Salvador

Publicada em 06/11/2012 às 07h40. Atualizada em 06/11/2012 às 07h42

Falta de água que afetou 60% de Salvador é rotineira em vários bairros


Para 60% da população de Salvador, a segunda-feira (5) foi de economia de água, depois do corte de abastecimento da Embasa. Moradores de alguns bairros, porém, afirmam que, com reparo ou sem, a falta de água em casa é recorrente


Leo Barsan
(leo.barsan@redebahia.com.br)
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Na rua do Curuzu, a auxiliar administrativa Rosemary Pereira, 48 anos, subiu a ladeira, mas não foi para ver o Ilê passar. Na Santo Antônio, Liberdade, a dona de casa Idália Lima, 56, desceu a rua acompanhada de vizinhas para ir à fonte. Em Alto de Coutos, rua Dois de Julho, os irmãos Eli e Edvaldo Teles, 47 e 54, ficaram na dependência. Em Sete de Abril, desde a semana passada, a dona de casa Rosângela Lima, 41, enfrenta um problema de longa data. Todos querem a mesma coisa: água.

Os personagens moram em alguns dos 60% dos bairros da capital baiana que amanheceram sem água nesta segunda (5) porque a Embasa suspendeu o abastecimento para realizar “serviços de melhoria no sistema integrado para garantir melhor abastecimento no Verão”.

Além de Salvador, seis cidades da Região Metropolitana e os municípios de Santo Amaro e Amélia Rodrigues também tiveram o fornecimento interrompido desde as 2h. Segundo a Embasa, o serviço foi concluído ontem à noite e o abastecimento só deve estar totalmente normalizado amanhã  (veja ao lado).

Rotina
Apesar da interrupção de ontem ter afetado diversos bairros e municípios da Região Metropolitana, em alguns locais moradores afirmam que faltar água é rotina.

Os irmãos Eli e Edvaldo moram com a mãe, paraplégica, em Alto de Coutos, no Subúrbio Ferroviário. No chão da cozinha e da área de serviço da casa, os recipientes com água armazenada tomam conta do espaço. No quintal, os tonéis também são usados para que a água não falte. “Nossa mãe vive em cima da cama. As roupas precisam ser lavadas diariamente”, explica o motorista Eli.

“Aqui falta água há pelo menos 15 dias. O tanque tem capacidade para mil litros e é o que segura um pouco a onda. Hoje (ontem), com esse serviço (da Embasa), não fez tanta diferença em relação a outros dias”, afirmou. “Até água da chuva a gente recolhe para usar na descarga e economizar a água limpa”.

Há dois meses e meio, garante a dona de casa Idália, e as vizinhas Kelmen de Abreu, 58, e Euclidalina Bonfim, 57, a água não cai na torneira regulamente na rua Santo Antônio, na Liberdade. “O jeito é a gente descer a ladeira e ir buscar água na Fonte do Estica. A gente tá vivendo de migalhas de água. Tô com o joelho detonado de tanto subir e descer pra estocar”, criticou Idália.

A dona de casa Euclidalina paga R$ 2 a R$ 3 por dia para que os garotos da rua carreguem baldes d’água até a casa dela. “Chamo os meninos e eles levam. Não tenho como carregar. Já fizemos várias reclamações, mas o problema continua”, ressaltou.

Para tomar banho, Kelmen tem que ir à casa de um parente na Fazenda Grande. “Ainda levo as roupas pra lavar lá. As refeições a gente também faz na rua, porque não tem como fazer comida em casa. Sem água para lavar os alimentos e as louças depois”, lamentou.

Um tanque de mil litros faz parte da decoração da sala da casa de dona Rosângela Lima, na rua Lauro Chaves, em Sete de Abril. “A gente enche quando cai da torneira. Hoje (ontem), caiu um pouquinho. A água só vai dar até amanhã (hoje). Já tem uma semana que não tá normal”, assegurou.

Planos B
Vários moradores da Liberdade tiveram que usar ontem a Fonte do Estica, cuja água vem de uma nascente, para tomar banho e lavar roupas. Foi o caso dos amigos Antonio Márcio, 28, Paulo Cerqueira, 19, Rodrigo Santos, 27, e Ronaldo dos Santos, 34. “Na minha casa não tem água. Num calor desse, a fonte é a nossa salvação. O jeito é esse: tomar banho e ir trabalhar”, explicou o empilhador Rodrigo.

A auxiliar administrativa Rosemary também sai de casa no Curuzu e pede ajuda a parentes. “Pego água na casa da minha comadre. Tô subindo agora com uma sacola de roupas para lavar na casa de uma amiga. A cada três dias gasto R$ 5,50 comprando água para beber”, disse.

Em cima da hora, ela alegou não ter tido tempo para armazenar água em quantidade por conta da intervenção da Embasa. “Soube ontem (domingo) à noite e não tive como armazenar. Até tenho dois baldes com água, mas porque faço isso sempre. Faltar não é nenhuma novidade”, sentenciou.

Em uma churrascaria na Estrada da Liberdade, a saída encontrada pelo dono do estabelecimento para enfrentar a falta de água recorrente foi contratar carros-pipa. “São três por semana. Cada um custa R$ 180. Hoje (ontem) só tem porque abasteceu antes do final de semana. Aqui falta água direto”, contou a operadora de caixa Dulcecleide Rocha, 27, enquanto abria uma das torneiras.

Em nota, a Embasa afirmou que a responsabilidade pela falta de água nesses locais é dos próprios moradores. “Nas ruas localizadas em pontos altos de Salvador, a maioria dos imóveis foi verticalizada nos últimos anos e seus proprietários não adaptaram suas redes internas para ter acesso ao serviço. A Embasa garante vazão suficiente para que a água chegue na porta desses imóveis, como determina a Resolução nº 001 da Comissão de Regulação dos Serviços Públicos de Saneamento Básico do Estado da Bahia (Coresab), que regulamenta a prestação dos serviços da empresa”, ressaltou a Embasa.

Abastecimento de água só será regularizado nesta quarta
O fornecimento de água deve ser totalmente regularizado até amanhã. A  informação é do superintendente de abastecimento de Salvador e Região Metropolitana da Embasa, José Moreira. “A partir da 0h (de hoje) os reservatórios da Embasa de Salvador devem começar a receber água e, ao longo do dia, já deve chegar água em alguns bairros”, afirmou.

Segundo o superintendente, existem algumas etapas antes da água chegar nas casas. “Só para a captação de água, na Barragem de Pedra do Cavalo, são quatro motores. Cada um tem muita potência, como quatro carros de Fórmula 1. Não tem como ligar de vez”, compara.

Depois de captada, a água segue para a ETA Principal, em Menino Jesus, próximo a Candeias, onde será tratada (veja abaixo). Só então  a água é distribuída para os reservatórios da Embasa, espalhados pela cidade. Segundo José Moreira, estão sendo realizados serviços de manutenção preventiva na captação da Barragem de Pedra do Cavalo e nas adutoras de água tratada e de água bruta da Estação de Tratamento de Água (ETA) Principal, além da duplicação da adutora de água bruta Barragem Joanes II/ETA Principal.

“Essa manutenção preventiva é para que não tenha pane no Verão, justo quando mais se precisa. Nós fazemos sempre”, explicou. “A interrupção do fornecimento é necessária, pois, durante a execução dos serviços, é preciso que a rede esteja despressurizada, ou seja, sem água nas tubulações”, disse a Embasa, em nota. Em abril, haverá nova parada, “que vai ampliar em 20% as vazões do sistema”.

Entenda como é o tratamento de água na estação
É na Estação de Tratamento que está passando por reparos que a água recolhida na natureza passa pelo processo que a torna potável. Primeiro, a água recebe uma substância coagulante (sulfato de alumínio ou férrico) e um alcalinizante (cal virgem ou hidratada) para favorecer as reações químicas. Em seguida, a água é agitada em câmaras (flocuradores), que reúnem as impurezas para que sejam removidas nos  filtros.

Nos flocos estão as  bactérias, vírus e micro-organismos da água bruta. Depois de filtrada, a água recebe uma dose de cloro para evitar o risco de transmitir doenças. Por fim, a água recebe uma dose de flúor para proteger a dentição, e de cal, para equilibrar seu pH e proteger as tubulações contra corrosão.

*Com informações da repórter Luana Ribeiro


Matéria original do Correio
Falta de água que afetou 60% de Salvador é rotineira em vários bairros





Tags: Água, Fornecimento, Bairros, Falta
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