Cinema

Oscar acontece neste domingo com o desafio de como abordar a questão do assédio

Piadas envolvendo a gafe do envelope do ano passado estão previstas

Fabiano Ristow, da Agência O Globo

Lembra quando o Oscar era apenas uma divertida cerimônia de premiação em que você torcia pelos seus filmes favoritos, julgava vestidos no tapete vermelho e terminava a noite discutindo as surpresas e injustiças? Ainda é possível fazer tudo isso, mas as coisas mudaram muito nos últimos anos. Quando as primeiras celebridades chegarem hoje ao Teatro Dolby, em Los Angeles, para a maior festa do cinema americano, espere mais perguntas e respostas sobre assédio sexual no tapete vermelho, discursos engajados e protestos. Afinal, essa é a 90º edição do Oscar — a primeira em tempos de #MeToo e #TimesUp.

Foto: Reprodução
Foi assim no Globo de Ouro e Bafta, em que os convidados vestiram preto em solidariedade às vítimas de abuso sexual. Não há um protesto semelhante confirmado para a noite de hoje, mas os presentes dificilmente vão deixar a questão passar em branco. E a Academia sabe disso.

O comediante Jimmy Kimmel, mestre de cerimônias, já confirmou que os movimentos antiassédio serão parte essencial da noite, mas não a principal. Mas a verdade é que ninguém sabe o que será dito no palco. Entre as personalidades convidadas para entregar os troféus está ninguém menos que Ashley Judd, uma das atrizes mais famosas que vieram a público com denúncias contra Harvey Weinstein. A lista de apresentadores divulgada até agora, aliás, evidencia a preocupação com diversidade — outra tema caro ao evento, desde as críticas ao #OscarsSoWhite —, com equilíbrio entre mulheres e negros.

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Será interessante ver como o apresentador Ryan Seacrest vai se sair nas entrevistas no tapete vermelho, transmitidas pelo canal E!. Ele é acusado de assédio por sua estilista pessoal (ele nega), mas foi mantido no cargo. Será que celebridades vão falar com ele normalmente? Veremos alfinetadas ao vivo? Jennifer Lawrence afirmou à imprensa que pode boicotar o moço.

Como se o elefante na sala já não fosse grande o suficiente, uma estátua dourada de Harvey Weinstein, de pernas abertas e vestindo apenas um roupão, foi instalada na Hollywood Boulevard na última quinta-feira, para lembrar aos transeuntes do lado sombrio da indústria. Intitulada "Teste do sofá", a obra é de autoria dos artistas de rua Plastic Jesus e Joshua "Ginger" Monroe, este responsável também pelas famosas estátuas de Donald Trump nu.

Polêmicas à parte, o Oscar ainda é uma premiação de cinema, e desta vez a corrida é uma das mais acirradas dos últimos anos. Os dois principais competidores são a fantasia "A forma da água" (premiada no Sindicato dos Diretores e dos Produtores e no Critics Choice) e a dramédia "Três anúncios para um crime" (vencedora do SAG e Globo de Ouro de melhor filme dramático). Os dois fizeram bonito nessa temporada, mas viradas fazem parte do jogo. Há analistas dizendo que o suspense/terror/cômico/dramático "Corra!" pode se beneficiar da chamada "cédula preferencial", em que o votante, em vez de simplesmente votar em seu filme favorito, é obrigado a listar os concorrentes em ordem de preferência, atribuindo aos longas notas com pesos diferentes.

As categorias de ator e atriz coadjuvante também podem guardar surpresas. Sam Rockwell ("Três anúncios para um crime") parece ser unanimidade depois das vitórias no Globo de Ouro e no SAG. Mas Willem Dafoe ("Projeto Flórida") foi mais aclamado entre os críticos, e tem a simpatia da Academia em sua terceira indicação desde "Platoon" (1986). Da mesma forma, sites de apostas dão como certa a vitória de Allison Janney ("Eu, Tonya"), mas Laurie Metcalf, no papel de uma outra mãe em "Lady Bird", e que acumulou mais elogios da crítica, está urubuzando a estatueta.

Com tanta coisa prevista para acontecer na noite de hoje, a ideia é evitar imprevistos como a épica gafe da última edição, em que uma confusão na entrega de envelopes deu o Oscar de melhor filme a "La la land", só para o erro ser corrigido dois minutos depois, quando a equipe do musical já discursava no palco ("Moonlight" foi o verdadeiro vencedor).

A PricewaterhouseCoopers (PwC), empresa de auditoria responsável por contabilizar os votos e entregar os envelopes aos apresentadores em cada categoria, foi mantida no cargo. Mas os procedimentos mudaram. Para começo de conversa, o dois auditores da PwC que estavam presentes no fatídico dia, Brian Cullinan e Martha Ruiz, foram aubstituídos. Um terceiro vai supervisionar tudo na sala de controle, coladinho com o diretor da cerimônia.

O uso de celular por esses funcionários também foi banido. Acredite ou não, descobriu-se que Brian Cullinan estava atrás do palco distraído, postando fotos da atriz Emma Stone no Twitter, momentos antes de entregar o envelope errado aos apresentadores Warren Beatty e Faye Dunaway.

A dupla, aliás, foi novamente convidada para apresentar (e se redimir) o Oscar de melhor filme. Fontes disseram ao "TMZ" que Beatty e Faye farão referências cômicas à gafe que protagonizaram ano passado. "E o vencedor é... 'E o vento levou!'", disseram durante o ensaio, segundo o site.

Mesmo com medidas de segurança, o Oscar se mostrou nas edições recentes um evento em que tudo é possível. Ingredientes para uma cerimônia explosiva não faltam.