explicou. “O carro não passa adiante dos bois”, emenda Mãe Tutuca.


Limitações

Com Mãe Stella dentro do terreiro, mesmo sem participar diretamente do dia a dia, as principais festas continuaram a ser realizadas, as obrigações também. Na sua ausência, não é bem assim. “Não podemos recolher iaô (iniciação), não podemos assentar santo (outra etapa de iniciação). E muitas outras obrigações internas ficam paralisadas. Posto de ialorixá é vitalício. Enquanto ela tá viva, ninguém pode meter a mão para fazer nada. Quero que ela venha aqui e diga o que devemos fazer”, afirma Tutuca.  

Mãe Maria é ainda mais enfática. “Ela deu as costas para Xangô. Mas Xangô tá esperando ela para dar uma satisfação. Sempre foi assim”. Diferente do que disse Mãe Stella, no sábado, ao CORREIO, as religiosas negam que a ialorixá tenha perdido a voz dentro da casa. Mesmo com a idade avançada, dizem elas, mãe Stella sempre era ouvida. “Tudo que acontecia aqui se dava satisfações a ela primeiro”, diz Mundinha, iyá-dagan do Afonjá.

Apesar de Stella ter dito que se mudou por vontade própria para Nazaré, onde se encontra com sua companheira, as religiosas acreditam que ela tem sido manipulada. “Mesmo ela tendo dito que foi por livre e espontânea vontade, com certeza está sendo impedida de vir para cá. Se ela mesma tá pedindo a ajuda dos orixás para decidir, é porque ela está em dúvida. Ela tem 92 anos”, diz Mãe Maria. 

A última vez que Mãe Stella saiu de casa para participar diretamente de uma festa foi no dia de Oxóssi, 23 de novembro. “Ficamos felizes porque ela pediu para ir na casa de Oxóssi, pediu para colocar o café dela, passou o dia todo cantando com as crianças da escola e dormiu na casa de Xangô. Foi a última vez”, lembra Tutuca. Agora, tudo está nas mãos de Xangô.