Música

'Meus fãs baianos são uns dos melhores', diz Maria Rita

Em entrevista, artista fala de música, religião, maternidade e Salvador; cantora se apresenta neste domingo (22), na Concha Acústica

Carolina Dourado* (carolina.dourado@redebahia.com.br)
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Dona de uma presença de palco marcante, Maria Rita não passa despercebida. Aos 40 anos, ela lança o álbum 'Amor e Música', que mistura samba e personalidade.  Segundo a artista, esse novo projeto veio no momento certo e confirmou algo que ela nunca escondeu: "sei que no samba é onde me sinto mais plena, completa e relevante enquanto cantora", declarou. 

Ela se apresenta na Concha Acústica, neste domingo (22), a partir das 19h, e traz alguns dos seus maiores sucessos, tais como “Bola pra Frente”, “O Homem Falou” e “Tá Perdoado”. No repertório do seu oitavo cd, Maria Rita conta com a participação de amigos na discografia, como Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Marcelo Camelo, Carlinhos Brown, Moraes Moreira, Davi Moraes, Pretinho da Serrinha, por exemplo. "Essa turma é amiga, são os que convivem na minha casa, estamos sempre juntos, então isso deixou tudo muito fácil", ressaltou. 


Foto: Reprodução/ Instagram

Em entrevista ao iBahia, a artista contou sobre suas influências musicais, religiosidade, maternidade, Elis Regina, carreira e ainda falou um pouco sobre a Bahia e seus fãs baianos. Questionada sobre o que ela deseja passar com 'Amor e Música', Maria comentou que esse álbum é caracterizado por ter seu sentido nas entrelinhas: "tem gente que vai ouvir e sair do show questionando e tem gente que vai só curtir e esquecer os problemas". Confira a entrevista na íntegra: 

iBahia: Podemos dizer que o álbum 'Amor e Música' é um encontro definitivo com o samba?
Matia Rita: Na verdade meu encontro com o samba vem desde “Samba Meu” em 2007, e depois dele veio em 2013 “Coração a Batucar” que também era um disco de samba exclusivamente. A paixão já foi solidificada, e o encontro é sempre muito prazeroso. O que não está definitivo é o meu entender de que sou sambista. Isso é que vem aos poucos, mas sei que no samba é onde me sinto mais plena, completa e relevante enquanto cantora. O “Amor e Música” vem disso, e é uma das provas.

iB: O álbum tem uma ficha técnica formada por profissionais de primeiro time. Como foi agregar o talento de tantas pessoas distintas nesse trabalho?

MR: Eu concordo que só tem gente de primeiro time, selo de qualidade para a minha própria pessoa. E uma vantagem de ir amadurecendo, 40 anos e 15 de estrada, é que eu sinto que não preciso mais provar nada para mim mesma. Essa turma é amiga, são os que convivem na minha casa, estamos sempre juntos, então isso deixou tudo muito fácil. Por eu ter um ouvido bem exigente, eu sei muito bem o que eu quero, sei que a concepção do trabalho sai a partir de mim, eu sou a produtora do meu próprio disco. Então é fácil apontar o que me incomoda e sei o músico que vai fazer como eu acho que soa legal, sei quem vai fazer a leitura que eu gosto. Eu gosto muito de produzir e esse talvez seja um caminho para o futuro, produzir disco de outros cantores. Só de ficar na cabine passando a base, fazendo voz guia me sinto muito solida na carreira e sei que tem muito a ser aprendido. Muito arroz e feijão para comer ainda. 

Foto: Reprodução/ Facebook
iB: Além do samba, quais outros gêneros musicais têm influenciado a criação do seu trabalho?

MR: Sem sombra de dúvidas o jazz é uma coisa muito forte para mim, quando fui gravar o “Samba Meu” em 2007, o J. Moraes foi o arranjador do disco inteiro, e um dia numa gravação a gente tava conversando e ele me perguntou se eu me sentia bem cantando samba, porque eu cresci ouvindo jazz e ele é primo do samba. Na hora eu não entendi muito daquilo, mas depois vim a entender, quando fiz um show corporativo com músicas da Ella Fitzgerald e ouvindo aquilo tudo percebi como era parecido. O cantar limpo do Jazz sempre esteve na minha memória e quando morei nos EUA ouvia muito hip hop e R&B. Já na juventude, Lulu Santos, Paralamas do Sucesso e Rita Lee comandavam a minha vida. Enfim, muitos gêneros.


iB: Já vimos em entrevistas que desde os 14 anos você tem o sonho de cantar, mas começou a fazer isso dez anos depois, período em que se aproximou da obra da sua mãe. Como foi o reencontro com o trabalho de Elis Regina?

MR: Eu sinto que fazer o Projeto Redescobrir mexeu muito com a minha forma de cantar, de timbre, de uso de vibrato, de entendimento do instrumento e até onde eu posso ir.  Isso veio especialmente depois que eu cantei o repertório da minha mãe. Ali o jogo virou tremendamente. Eu acho que eu tinha uma pureza e ingenuidade, que hoje eu já não tenho tanto assim. Tinha certas músicas que eu chorava. Não tinha jeito, eu chorava, mas hoje eu tenho algum controle sobre isso. Não que isso seja positivo ou negativo. Eu sinto uma maturidade em cima do palco diferente do que eu sentia há 15 anos. Mas o que permanece igual é essa entrega irrestrita, cantar com tudo o que eu tenho. Sinto uma força em cima do palco que não sinto fora dele e acho que isso veio de útero.




iB: Há uma presença marcante da religiosidade em algumas das suas músicas, principalmente no novo disco. Qual papel da religião em sua vida e no seu processo criativo?

MR: Eu sou muito instável em relação à fé. Desde criança eu já tinha questionamentos que não eram normais de uma criança. Eu não entendia Deus, não entendia como ele tirava uma mãe de um filho de quatro anos de idade, e esses questionamentos me deixaram endurecida. Nada era maior do que meus esforços e da minha dedicação, mas fui amadurecendo e entendendo que nem tudo na vida é ciência, existe o inexplicável, algo muito maior do que a gente. Então eu digo que sou espiritualizada. Embora eu entenda a existência de uma força maior, eu ainda oscilo e caio nas cobranças de mim mesma. E essas músicas que estão no disco, eu gravei porque tinham mensagens que eu mesma precisava ouvir, eu cantando para mim. Elas me deixam emocionada, porque são forças que me procuram e eu não tenho como ignorar.

iB: Qual a mensagem que você deseja passar para as pessoas com as letras de suas músicas?

MR: Mensagens boas de fé, esperança e alegria. E nesse álbum novo tem mensagens ainda mais fortes, como se fosse um grito que está entalado na garganta de muita gente. Não são mensagens necessariamente políticas, porque eu não fiz um disco com esse viés, mas há um viés de resistência que fala sobre esses tempos estranhos que estamos vivendo. Eu como uma boa virginiana me coloco nos detalhes e esse álbum tem muito detalhe nas entrelinhas, como eu brinco é um show de entrelinhas. Tem gente que vai ouvir e sair do show questionando e tem gente que vai só curtir e esquecer os problemas.

 

Foto: Reprodução/ Instagram

iB: Não é a primeira vez que você visita a capital baiana. Das outras vezes que esteve aqui quais foram os locais que você gostou de conhecer e quais locais você indicaria alguém para explorar?

MR: Veja bem, eu chego ao aeroporto e já quero comer o acarajé de lá, então não sei te dizer onde eu fui e onde gosto de ir. Eu gosto de tudo, da comida, da bagunça, das pessoas, já estou com saudades e chorando porque vou ficar pouco tempo. Fico brava que não posso viver mais experiências em Salvador, minha vida é sofrida porque queria ficar um mês e meio aí, admirando cada cantinho. Um lugar que não fui é a Casa de Jorge Amado, onde quero muito ir mas ainda não consegui, ou porque já estava fechando ou não abria nos dias em que eu estava pela cidade. Tem também o carnaval da Bahia que eu ainda não fui. Já fui em alguns ensaios do Filhos de Gandhi e Olodum, mas viver lá mesmo na rua, não. Então não vou dar nomes, mas gosto de tudo. Para mim, todas as experiências são válidas.

 
iB: Como você classifica o público e os seus fãs baianos e o que eles podem esperar da Maria no palco domingo?

MR: Meus fãs baianos são uns dos melhores. O que me fascina em Salvador é a força da musicalidade em cada um. Eu reparo nisso em qualquer show que eu apresentado aí. E “Amor e Música”, por ter uma presença de baianos ou descendentes, como o Davi, está me gerando um ansiedade maior, porque tem um babado com as músicas e os Orixás e as forças que me procuraram. Essas informações vão estar no cenário e na luz, enfim, eu estou numa expectativa diferente. Mas nesse show especificamente o público vai ver uma presença minha de respeito e admiração com a cultura que eu não tinha tido ainda a oportunidade de mostrar, e isso vai ser uma coisa muito bonita e emocionante de se ver. 

iB: E por fim, como é sua relação com o trabalho e a maternidade?

MR: Eu amo ser mãe, amo meus filhos, é o maior privilégio poder vê-los evoluindo bem na minha frente. Mas depois de alguns anos que eu já tinha tido o Antonio, eu percebi que não estar nos palcos não me fazia uma mãe legal, era perceptível para todo mundo à minha volta que eu não estava tão bem. A música tem um papel fundamental na minha vida e eu preciso dela constantemente, então eu reconheço que sem a minha arte, sem meu palco e sem cantar, até ser mãe perde o sentido.



*Sob supervisão do editor-chefe Rafael Sena.