Brasil

Desafio do desodorante: como os pais devem proteger seus filhos dos riscos

Para psicóloga, crianças precisam estar sempre acompanhadas dos responsáveis quando acessam a internet

Renato Grandelle e Sérgio Matsuura, da Agência O Globo


Onde Está Meu Trio?


Encontrar informações sobre o "desafio do desodorante", que teria levado a menina Adrielly Gonçalves, de 7 anos, à morte, não é difícil, ainda mais para crianças e adolescentes já acostumados com o uso da internet. Ao colocar o frasco com o produto na boca, Adrielly estava tentando imitar um vídeo que circula pela rede disseminando essa prática.

No Google, uma busca por “desodorante droga” retorna quase 200 mil resultados, com matérias jornalísticas alertando sobre os riscos envolvidos, mas também vídeos e textos ensinando como a inalação deve ser feita.

Foto: Reprodução / shutterstock.com

O tema é bastante popular, tanto que o buscador oferece algumas “pesquisas relacionadas”, com termos como “baforar bom ar”, “como inalar desodorante”, “como se cheira desodorante”. Pelo YouTube, a busca por “inalar desodorante” mostra quase 500 resultados, muitos deles com vídeos de jovens, aparentemente menores de idade, fazendo uso do produto como droga.

'Desafios' da internet ganham mais adeptos nas férias escolares

Diretora do Instituto Psicoinfo, Luciana Nunes assinala que os desafios da internet que atraem crianças e adolescentes ganham mais adeptos nas férias escolares, quando os estudantes têm mais tempo livre e são menos vigiados pelos pais, que estão trabalhando.



- Uma criança de 7 anos precisa estar acompanhada por adultos quando acessa a internet, porque ela não tem maturidade ou discernimento sobre o perigo representado por esses desafios - observa. - Existem dispositivos para filtrar o conteúdo a que ela pode assistir.

A psicóloga ressalta a existência de um padrão: jovens que participam destes desafios são expostos seis vezes, em média, a um conteúdo semelhante.

- Eles já viram vídeos, ou ouviram comentários de amigos - conta. - Não adianta fazer apenas uma campanha sobre o 'desafio do desodorante', porque muitos outros desafios aconteceram antes e outros podem aparecer depois. As crianças querem testar seus limites, por isso se engajaram meses atrás na Baleia Azul e antes a outro desafio em que deviam enforcar um amigo até que ele desmaiasse. Vemos que elas só começam a entender as consequências destes atos a partir dos 12 ou 13 anos.

Assim como se coloca uma grade na janela, adota-se um filtro na web


Luciana ressalta que a última parte desenvolvida do cérebro - o que ocorre apenas durante a adolescência - é o córtex frontal, responsável por funções cognitivas como a tomada de decisões. Por isso, uma criança teria menor estrutura para diferenciar o teor do conteúdo disponível na internet. Exatamente por isso está mais vulnerável a sites e jogos perigosos.

O problema, avalia Luciana, não é a internet, mas sim a falta de compreensão sobre como os riscos do mundo digital devem ser reconhecidos e transmitidos:

- Da mesma forma como colocamos uma grade para que a criança não se pendure na janela do apartamento, devemos colocar um filtro na web para garantir sua segurança.

A psicóloga ainda defende a inscrição das crianças em colônias de férias, que cumprem duas funções: além de proporcionarem atividades lúdicas, também reduzem o tempo que os jovens passam on-line