Salvador

'Mesmo vendo o corpo, a ficha não cai', diz parente de professora morta em acidente

Família de Geovanna quer 'abraçar' mototaxista que a conduzia na hora do atropelo

Milena Teixeira, do Correio 24 Horas (milena.teixeira@redebahia.com.br)
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O corpo da professora Geovanna Alves Lemos, 41 anos, morta durante um acidente de trânsito, no bairro da Pituba, foi enterrado no Cemitério Campo Santo, na Federação, na tarde desta sexta-feira (16). Familiares, amigos, alunos e colegas de profissão da professora de balé lotaram a cerimônia para prestar as últimas homenagens à vítima de uma colisão na Avenida ACM – a motocicleta em que ela estava foi atingida pelo carro da médica Rute Nunes Oliveira Queiroz, 49.

Gigi, como era conhecida, era filha única e morava com a mãe, uma idosa de 73 anos, na Barra. Ela era de Ilhéus, no Sul do estado, e veio para a capital quando ainda era pequena. A vítima era formada em Dança pela Ebateca e pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), e atualmente cursava os últimos períodos da graduação de Pedagogia.

Foto: Betto Jr./Correio

“Foi chocante. Estamos em estado de choque até agora. Mesmo vendo o corpo, a ficha não cai”, afirmou Fabíola Dimpino, uma das primas de Geovanna, durante o velório. Ela chegou a dizer que o acidente foi uma fatalidade para Geovanna e para Luciano Lopes, que pilotava a moto. “Acho que o que aconteceu em relação a ele e a ela foi uma fatalidade. Ele [mototaxista] era muito cuidadoso e tem toda a confiança da família. Queremos abraçá-lo”, comentou.

A familiar disse que não tinha muitas informações do acidente e que, agora, todos estavam preocupados com a situação da mãe de Geovanna, conhecidada como Vidinha, que foi ao velório, mas não conseguiu ficar no enterro. “A minha tia está passando muito mal. Nós queremos justiça. Queremos apurar o que aconteceu. Geovanna era uma filha, é prima, irmã e professora. Ela teve uma vida. Não é qualquer pessoa. E a gente vai em busca de justiça por ela", completou. Segundo Fabíola, Luciano prestava serviços à vítima há mais de um ano. A defesa da médica Rute Queiroz ainda não procurou a família. 

Paixão por ensinar
Uma dos traços mais fortes da personalidade de Geovanna era o gosto por ensinar. A pró percebeu que tinha tanto talento para a função que começou a cursar Pedagogia. Com a rotina agitada, ela dava aulas de balé na Ebateca, em Brotas, era auxiliar de classe no Sartre da COC da Pituba e, além disso, também ensinava em uma escola no Rio Vermelho. No ano passado, a vítima chegou a ensinar na Escola Gurilândia, na Federação. 

Durante a cerimônia, pais e alunos homenagearam a professora. Foi Geovanna quem ensinou a advogada Cristiana Costa a dançar, há 17 anos. A aluna fez questão de lembrar das aulas. “Eu cheguei sem saber dançar nada e ela que estimulou. Viramos amigas, confidentes. Fizemos viagens. Eu não consigo acreditar até agora no que aconteceu. Parece um pesadelo”, disse a amiga, emocionada.

Já Cristiane Dutheil, também ex-aluna de Gigi, conheceu a pró há 9 anos. Ela fazia aulas de dança do ventre com a vítima e só soube no acidente pelo celular. "Ela amava o que fazia. Tinha um jeito especial para estimular as alunas a continuar na dança", contou. 

Toda a rotina puxada, segundo as amigas, tinha um porquê. Ela queria comprar a própria casa e, além disso, contribuir com o orçamento da família. Diretora da Ebateca de Brotas, Lívia Pereira afirmou: "Ela corria o dia todo. Dava várias aulas. Geovanna estava em uma moto para trabalhar em vários lugares e compor o orçamento. Era alguém que corria contra o tempo". 

Entenda o caso
A médica Rute Queiroz trafegava sentido Rio Vermelho pela Avenida Antônio Carlos Magalhães, no Itaigara, próximo ao posto de combustíveis Namorados. Na mesma avenida, num mototáxi não regularizado, ia a professora de balé Geovanna Lemos na carona do motociclista Luciano Lopes. 

Na hora de fazer o retorno, o Sportage Kia conduzido por Rute colidiu com a motocicleta. A médica teria perdido o controle da direção e arrastado a moto até o canteiro e o veículo se chocou contra um bloco de concreto. Segundo testemunhas, ela teria ficado em choque e não conseguiu desligar o veículo ou responder a perguntas simples.