Salvador

'Foi um passageiro que baleou dois inocentes", diz suspeito de roubar ônibus na Pituba

Três pessoas ficaram feridas - inclusive o próprio assaltante. Ao CORREIO, Anderson negou que estivesse armado, mas testemunhas dão versão diferente: ele ainda teria jogado a arma na rua, durante a fuga

Thais Borges, do Correio 24h

Quando Anderson Nunes Ponciano, 22 anos, entrou no ônibus da linha Praça da Sé-Aeroporto, por volta das 7h30 desta quinta-feira (15), não havia nada que indicasse que algo estava errado. Anderson, vestindo camisa polo e calça de alfaiataria, subiu no coletivo na altura do Bompreço do Rio Vermelho, na Rua Marquês de Monte Santo, pagou pela passagem e sentou junto aos outros passageiros – cerca de 30, segundo testemunhas.

Só que, pouco depois, já na Orla da Pituba, nas proximidades da delicatessen Perini, Anderson anunciou o assalto ao coletivo, segundo a polícia. Ele é suspeito de ter cometido a ação, que resultou em três baleados – inclusive o próprio Anderson, baleado de raspão em um dos braços. O motorista do coletivo, que não teve a identidade divulgada, também foi ferido de raspão na cabeça.  

Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO
Já o passageiro ferido é Gilberto Silva de Queirós, 56. Ele foi baleado na região da mandíbula e encaminhado ao Hospital Geral do Estado (HGE). De acordo com a assessoria da Secretaria da Segurança Pública do Estado (SSP-BA), o quadro de saúde de Gilberto é estável, mas ele continuava em observação até o final da manhã.

“Não suspeitei dele em momento nenhum”, contou, ao CORREIO, o cobrador do ônibus, sem se identificar, referindo-se a Anderson. De acordo com o cobrador e outras testemunhas, o suspeito estava armado. Ele também não se interessou por dinheiro: só queria saber dos celulares. Obrigou que os outros passageiros depositassem seus aparelhos em uma mochila que carregava.

“Aí, um passageiro reagiu. Acho que deu três tiros. Mas eu não vi quem foi, porque me abaixei”, admitiu o cobrador, que é rodoviário há 26 anos e já acumula tantas experiências de assalto a ônibus que não sabe mais dizer quantas vezes sofreu.

Um passageiro que estava na frente do ônibus foi um dos que teve que entregar o celular. Ele conta que o passageiro que foi baleado caiu ao seu lado. No entanto, também diz que não viu quem teria sido o passageiro que reagiu à situação. “Quando você ouve o primeiro tiro, quem vai ficar olhando? E quando você vê o motorista baleado, você só consegue pensar no pai de família ali. Na hora, você nem tem medo, porque a adrenalina sobe. Agora que abaixou”.

Anderson ainda foi perseguido por alguns passageiros, mas foi capturado pela Polícia Militar quando tentava fugir. Uma guarnição da 13ª Companhia Independente (Pituba) passava pela região naquele momento.

Figura recorrente

Segundo a SSP, Anderson acumula cinco passagens pelo Grupo Especial de Repressão a Roubos em Coletivos (Gerrc) por roubos a ônibus – a última ainda em 2017. Ao CORREIO, Anderson admitiu o assalto, mas disse que estava desarmado. "Não fui eu que atirei, não. Pode pegar a câmera do celular aí e ver, que eu tava desarmado, só fiz dar a voz. Foi um passageiro dentro do buzu que atirou. Não sei se era polícia, mas atirou três vezes e baleou dois inocentes", afirmou.
Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO
Porém, testemunhas negam que ele estivesse desarmado – pelo contrário. É o caso do cobrador e de um vigilante que trabalha em um centro empresarial na Orla da Pituba e que presenciou a fuga de Anderson. Sob sigilo, o vigilante conta que escutou, primeiro, três tiros vindo do ônibus, depois que o coletivo já tinha passado da altura da Perini. Já nas proximidades da Rua Piauí, o veículo teria encostado às margens do calçadão da Orla e parado.

“As pessoas gritavam ‘pega ladrão’, o cobrador desceu para pedir ‘socorro’, enquanto o motorista estava dentro do ônibus, baleado. Ele saiu correndo para os lados da Perini, com a arma na cintura. Lá na frente, um rapaz conhecido disse que viu quando ele dispensou a arma na rua. Fiquei com medo de ele vir para cá. De manhã cedo, o cara faz isso com o povo trabalhador. Parece que já acordou com o demônio no corpo”, desabafou.

Mais assaltos
E esse nem foi o único atentado a ônibus na manhã desta quinta-feira. Por volta das 9h, outro coletivo foi assaltado no Uruguai. O veículo, que fazia a linha Estação Pirajá-Ribeira, contava com cerca de 15 passageiros, quando dois assaltantes entraram. Diferentemente de Anderson, os dois já anunciaram o roubo, segundo o motorista do coletivo.

“Eles já entraram falando ‘bora, desgraça’. Um deles puxou a pistola e já levou o dinheiro do caixa. Levou o celular de todo mundo. Depois, fugiram. Tudo durou cinco minutos”, relatou o rodoviário. No caixa do ônibus, tinha cerca de R$ 120.

O diretor do Sindicato dos Rodoviários, Edson Gomes de Sousa, lamentou a frequência com a qual os assaltos a ônibus têm acontecido. “O sindicato está batendo na tecla que tem que voltar a existir comitê de segurança (de transporte) para que comece a atuar de forma que os bandidos que são presos não sejam liberados com tanta facilidade com a tal audiência de custódia. É o caso desse da Pituba e de muitos outros”.

Em nota divulgada pela SSP, o comandante da Operação Gêmeos, o major Gabriel Neto, afirmou que as blitze em coletivos foram ampliadas e que há uma alta reincidência de assaltantes de ônibus. "Aumentamos muito o nosso volume de prisões, mas percebemos uma reincidência em torno de 70%. Precisamos discutir o endurecimento das leis para este tipo de crime, que afeta as pessoas mais pobres, em sua maioria". Os casos serão investigados pelo Gerrc.

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