Música

Novo clipe de MC Loma gera debate sobre estereótipos asiáticos

'Passinho do japonês' sofreu críticas nas redes sociais; militância asiática pondera

Agência O Globo

Depois de explodir com o hit "Envolvimento", a pernambucana MC Loma se envolveu numa controvérsia nas redes sociais com o clipe de "Passinho do japonês", lançado na semana passada. No vídeo, ela e as Gêmeas Lacração, suas companheiras de grupo, aparecem de qipao (vestido asiático), dançam com o cumprimento japonês e rimam "arigatô" com "popô".

O clipe não agradou parte da comunidade asiático-brasileira, que tem crescido em militância nos últimos anos. No Facebook, celeiro de muitas tretas, a produção foi chamada de "ofensiva" por usuários de origem oriental, principalmente por conta do "slanting", a prática de ocidentais de puxar os olhos com as mãos. Alguns dos comentários comparavam o gesto ao "blackface", o rosto pintado de preto que virou símbolo da discriminação aos negros nos Estados Unidos.

Veja clipe:

Desde o lançamento de "Passinho do japonês", os "reaction videos" se multiplicaram no YouTube, em canais como "Os gaias", de descendentes de japoneses, e até o rei dos influencers Felipe Neto meteu o bedelho. Nos comentários, surgiram protestos de brasileiros de origem asiática: "No meu ponto de vista foram 2 minutos e 45 segundos de racismo, e ignorância.... O tempo todo que ela desperdiçou a gravar esse vídeo deveria ter sido usado para um melhor propósito, como aprender sobre a cultura japonesa", escreveu Bruna Sousa.

No ano passado, o apresentador Raul Gil se meteu em uma polêmica parecida ao receber o grupo sul-coreano K.A.R.D. no programa "Turma do vovô Raul". Em clima de troça, ele perguntou se os integrantes eram todos parentes e fez o gesto de puxar os olhos. Diante da repercussão, a direção da atração pediu desculpas. Outra grita envolveu a escalação de Luís Melo como pai de família japonês na novela "Sol nascente", há dois anos.

SUSHIS, CUMPRIMENTO E PASSINHO

Gravado em um restaurante japonês de São Paulo, o clipe de MC Loma começa com a cantora falando ao celular com Mariely e Mirella Santos, as Gêmeas Lacração, que, vestidas com qipaos, beliscam sushis de uma cozinha. Depois, todas servem barcos de combinados e saem dançando pelas ruas. Elas ensinam o tal passinho, com o cumprimento japonês de palmas da mãos juntas. No vídeo, que já tem quase 8 milhões de visualizações, também aparecem vários atores de origem asiática.

Loma, cujo nome real é Paloma Roberta Silva Santos, estourou do dia para a noite com "Envolvimento", com gírias hilárias das periferias pernambucanas e a frase "escama só de peixe", que viralizou. O clipe da música, produzido pelo KondZilla, tem, até agora, 126 milhões de visualizações. A faixa chegou a desbancar "Vai malandra", de Anitta, e foi uma das mais ouvidas do carnaval 2018.

MILITANTE EM DEFESA DA CANTORA

Apesar das acusações de racismo, a reação da militância foi ponderada para os padrões facebookianos. A página "Perigo Amarelo", uma das principais do ativismo asiático, lembrou da origem humilde da cantora, nascida em uma família pobre de Jaboatão dos Guararapes: "Uma luta não anula a outra, eu sei, mas falar de relações raciais no brasil sem abarcar negritude, classe e colonização é pura e simples desonestidade", publicou em um post, assinado por Kemi, uma das idealizadoras da comunidade.

— Claro, teve o slanting, o uso do qipao (que é uma vestimenta chinesa, não japonesa), palavras estereotipadas tipo "arigato" e afins. Mas, fora isso, a narrativa era mais sobre o rolê da Loma com suas amigas que trabalhavam num restaurante japonês... Elas também negras, de periferia, que é um perfil que a gente de fato encontra trabalhando como garçonetes nesses estabelecimentos — contemporiza Ing Lee, administradora da página, de ascendência norte-coreana.

Para ela, as questões raciais do clipe devem ser dirigidas aos produtores e não à funkeira, que tem só 15 anos.

— É complicado apontar racismo antiasiático vindo de pessoas negras, porque asiáticos são justamente a minoria modelo, com outro contexto de privilégio e recorte de opressão (mais baseada na xenofobia do que um histórico escravagista, colonial e de extermínio) — diz.