Salvador

Publicada em 09/03/2013 às 11h10. Atualizada em 09/03/2013 às 11h10

Mortos em Valéria faziam parte de um bando envolvido com o tráfico de drogas em Mata de São João


No local onde os corpos estavam, todas as características indicavam que as vítimas haviam sido mortas em outro ponto


Anderson Sotero
(anderson.sotero@redebahia.com.br)
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No chão de terra da Estrada Velha de Valéria, um corpo amanheceu, ontem, coberto por uma lona. A menos de 10 metros, outros quatro estavam amontoados e cobertos com sacos de aniagem. Os corpos tinham membros quebrados e queimaduras. Todos estavam com as mãos amarradas e tinham, cada um, cerca de 20 perfurações de bala.

“Aqui é conhecido como rua da desova. É costume ter corpo aqui. Já encontrei uma mão cortada. Mas acordar e ver cinco corpos foi horrível”, disse o operador de máquinas Rafael Muniz, 25.

Os cinco corpos foram deixados na Estrada Velha de Valéria, com sinais de tortura. Quatro vítimas estavam amontoadas e cobertas por saco



As vítimas da chacina são Tiago Batista dos Santos, Deilton Silva Santos, 28 anos, Jéssica Maísa dos Santos Figueiredo, 16, Josélia Nascimentos dos Santos, 17, e uma mulher identificada apenas pelo prenome de Larissa.

De acordo com a polícia, todos faziam parte de um bando envolvido com o tráfico de drogas em Mata de São João, na Região Metropolitana de Salvador.

No local onde os corpos estavam, todas as características indicavam que as vítimas haviam sido mortas em outro ponto. “Não tem cápsula de balas aqui e não há muito sangue. Foram trazidos para cá”, observou o tenente Jailton Pereira, da 31ª Companhia Independente da PM (Valéria).  

De acordo com peritos do Departamento de Polícia Técnica, que chegaram ao local por volta das 9h, a rigidez dos corpos indicava que as mortes ocorreram por volta das 2h.

Investigação
No final da tarde de ontem, investigadores localizaram dois barracos na Lagoa da Paixão - perto de onde estavam os corpos - com marcas de sangue no chão, cartuchos de munição, cordas, lonas e sacos semelhantes aos materiais encontrados junto às vítimas.

A suspeita é que os cinco tenham sido torturados e mortos nestes barracos. Um suspeito de envolvimento na chacina foi detido e levado para a Delegacia de Homicídios Múltiplos (DHM). Seu nome não foi revelado.

De acordo com informações da polícia, em Mata de São João as vítimas faziam parte da Quadrilha do Cemitério, liderada por Tiago, o Negão.  
“Uma parente de Tiago disse que eles tinham fugido de Mata de São João porque tinham sido ameaçados e estavam em algum lugar de Salvador que ela não sabia”, contou o oficial da 31ª CIPM. No sutiã de uma das mulheres foi encontrado um papelote contendo um pó branco que a polícia suspeita ser cocaína.

“Antes de serem mortos, as vítimas foram torturadas com crueldade”, afirmou o delegado Antônio Cláudio Oliveira, que esteve no local onde estavam os corpos.
Policiais da Delegacia de Mata de São João confirmaram que o grupo era da cidade e que Tiago tinha mandado de prisão em aberto por tráfico de drogas e homicídios.

“Era uma quadrilha muito violenta. Eles traficavam, assaltavam e faziam sequestros relâmpagos. A maioria dos homicídios em Mata de São João foi cometida pela quadrilha”, disse um agente, pedindo anonimato.

Rivalidade
Segundo o mesmo agente, o bando de Tiago era rival de uma facção liderada por Val, o Montanha. Os dois já fizeram parte da mesma quadrilha, comandada por Minhoca, que foi preso em 2010, quando começou a rixa entre os sucessores.

“Tiago rompeu e montou o grupo dele e passou a concorrer com Val. Mas, apesar de estar preso, Minhoca queria que Val eliminasse Tiago para voltar a ter um único grupo traficando”, complementou o policial.

“Tiago tinha mais de 20 homicídios. A gente nunca conseguiu prender ele. Quando a gente apertava, ele fugia para Dias D'Ávila, Camaçari e Salvador, mas a gente não sabia a localização exata dele”, contou o major Sérgio Murilo, comandante da 53ª  CIPM, em Mata de São João.

O major disse ainda que Deilton, que já tinha passagem  pela polícia por tráfico de drogas, morava no bairro Caboré, área de influência de Tiago. “Há 15 dias,  fizemos uma apreensão na boca de fumo do Caboré e encontramos um colete da Nordeste Segurança”, lembrou.

“Tiago conhecia bem a região. A caçada era difícil por causa da região de muitas serras. O acesso é muito difícil, íngreme. Ele era filho da terra e conseguia fugir na zona rural”, emendou o major.

Parentes das vítimas estiveram na tarde de ontem no Instituto Médico-Legal (IML). Sem se identificar, um familiar de Josélia confirmou que ela tinha envolvimento com a quadrilha. “Ela entrou nesse mundo tem um ano. Eu dava muitos conselhos pra ela se afastar”, revelou.

A adolescente estava em Salvador desde segunda-feira. “Ela veio de aventura. Ficava muito à vontade com esse povo. Na terça, chegou a voltar para Mata, não sei por qual motivo, mas veio no mesmo dia para Salvador”.

“Ontem, me chamaram para ir para a escola, mas eu não quis. Disse que ia para a igreja, porque estava sentindo uma coisa no coração. Acho que era Deus querendo me preparar”, desabafou a mãe de Josélia.

Já o tio de Jéssica, Jorge dos Santos, não soube dizer se a sobrinha tinha envolvimento com o tráfico. “Não sei, isso ainda está para se confirmar. Sei que ela estava com uma série de problemas em Mata de São João, mas não sei o motivo”, concluiu. Colaborou Thais Borges

Líder do bando era conhecido pela violência
Entre as cidades da Região Metropolitana de Salvador, Mata de São João aparece na 4ª posição em número de homicídios em 2013, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública. Era lá que as cinco vítimas atuavam no tráfico de drogas, segundo a polícia.

O município está atrás de Camaçari (34), Lauro de Freitas (21) e Simões Filho (17). A maior parte das mortes é resultado da rivalidade entre traficantes. “O grupo de Tiago intimidava e ameaçava a população. Ele era muito violento e uma vez mandou decepar a cabeça de um rapaz”, disse o major Sérgio Murilo, comandante da 53ª CIPM.

Segundo o major, a quadrilha rival, liderada por Val, o Montanha, atua no entroncamento da cidade. “Várias vezes a gente interviu para evitar tiroteio. O que separa os grupos é a rua principal de Mata de São João”, emendou.

Para o major, com a morte de Tiago, podem ocorrer novos conflitos. “Val vai querer tomar a rua do Cemitério ou alguém do grupo de Tiago deve assumir”, avaliou. O titular da Delegacia de Mata de São João, Giovanni Nascimento, foi procurado, mas, na tarde de ontem, ele não estava na unidade.

Matéria original: Correio 24h
Mortos em Valéria faziam parte de um bando envolvido com o tráfico de drogas em Mata de São João





Tags: Valéria, Mortos, Tráfico de drogas, Mata de São João
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