O MUNDO TODO LÊ

A hora da Leiturinha. Uma história real com jeitão de conto de fadas.

Renata Fernandes (renatafernandesautora@gmail.com)
- Atualizada em

Mesmo neste momento em que o país passa por uma crise econômica considerada uma das mais severas dos últimos anos, a Leiturinha, o maior clube de leitura para crianças do Brasil, cresceu praticamente 10 vezes em menos de 4 anos de existência. 

Sim, você leu exatamente isso: Um clube de leitura a todo vapor em um país considerado não leitor. (Informação comprovada, infelizmente, em pesquisas recentes que trouxemos aqui). 

Ficou impressionado? Eu também. Por isso fui conferir de perto esta história real com jeitão de conto de fadas.

De cara, alguns números já impressionam: O clube passou de 30 para 300 funcionários e de 9.000 assinantes no primeiro ano para incríveis 120.000 em julho deste ano, o que totaliza alguns milhões de livros entregues a crianças de todo o Brasil em menos de 4 anos. E para a minha alegria, Salvador está entre a 3 cidades com o maior número de assinantes, fica atrás somente de São Paulo e Rio de Janeiro. Um dado, no mínimo interessante, não acham?

A casa do início ficou pequena para todo este crescimento rápido e precisou se expandir para mais 2 unidades, lá mesmo em Poços de Caldas, Minas Gerais, onde a empresa nasceu. As unidades, claro, ganharam nomes lúdicos para combinar com o modelo de negócio que tem as nossas crianças como inspiração. Na unidade UNI ficam as equipes de curadoria, tecnologia, design e atendimento ao cliente (via telefone e redes sociais), a DUNI acolhe a equipe de logística e compras e a guarda com todo o carinho o estoque de milhares de livros que viajam para encontrar às crianças em todos os estados do Brasil, (são mais de 5.100 cidades). Além delas, existem mais 2 escritórios em São Paulo. (Não. Eles não chamam salamê e minguê, mas bem que poderiam, não acham?).

Ainda falando de números, já passam de 8.000 a quantidade de títulos que passaram pelo time da curadoria do clube (um time formado por pedagogas, psicólogas e especialistas da área de desenvolvimento infantil), são eles que escolhem o que consideram os melhores livros infantis que chegarão nas casas das 120.000 famílias assinantes da Leiturinha. Só no último ano foram mais de 276 variados títulos escolhidos por eles.

Mas a Leiturinha é muito mais que números, é  composta por pessoas e vocês vão saber como elas conseguem agradar um leque extenso de famílias, sem a perda dos critérios que consideram importantes na hora da escolha e também quais a principais dificuldades na defesa destas escolhas diante de famílias com expectativas tão díspares. Tudo isso sem deixar de atender, as não menos importantes, necessidades do negócio.

No início da nossa conversa, já deu para perceber que a preferência é por temas transversais e que possam abarcar o maior número de pessoas. Um tanto óbvio em se tratando de um negócio que precisa prosperar e tem uma base de 120.000 clientes. Mas deu para perceber também, que nem por isso são deixados de lado temas mais difíceis e que muitas vezes geram alguma polêmica que precisa ser administrada de forma preventiva. O medo, por exemplo, é um destes temas que sempre traz discussões e exige um trabalho prévio da equipe de curadoria.

"São desenvolvidos textos sobre o assunto embasando a escolha do livro que provavelmente vai gerar algum desconforto ou dúvida diante de algumas famílias". Esclarece Ana Clara, Jornalista e produtora de conteúdo.

E para quem acha que a curadoria está sozinha nesta missão, se engana, eles contam com a valiosa ajuda do time de atendimento ao cliente que, muitas vezes, identifica o problema ao ouvirem as queixas dos próprios assinantes e munidos dessas informações ajudam na direção inversa, a de fazer o cliente entender o porque da escolha do tema. Um verdadeiro trabalho em equipe, mas que nem sempre é suficiente para mostrar a importância da escolha e em situações específicas não é descartada a possibilidade de substituições dos livros enviados.

"Apesar de prezar pela diversidade, escolhendo temas amplos, o propósito maior da Leiturinha é promover momentos agradáveis em família em torno do livro, além de ajudar a criar o hábito da leitura dentro de casa desde muito cedo. Por isso, tomamos cuidado para que nossas escolhas não ofendam nenhuma religião e não toquem em nenhuma questão política, por exemplo. Não é nosso papel levantar bandeiras". Nos conta Cynthia Spaggiari, Coordenadora da Equipe de Curadoria.

Diz o ditado: “É nas dificuldades que encontramos as oportunidades”. E foi assim, na dificuldade de agradar todo mundo, mas tentando atender o interesse de muitas famílias que pediam temas mais específicos, que surgiu a ideia da criação de uma vitrine de produtos com diversas coleções, trazendo temas como filosofia, por exemplo, e dando espaço para os produtos licenciados que a Leiturinha não insere na sua assinatura mensal. (Ufa!)

 "Estes produtos ficam disponíveis, em uma vitrine no site da empresa, e podem ser adquiridos separadamente, inclusive por quem não é assinante do clube”. Expõe Ana Clara.

Uma sacada e tanto, porque parece funcionar muito bem de forma estratégica. Um verdadeiro termômetro para medir a aceitação de temas mais difíceis e como eles podem ser trabalhados de maneira mais acertiva. Mas como saber de fato se o livro agradou ou não? Com pesquisa, suponho. Mas dá para ter esta informação de todos os títulos enviados? Foi quase uma pergunta retórica, mas surpreendentemente ouvi um: ”Dá”. Resposta cheia de sorrisos da Gabriela Reis, Coordenadora de Comunicação, que continuou explicando:  

"Nós enviamos um questionário de satisfação para todos os assinantes onde eles atribuem a cada livro que recebeu, uma nota de zero a dez. Assim não temos dúvidas de quais livros agradaram mais e quais agradaram menos”. (Uau!)

Os livros que chegam para as crianças todo mês não chegam sozinhos. Eles vão acompanhados de um kit com atividades lúdicas e uma carta de orientação aos pais sobre como podem conduzir a leitura de forma divertida e aproveitando ao máximo o que este momento pode proporcionar junto aos seus filhos. Mas muitas famílias questionam se este kit não acaba virando a atração principal e a criança acaba esquecendo o livro, que era pra ser o protagonista da história.

“Tem a ver com a forma de recebimento deste kit por toda a família. Acreditamos que este é um momento para abrir junto, sentar junto, estar junto. A presença da família e a intenção que é colocada na hora deste recebimento é que vai garantir o protagonismo do livro. Queremos que a chegada do livro seja um acontecimento para todos em casa e não só para a criança. Os pais são os mediadores desta leitura, eles têm o papel principal na formação leitora de seus filhos, nós somos só mais uma ferramenta de incentivo que veio para unir ainda mais a família em torno do livro”. Defende Gabriela.

Fica claro neste momento que a própria embalagem foi pensada como se fosse um presente. O perfume, o lacinho, a cartinha e o cuidado em cada detalhe são propositais para que esta experiência em família seja percebida como um presente que chega para todos. Não só para a criança. 

Conversando sobre livros brinquedos, que muitos nem consideram como livro de verdade, Cynthia Spaggiari argumenta que no desenvolvimento da criança como leitora existe um caminho de transição e a Leiturinha aposta sim no livro brinquedo como um objeto de transição, por ser muitas vezes o primeiro contato da criança com alguma história. 

“Receber livros brinquedos não invalida, por parte dos pais, a leitura dos clássicos da literatura, inclusive quando eles ainda estão na barriga da mãe. O livro brinquedo não elimina a literatura para os bebês”.

Mas quando o assunto é a escolha do livro brinquedo ou do livro literário, a história fica ainda um pouco mais complicada, principalmente para a faixa de crianças abaixo de 2 anos. Pela experiência do clube, na maioria das famílias com crianças nesta faixa etária a preferência é mesmo por livros brinquedos. É ainda mais trabalhoso quando os pais com filhos na faixa de 4 e 5 anos, que já estão recebendo livros literários, preferem os livros brinquedos. Quando isso acontece a equipe tenta interferir com argumentos que mostrem a importância da evolução, com histórias mais elaboradas. Mas nem sempre conseguem reverter a situação e a solução é, muitas vezes, deixar como opção a troca de categoria para que a criança volte a receber os livros brinquedos.

 

"Temos a experiência de enviar alguns livros literários para esta faixa de crianças até 2 anos, mas os índices de reclamações aumentam consideravelmente. É um desafio de mercado que os livros brinquedos também tragam histórias mais elaboradas com início meio e fim. Por aqui, vamos batalhando para que estes livros não sejam simplesmente um bichinho de pelúcia.” Explica Cynthia.

As dificuldades para o time da Leiturinha não param por aí. Com o crescimento rápido do clube, a dificuldade em encontrar estoque nas editoras que suprissem a nova demanda dos assinantes se tornou um desafio e tanto. Foi preciso parar e entender quanto tempo seria preciso para que esta enorme quantidade de livros fossem produzidos e entregues em tempo. Precisaram compreender rapidamente como transformariam o novo problema em solução lucrativa. Lembrando que hoje já são quase 200 editoras parceiras. 

"Tivemos que rever o planejamento, principalmente dos livros brinquedos. A maioria deles são produzidos fora do Brasil e a previsão precisa ser feita com até 6 meses de antecedência para não dar problema. Mas isso trouxe também uma possibilidade bem interessante, a de criarmos parcerias com editoras que nos possibilitam fazer lançamentos exclusivos e tiragens exclusivas. Isso deixou o livro ainda mais especial para os nossos assinantes. Uma exclusividade que eles merecem”. Esclarece Cynthia

E como toda boa história que vira sucesso tem uma continuação, com a Leiturinha não é diferente. Depois do investimento da Movile, a gigante que desenvolve aplicativos, houve uma junção da Leiturinha com a PlayKids, a plataforma digital de conteúdos infantis da Movile, o que gerou o surgimento de um novo produto, a Playkids Explorer, que já conta com mais de 20.000 assinantes em seu primeiro ano. Uma forma de unir o mundo digital com o livro de papel criando um novo modo de diversão compartilhada. Uma maneira de aliar a magia do livro com a tecnologia tão presente hoje na vida dos pequenos. O PlayKids Explorer une a realidade aumentada dos cards com a personalização dos livros, onde as crianças viram personagens das histórias. O momento em família ganha kits novos com brincadeiras que unem livro e aplicativo em uma embalagem pensada especialmente para este produto interativo.

"A ideia é que a criança possa continuar usando a embalagem depois como uma maletinha brincante. Este produto é todo desenvolvido por nossas equipes que ficam em Campinas e em São Paulo, inclusive as histórias dos livros. Somente a parte operacional e de logística é a mesma da Leiturinha que fica em Poços de Caldas”. Nos conta Eziquiel Lyderis, coordenador de compras.

A minha torcida como escritora e principalmente como cidadã que almeja um país mais justo é que nossas crianças sejam, não só uma futura geração de leitores críticos, mas que também usem a leitura como instrumento de transformação social. Por que só em um país mais leitor as pessoas terão mais chances de escreverem suas próprias histórias. Com finais felizes, ou não.

Ficou com vontade de conhecer mais sobre a Leiturinha ou o PlayKids Explorer? Acesse www.leiturinha.com.br