Brasil

Especialista alerta para casos como de mulher que morreu com taça

Compressão do ferimento para conter hemorragia e socorro especializado rápido podem evitar sangramentos fatais

Cesar Baima, da Agência O Globo
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O caso de Tamara Maiochi, mulher de 30 anos que morreu na tarde da última quarta-feira ao se ferir no pescoço com uma taça de vinho quebrada enquanto comemorava a vitória do Brasil no jogo contra a Sérvia, em Itatiba, na região de Campinas, é um exemplo da necessidade de o público em geral aprender como prestar primeiros socorros. Ainda mais por episódios assim não serem tão incomuns quanto parecem, alerta o cirurgião vascular Julio Peclat, diretor da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV).

Segundo Peclat, sangramentos fatais como o que provavelmente vitimou Tamara geralmente ocorrem por lesões em artérias de maior calibre (grossura) e mais “superficiais” do corpo, apesar de normalmente este tipo de vaso sanguíneo ficar em regiões mais “profundas” que as veias. A mais comum de ser atingida e provocar casos do tipo é a artéria femoral, na coxa, ou sua “irmã”, a veia femoral, como no episódio do sargento da Marinha Fábio Gefferson dos Santos Maciel, de 33 anos, em 2012.

Em novembro daquele ano, Maciel saía de sua festa de casamento com uma tulipa de vidro no bolso esquerdo da calça como lembrança. Numa brincadeira com uma das madrinhas, ele correu atrás dela e acabou tropeçando na calçada. O copo quebrou e cortou a veia femoral do sargento, que morreu ainda a caminho de um hospital.

Foto: Reprodução
- Não raro recebemos pacientes em emergências com lesões deste tipo, geralmente na artéria femoral – conta Peclat. - Apesar de mais profunda, um objeto perfurocortante num bolso pode ser o suficiente para furar a perna e provocar um vazamento de sangue significativo.

Outros pontos muitos vulneráveis a acidentes assim apontados pelo cirurgião vascular são as artérias carótidas e suas ramificações em ambos lados do pescoço, cuja lesão pode provocar morte por hemorragia ou sufocamento, uma possibilidade que o especialista também levanta para o caso de Tamara.

- Outro grande problema de lesões no pescoço, como talvez também possa ter acontecido no caso dela, é uma hemorragia mais interna levar à formação de um hematoma que comprime a traqueia e outras vias respiratórias, provocando a morte por sufocamento mesmo que não haja um sangramento volumoso aparente – destaca. - Isso também acontece muito no pós-operatório de cirurgias no pescoço, e é por isso que em geral são colocados drenos para evitar esta compressão da traqueia.

Por fim, também são muito perigosas e sujeitas a sangramentos fatais as artérias axilar, nas axilas, e a braquial ou umeral, na parte superior dos braços, antes dos cotovelos.

- Apesar de também serem mais profundas que as veias que vemos nos braços, estas artérias podem ser atingidas em acidentes domésticos e sangrarem bastante – diz.

Diante disso, a recomendação de Peclat é que em casos assim quem estiver por perto faça uma compressão no local do ferimento com força suficiente para estancar a hemorragia e correr para um pronto-socorro.

- Se tiver, coloque uma luva, mas se não, pode ser uma toalha ou a própria camisa e faça uma compressão vigorosa o bastante do local para conter o sangramento, não aliviando a pressão até o atendimento especializado no pronto-socorro – aconselha. - Vemos muito nos filmes e na TV as pessoas usando torniquetes, mas eles são exceções e podem provocar complicações, como danos nos nervos, além de não ser possível fazer um torniquete num caso de lesão no pescoço, como o de Tamara. Deve-se então fazer uma compressão efetiva do ferimento, isto é, não necessariamente leve ou forte, mas suficiente para interromper a hemorragia. E embora lesões nas veias também possam levar à morte, isso é mais difícil de acontecer, já que a pressão sanguínea nas veias é muito menor que nas artérias, sendo supostamente mais fácil conter a hemorragia com uma compressão efetiva.