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Nosso jeito Sucupira de ser

No Brasil é assim. Trabalhar com carteira assinada é trabalho infantil

Emmerson José (Twitter: @emmersonjose)
- Atualizada em

Não pensei que iríamos abrir 2017 com uma estúpida frase como a que segue: 'Espero que algum dia a gente não tenha mais ensino noturno'. Isso foi dito pelo atual ministro da Educação Mendonça Filho, se referindo à possibilidade de que jovens finalizem o ensino médio antes dos 17 anos e não tenham que ir ao mercado de trabalho durante o dia. Como se não vivêssemos em um país onde cada real arrecadado por uma família, se torna comida na mesa. Onde cada membro da casa precisa ajudar e fortalecer o 'pão deles', nosso de cada dia.

Lembrei do dia em que pisei na financeira Fininvest quando eu tinha 16 anos. Naquela época, engravatados não vociferavam besteiras. Davam empregos. Encontrei José Roberto, gerente da Fininvest da Av. Augusto de Lima, 150, centro de Belo Horizonte. Pedi emprego, pois eu precisava. Ele me empregou. Valeu, Zé! Virei office-boy da financeira e isso me ajudou muito. Assim como à minha família.

Nunca encarei isso como trabalho infantil, como um outro deslumbrado --- que deve ter estudado muito --- afirmava quando mandava e desmandava nesse país. Tem até Lei, acredite. E inclui 'fundições em geral’, área onde prestei serviços aos quinze. E sem carteira assinada! Me colocariam no paredão hoje? Bala nesse cara que trabalhou antes dos 16 anos? Será? Putz. Pulei uma fogueira. Eu e um amigo de infância, Rodrigo. Ele também foi um criminoso. Era boy da Enciclopédia Britânica e dividíamos BH nas tarefas em bancos. Um ano mais velho, mas era menor. Cada um assumia um lado da cidade. E nosso tema rolando nas rádios: 'Boy, eu sou boy', do grupo Magazine ... Coitado do Kid Vinil. Se fosse hoje, teria a música censurada.

Ah, o pulo da fogueira... Fogueira dos canalhas que comandam as nossas vidas há décadas. Fogueira daqueles que se locupletam em outras artimanhas e que não precisam de filhos, netos e toda uma geração encarar o trabalho. O dinheiro é farto para alguns engravatados. Ao contrário pra mim na época. Pegar às 8h, sair às 18h e encarar uma escola pública às 19h, me mostrou que eu era um cidadão.

Bons e velhos tempos. Tempos em que trabalhar era digno pra qualquer um acima dos 15 anos. Claro, se conjugado com estudos. Mas essa declaração é só um sinal, amigos. Sinal de que entra partido, sai partido (são mais de 30 partidos oficiais nessa republiqueta) e o pensamento de quem comanda é o mesmo: TEMOS DE FORMAR UM GADO NOVO. GENTE SEM EDUCAÇÃO PARA QUE POSSAMOS MANIPULAR. Simples, assim. Cheguem mais analfabetos. Chegue mais tráfico e leve nossos menores. Afinal, eles não podem trabalhar honestamente. No Brasil é assim. Trabalhar com carteira assinada é trabalho infantil. Mas se for para o tráfico, tudo bem. O errado é que o certo mesmo.

Feliz 2017!

 Emmerson José

@emmersonjose