Brasil

Assessora de João de Deus diz que vítimas parecem 'treinadas para falar'

Edna Gomes garante que João de Deus não vai desaparecer ou fugir do país

Patrik Camporez, da Agência O Globo
- Atualizada em

A principal assessora do médium João de Deus, Edna Gomes, decidiu falar primeira vez, na manhã desta terça-feira, sobre as dezenas de acusações que pesam contra seu líder espiritual. Segundo Edna, reproduzindo um posicionamento do próprio João de Deus, as mulheres que alegam terem sido vítimas de abuso sexual cometido por ele parecem "ter sido treinadas para falar".


Braço direito do guru religioso, a assessora classificou como "absurdo" todas as denúncias que circulam na mídia contra o médium. Aparentando estar abatida, ela chorou em alguns momentos da entrevista.

Edna garante que João de Deus não vai desaparecer ou fugir do país.

— (João de Deus) está triste, abatido e chora várias vezes indignado com toda essa situação — afirmou a assessora.

Ela trabalha há seis anos diretamente com João de Deus, coordenado pessoalmente todas as atividades da Casa.

— Vou falar uma coisa muito séria: eu nunca vi nada que o desabonasse nessa parte. Ele nunca foi santo, ele fala isso. Mas isso (as denúncias), de chegar a esse sentido, nunca. Aqui, na Casa, ele respeita muito. Não podem chegar e destruir sua reputação com inverdades. Mas, hoje, com essa coisa feminista, um homem não pode nem paquerar uma mulher, porque ela pode falar "ele olhou assim para amim", e isso se configurar assédio. É muito difícil a forma como você lida hoje no século XXI. É um absurdo o que estão falando, e não vejo consistência.

Médium é esperado no centro a partir de quarta

Edna percorreu o centro espiritual Dom Inácio de Loyola, no interior de Goiás, nesta manhã, para preparar o espaço para o médium fazer os atendimentos. Segundo ela, as consultas devem acontecer normalmente a partir de amanhã, quarta-feira.

Enquanto caminhava, ao entrar em cada cômodo do espaço, ela fazia uma pausa e proferia algumas palavras em defesa de seu mestre:

— Tem que ver a veracidade das coisas. O Ministério Público tem que ter a materialidade dos fatos antes de condenar alguém, para não destruir uma reputação e um trabalho maravilhoso. Para você ter uma ideia, as pessoas aqui não podem usar saia. Se entra dentro da casa (um espaço de descanso de João de Deus dentro do Centro) tem que colocar um lenço, sabe? Se você usa uma camisa ou um decote, não pode. O que me estranha é essas pessoas se unirem e falarem essas coisas. O discurso de todas é muito parecido. O discurso delas é o mesmo.

Crítica às mulheres que denunciaram

A assessora e amiga de João de Deus acredita numa grande conspiração de um grupo de mulheres "acabar com a honra" do médium.

— É como se elas fossem treinadas. Muitas coisas ali (nos depoimentos), conhecendo o médium João como eu conheço, você fala: "isso é impossível".

Edna diz ainda que muitas vítimas não teriam "credibilidade" para falar do líder religioso, e que os depoimentos dados aos veículos de comunicação "não têm credibilidade".

— Outra coisa que me me chamou a atenção: se eu sou assediada, eu volto à Casa dez vezes para ser assediada de novo? Quer dizer, o que eu quero? Eu vou correr lá no Ministério Público, eu vou correr na polícia e vou abrir um processo. Ou no mínimo eu vou sair gritando. Então, por que essas mulheres não gritaram? Por que não procuraram a delegacia? Era a primeira coisa a se fazer. Por que ir para o matadouro? É muito estranho.

Edna aponta que a equipe que trabalha com João de Deus é a favor de que se faça uma investigação "honesta" sobre o caso.

— O que fizeram com a vida dele, o jornalista tem que tomar cuidado com o que ele está falando. João de Deus está triste e não acredita que isso está acontecendo. Estou mostrando a Casa (centro espiritual), os trabalhos. Aqui é tudo aberto, recebo 5 mil pessoas aqui, todos os dias. Você sabe oque é isso? Você (a imprensa) não pode destruir uma reputação de um trabalho de 60 anos. Tem que saber muito bem o que se fala. É o que eu tenho que dizer.

A reportagem, neste momento, insistiu com Edna sobre o nível de detalhe dos relatos das mulheres e pediu para ela explicar o que ela e a equipe que trabalha com João de Deus acham disso.

— É como um telefone sem fio. Você começa a falar, aí tem uma louca que pega a dor da outra e fala 'que fui também'. Gente que nunca veio à casa. Então, estão num processo de fazer algo com a vida de uma pessoa que tem uma filhinha de dois anos, que é a paixão da vida dele. A esposa vem com ele, está junta toda vez. Sempre cercado de um monte de gente. É difícil acreditar nessa história. Por que elas não foram para o ministério público e foram para a (TV) Globo? É inconsistente isso.