Bahia

Marinheiros resistem em retomar travessia na Baía de Todos os Santos apesar de liberada

Barcos de passageiros só devem começar a sair na segunda-feira

Silvia Amorim, da Agência O Globo
- Atualizada em

A Capitania dos Portos em Salvador liberou neste sábado a travessia de barcos entre a capital e o povoado de Mar Grande, onde naufragou uma embarcação na quinta-feira deixando 18 mortos. Até o fim da manhã deste sábado, entretanto, nenhum barco partiu do atracadouro. Marinheiros do povoado disseram que somente vão retomar as atividades na próxima segunda-feira em solidariedade às vítimas da tragédia.

A travessia da Baía de Todos os Santos estava interrompida desde a manhã de quinta-feira, quando a embarcação "Cavalo Marinho 1", com 124 pessoas a bordo, virou em alto-mar a caminho de Salvador, por volta das 6h40, e matou 18 pessoas, a maioria moradores da Ilha de Itaparica, onde fica o vilarejo de Mar Grande. A travessia foi liberada porque as buscas por corpos do lado de Salvador foi encerrada.

Do lado de Mar Grande, o trabalho para encontrar desaparecidos continua neste sábado. Isso porque oficialmente duas famílias registraram ontem o desaparecimento de pessoas que embarcaram na Cavalo Marinho 1, mas até hoje não voltaram para casa. O primeiro caso é de um garoto de 11 anos, cujos pais morreram no naufrágio. Uma tia do adolescente procurou os bombeiros em Mar Grande para visar do sobrinho. A família era de Salvador, mas tinha parentes em Mar Grande. O outro caso é de um idoso conhecido como Salvador, de cerca de 60 anos. Um de seus filhos esteve ontem no povoado e declarou que o pai está desaparecido.

— Eu vi o Salvador pela última vez no dia do acidente. Ele estava a caminho da lancha. Nós moramos na mesma rua e ele realmente não voltou para casa — afirmou o taxista Antonio Lourival Santana ao GLOBO em Mar Grande ontem.

As autoridades da Marinha e do Corpo de Bombeiros têm dificuldade em calcular o número de desaparecidos porque muitas vítimas conseguiram se salvar a nado e não procuraram nenhum serviço médico para comunicar que sobreviveram. O que há registrado até o momento é o atendimento de 89 pessoas em unidades de saúde da região e outros 18 mortos.

A investigação sobre a causa do acidente continua. Na sexta-feira, 20 pessoas, entre passageiros e tripulantes, entre eles, o comandante da embarcação, foram ouvidas na delegacia de Mar Grande. Os proprietários da empresa responsável pela embarcação, CL Transporte Marítimo, também foram intimados e devem prestar esclarecimentos na próxima semana.

Uma equipe da Defensoria Pública da Bahia esteve ontem em Mar Grande para verificar se o atendimento às vítimas pelas autoridades estava sendo satisfatório. Até o fim da tarde, os defensores não tinham recebido nenhuma denúncia ou queixa. A Defensoria deverá auxiliar as famílias das vítimas nos pedidos de indenização à empresa pela tragédia.

Para alguns moradores, o naufrágio era uma tragédia anunciada. Em maio deste ano, uma passageira do barco Cavalo Marinho 1 filmou uma travessia dramática entre Salvador e Mar Grande. As imagens mostram os passageiros com água até as canelas num dia de viagem sob chuva.

O Ministério Público da Bahia afirmou na quinta-feira que vai acompanhar as investigações sobre o naufrágio. Em nota, o órgão disse que vem alertando, há mais dez anos, a “precariedade” do serviço realizado pelos barcos que fazem a travessia. Ainda segundo o MP-BA, duas ações civis públicas foram ajuizadas em 2007 e 2014 sobre a questão. Na primeira, o MP-BA afirmou ter alertado sobre irregularidades no transporte de passageiros, que colocavam em risco, diariamente, a segurança de centenas de pessoas. Em 2014, em uma nova ação civil pública, a promotoria solicitou a reforma dos terminais e das embarcações, a renovação dos coletes salva-vidas e outras medidas que assegurassem a saúde e segurança dos usuários. Ambas as ações aguardam decisão judicial.