Literatura

Cristovão Tezza fala ao iBahia sobre novo romance, 'O Professor'; confira

Um dos mais proeminentes escritores brasileiros, Tezza também falou sobre o seu processo criativo e sobre a nova literatura nacional

Guilherme Reis* (guilherme.reis@redebahia.com.br)
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Cristovão Tezza é um dos maiores escritores em atividade no país. Autor de duas dezenas de livros, o catarinense de Lages teve o seu nome lançado no cenário literário internacional em 2007, quando publicou o seu mais aclamado romance, 'O Filho Eterno'. A ficção autobiográfica relata o sofrimento de um pai para aceitar o filho com Síndrome de Down. Seu novo livro, 'O Professor' (Record; 240 páginas; R$ 32), ao contrário, é uma prosa absolutamente fictícia, que conta a história do professor Heliseu da Motta e Silva, de 70 anos, que se prepara para receber uma homenagem na universidade onde leciona. Em entrevista ao Portal iBahia, Tezza explorou temas como a composição da nova obra, suas influências literárias e a nova literatura brasileira.


iBahia - Em 'O Professor', o leitor é convidado a se perder no emaranhado psicológico e reflexivo de Heliseu, que aborda temas que vão de história a problemas de sua vida íntima. Considerando que o senhor também foi professor universitário durante muitos anos e que se rendeu à literatura autobiográfica em 'O Filho Eterno', este novo romance de alguma forma se aproxima da vida de seu autor?
 

Cristovão Tezza - Não, de modo algum. O único romance autobiográfico que escrevi foi 'O filho eterno'. A aproximação que pode ser feita entre a minha vida e o destino de Heliseu é o fato de que fui professor universitário durante mais de 20 anos, e meu romance tem como pano de fundo um mundo que me é familiar. O que acontece, aliás, com grande parte dos romances de todos os autores: simplesmente tratam de assuntos que os autores conhecem bem.


iBahia - No livro, são frequentes exercícios de  metalinguagem e jogos semânticos. Heliseu não se furta a utilizar termos de outros idiomas e em português arcaico. Isso tem relação direta com o fato de o senhor também ser linguista?

Tezza - Não necessariamente. É claro que a minha formação acadêmica ajudou a compor o universo temático de Heliseu, sem dúvida. Mas se trata de uma representação. Na verdade, Heliseu conhece muito mais filologia românica do que eu, e tive de pesquisar bastante para montar o cenário, ou o arcabouço cultural em que ele se move. O que busquei foi dar coerência e consistência ao personagem, o que se revela em cada detalhe de suas observações sobre o mundo ou as pessoas.


iBahia - A situação que se estende ao longo da obra, na qual o protagonista se prepara para receber uma homenagem, parece ser uma referência ao filme 'Morangos Silvestres', de Ingmar Bergman. Qual a relação de sua obra com a do cineasta sueco? O senhor já afirmou certa vez que o admira...

Tezza - O romance se fez a partir de um roteiro acidental que eu alimentava já há alguns anos – um homem velho que se prepara para receber uma homenagem. Ao escrever, não pensei em nenhum momento em Bergman, assim como não pensei em Proust (outra referência que se pode derivar do espírito do livro, como lembra a orelha do livro). É um tema – o balanço da vida – que eu já havia trabalhado incidentalmente em 'Uma noite em Curitiba', por exemplo. Nos anos 60 e 70, de minha formação, Bergman era um cineasta obrigatório. Nunca mais o revi, mas até hoje gosto do peso e densidade do cinema nórdico em geral, pelo contraste com certa ligeireza latina, por assim dizer. Mas 'O professor' é, de fato, um mergulho brasileiro (até pela 'tese' defendida pela francesa Therèze sobre a nossa fala, e que é um dos eixos temáticos do livro) e uma síntese madura dos meus próprios temas e obsessões, pela linguagem, estrutura romanesca e visão de mundo.


iBahia - É perceptível em seus livros uma preocupação com a linguagem, em lapidá-la o máximo possível, e com a forma que cada texto vai adquirir. Seu trabalho como professor ajudou a pensar a literatura do ponto de vista técnico?

Tezza - Não, de modo algum. Eu me tornei professor tardiamente. Dei minha primeira aula na vida com 34 anos, quando já tinha todo um projeto literário articulado e já havia escrito 'Trapo', por exemplo. Eu separei bem as águas – sempre fui professor de Língua Portuguesa, e não de literatura. Tomei o cuidado de deixar meu trabalho de criação num 'quarto escuro'.


É verdade que li bastante teoria literária, chegando a publicar minha tese de doutorado ('Entre a prosa e a poesia – Bakhtin e o formalismo russo'), e durante alguns anos escrevi crítica literária na imprensa (hoje reunida num livro digital, 'Leituras – resenhas & ensaios', à disposição na Amazon).


Mas foi um trabalho paralelo. Como romancista, sempre escrevi mais por instinto, e acho que os anos foram apurando minha intuição narrativa.


iBahia - Como é o seu processo criativo? Quanto tempo demora para concluir uma obra?


Tezza - O processo criativo, para mim, começa mais ou menos caótico. Uma imagem, uma ideia avulsa, um fragmento de história, que ficam me provocando às vezes anos a fio. Em 'O fotógrafo', a origem foi a imagem de alguém que deve fotografar secretamente uma modelo e se oculta na esquina, esperando flagrá-la. Em 'Juliano Pavollini' (que, a propósito, vai virar filme em 2015, com direção de Caio Blat), um adolescente foragido que se esconde no sótão de um bordel. Em 'Breve espaço', um artista plástico no enterro de seu mestre, numa manhã de sol. Em 'O fantasma da infância', um revisor de jornal deparando com o anúncio 'procura-se um escritor'. Em 'O professor', um velho professor acordando de um sonho desagradável no dia em que será homenageado.


Quando eu digo 'anos a fio', é isso mesmo: dois, três, quatro anos. Agora, por exemplo, tenho uma imagem que ainda vai se transformar em romance: alguém que não quer atender o telefone que toca com insistência: ele já sabe quem é. Faz um ano que estou pensando nisso.


O segundo momento é uma linguagem – a imagem inicial ganha uma frase concreta, um início, um ponto de partida. 'A solidão é a forma discreta do ressentimento', em 'O fotógrafo'; ou 'Eu tinha tudo para dar certo, exceto a família', em 'Juliano Pavollini'; ou 'Nunca consegui viver sem um mestre', em 'Breve espaço'. A frase mental, que nem sempre permanece na última revisão, começa a dar corpo ao livro.


Num terceiro momento, eu chego enfim ao ponto de não-retorno: começo a escrever o livro. Isto significa limpar minha mesa, organizar as gavetas e reservar as manhãs livres, de segunda a sexta, como um funcionário caxias de mim mesmo. Escrevo das nove ao meio-dia, durante cerca de um ano e meio, dois anos.


E o livro fica pronto.


iBahia - Os seus livros são aclamados pela crítica e, atualmente, também são consumidos por grande quantidade de leitores. É um feito notável, considerando que escritores tidos como intelectualizados enfrentam mais dificuldades para se 'popularizarem'. Sendo assim, acha que é possível frequentar as listas de mais vendidos sem se render a formatos de maior apelo comercial?
 

Tezza - Sim, é claro que é perfeitamente possível. Há muitos grandes escritores que são best-sellers, como García Márquez ou Umberto Eco; ou, no Brasil de outros tempos, João Ubaldo Ribeiro ou Rubem Fonseca. Não há nenhuma relação necessária entre boa literatura e poucas vendas, ou o contrário. A literatura é um território vastíssimo, multifacetado, de muitos deuses.


De duas ou três décadas para cá, o relativo aumento da base de leitores, a multiplicação de focos de interesse e a mudança do perfil comercial das editoras e distribuidoras no mundo digital (uma revolução que está em pleno curso e que ainda não compreendemos direito) tem mudado a natureza dos best-sellers. Hoje é muito difícil um autor brasileiro entrar numa lista de mais vendidos, mas não acho que isso vá acontecer para sempre. Sou otimista: acho que está em curso um processo espontâneo de 'recuperação' do leitor brasileiro, que nossa literatura acabou perdendo nas décadas de 1980 e 90.


De qualquer forma, é bom lembrar que este é um fenômeno extra-literário, a ser pensado menos com teoria da literatura, e mais com sociologia.


iBahia - Dez anos atrás, a chamada 'literatura de entretenimento' era essencialmente estrangeira. Hoje em dia, há um grupo cada vez maior de escritores que vem se dedicando a gêneros como fantasia e ficção-científica no Brasil. Como o senhor analisa esse novo cenário?

Tezza - A intensa internacionalização cultural do mundo pós-internet – talvez a revolução tecnológica mais radical dos últimos 100 anos – jogou, ou 'arremessou' o Brasil no mundo. E estamos rapidamente absorvendo esses novos gêneros. Bem, na verdade são gêneros clássicos renascidos, que por acaso histórico nunca tiveram muita relevância no Brasil. Acho ótimo, porque quase sempre são gêneros formadores de leitores. Antes de enfrentar Dostoiévski ou Faulkner, comecei lendo as histórias de Sherlock Holmes  e as aventuras de Júlio Verne. Imagino que aventuras como as de Harry Potter, hoje, sejam o estimulante literário das novas gerações.


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O Professor
Autor: Cristovão Tezza
Páginas: 240
Editora: Record
Preço: R$ 32



*Com supervisão e orientação de Márcia Luz.

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