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João de Deus: cinco meses depois, vítimas dizem o que acharam do destino do médium

Mulheres abusadas por ele reagem de formas diferentes ao trauma, e parte se sente angustiada por 'liberdade' do réu

Agência O Globo
- Atualizada em

Elas passaram da vergonha à libertação. Cinco meses depois das primeiras denúncias, as mulheres que decidiram enfrentar João Teixeira de Faria , o médium João de Deus , conversaram novamente com O GLOBO e relataram como o maior caso de abuso sexual no Brasil impactou suas vidas.

Foto: Reprodução | Edilson Dantas
Os relatos ressaltam a importância da denúncia às autoridades: não apenas pelo aspecto judicial mas também para o processo psicológico de superação do trauma causado pelo ato criminoso.

Depois dos primeiros testemunhos, dados ao jornal e ao programa “Conversa com Bial”, centenas de mulheres procuraram o Ministério Público para narrar histórias terrivelmente similares. Hoje sob regime de prisão preventiva, o médium que atraiu celebridades como Oprah Winfrey e levava multidões à Casa de Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, Goiás, segue negando as acusações.

Das 12 mulheres que revelaram suas histórias ao GLOBO em dezembro, sete conversaram novamente com a reportagem. As reações não foram parecidas. Há quem tenha, desde então, passado a ler avidamente todas as notícias sobre o caso. Outras revelam que tentam evitar o assunto a qualquer custo. Há quem tenha aproveitado a divulgação do escândalo na imprensa para contar aos mais próximos o abuso que sofreram. E quem, até hoje, permanece no anonimato, sem ter dividido o drama pessoal com familiares.

Essas mulheres, que denunciaram de modo detalhado os abusos que sofreram nas mãos do mesmo líder religioso, entre 2010 e 2018, lidaram com o trauma de forma singular. Mas repetem a mesma sentença: a publicação das denúncias teve, nelas, um efeito libertador. Todas afirmam que tinham de lidar com sentimentos de vergonha e culpa por terem sido abusadas, mas, com a multiplicação de casos vindos à tona, tiraram “um peso das costas”.

Curiosamente, as entrevistadas se disseram surpresas com o fato de João de Deus ter sido preso. O líder religioso se entregou às autoridades uma semana após as denúncias serem publicadas. Em março, ele conseguiu autorização para internação em um hospital, mas segue sob prisão preventiva até o julgamento. A força-tarefa do MP de Goiás ainda investiga o caso. A Casa de Dom Inácio segue aberta, mas o movimento caiu acentuadamente. Abadiânia se debate para encontrar nova força de atração econômica.
Foto: Reprodução | TV Globo

Zahira Mous, de 35 anos, Holanda: "Virei uma ponte para outras mulheres"

"Quando a história saiu, em 7 de Dezembro de 2018, eu trabalhei sem descanso por dois meses para responder a todas as mulheres que estavam me escrevendo (centenas), via mensagens privadas no Facebook e no Instagram. Foi um grande furacão e não consegui fazer nenhuma das minhas atividades "normais" da vida cotidiana. Senti que a vida nunca mais seria a mesma.

Também dei apoio para uma mulher da Áustria e sua filha pequena a virem à frente para prestarem queixa. A história dela me nocauteou em uma depressão por duas semanas, foi um desafio. Compreendi que eu poderia direcionar essas mulheres para as devidas vias em prol de justiça e cura, mas eu sabia que não poderia ser o único recurso delas. Eu sou grata ao fato de, por eu ter falado, me tornar ponte para que essas mulheres viessem à frente e começassem o seus próprios processos de cura."

35 anos, de São Paulo: "Antes, se ouvisse alguém falar sobre João de Deus, eu congelava"

“A ficha só caiu quando fui ao Ministério Público fazer a denúncia. Tinha outra mulher na minha frente na fila. Ela saiu chorando da sala. A energia era muito pesada. Até então eu não tinha conversado com ninguém sobre isso, só com a reportagem. Fiquei muito nervosa na hora de formalizar a denúncia.

Hoje consigo ver alguns efeitos positivos de denunciar. Por exemplo, antes, se ouvisse alguém falar sobre ele, eu congelava. Agora, quando comentam sobre João de Deus eu consigo falar que fui vítima.

Ainda estou digerindo tudo o que aconteceu. No início eu olhava todas as notícias, mas é muito ruim acompanhar porque as pessoas reagem mal. Mais difícil do que ler as matérias era ler os comentários, as opiniões. Via as pessoas desmerecendo todo o processo e as nossas denúncias, falando que estavam com pena dele, que a gente que deu em cima dele. Foi arrasador. A última notícia que li foi a liberação que ele recebeu para ser internado em um hospital . Preferi parar de ler porque é um mix de sentimentos muito estranho. Por um lado, percebo que avancei, mas se dissesse está cicatrizado seria mentira.”

38 anos, de São Paulo: "as curas aconteciam pela energia daquele lugar e das pessoas"

“O que mais aprendi disso tudo foi não dar o meu poder a ninguém. Entendi que sou eu quem tenho a capacidade de transformar e me curar, e não o outro.

Percebi que as curas aconteciam pela energia daquele lugar, pelo fato de muitas pessoas quererem a mesma coisa (a cura) com tanta fé. E quando aprendemos que está tudo em nós e não no outro, isso é libertador.

Compreendi que, ao denunciar, eu tinha um papel ali, uma missão de colocar para fora tudo o que trazia guardado. Foi muito importante denunciar, não só para a minha cura em relação ao trauma, mas para encorajar outras mulheres a denunciarem também. E esse meu processo de cura envolveu falar sobre o que aconteceu sem culpa, sem achar que eu prejudiquei outras pessoas ao denunciar. Foi bem difícil superar a vergonha, mas entendi que era para um bem maior.

Fiquei muito receosa quando comecei a ver tudo vindo à tona porque não esperava que tomasse essa proporção. Doeu muito ver que isso aconteceu com tanta gente. Difícil constatar que ele usava as mesmas palavras, que era uma estratégia padronizada para abusar da fragilidade alheia.

Depois, várias pessoas chegaram a questionar nossas denúncias. Disseram que era mentira, que a gente queria dinheiro. Ler esse tipo de comentário me fez ir da dor à indignação. Minha história não tem nada a ver com indenização. Tinha a ver com ajudar tantas outras mulheres a lidar com a dor do trauma causado pelo abuso, e a colocar isso para fora.

Eu nem esperava que tivesse o fim que teve. Só queria colocar minha dor para fora e dar forças para outras mulheres. E, acima de tudo, mostrar que o outro não pode fazer o que quiser com a gente.

Não sou o governo, não sou o legislativo, não cabe a mim fazer Justiça. Não cabe a mim julgar o que acontecerá daqui para a frente.

Fiquei muito assustada com a repercussão negativa. Foi chocante ver até onde o ser humano consegue ir, o quanto não conseguimos olhar para o outro com empatia. Me preocupei com as outras mulheres, principalmente as que não tinham estrutura e apoio psicológico e familiar, como eu tinha.”


40 anos, do Paraná: "Cheguei a pensar em pedir indenização, mas estou cansada"

“Essa história mudou a forma como vejo a minha fé. Antes, o João era meu guru, o dono da verdade. Hoje eu entendo que não posso dar esse poder a ninguém. Digamos que eu me empoderei da minha própria luz.

Passei um tempo em choque, afastada de qualquer religião, até que uma amiga me chamou para uma roda de meditação e ali tive mais contato com o budismo, que é a religião da qual sou mais próxima agora. No budismo, há um momento em que você mesmo se torna o buda, não é uma adoração ao buda. Isso se aplica mais ao meu momento atual.

Também fiz terapia, porque os pensamentos e as lembranças do abuso eram muito frequentes. Eu lembrava o tempo inteiro do que tinha me acontecido e isso me fazia sofrer demais.

Cheguei a pensar em pedir indenização, sim. Sei que outras mulheres não querem o dinheiro dele, mas eu penso que gastei uma grana indo até lá várias vezes, sendo enganada. Levei meus pais lá, inclusive, e acabei sofrendo um abuso. Eu mereço algum tipo de compensação por tudo que sofri, nem que seja para pagar a minha terapia.

Acabei desistindo de entrar com a ação mais pela fadiga, mesmo. É muito cansativo, ainda, falar sobre tudo que eu vivi ali.

Isso não faz com que eu evite o noticiário. Tem que ter matéria, sim. Até acho que tem tido pouca, recentemente. Não fico procurando as notícias, mas também não desvio delas, como sei que algumas de nós fazem.”

32 anos, de Minas Gerais: "Ele está exercendo poder, mesmo da prisão

“Tenho acompanhado todas as notícias. Fiquei preocupada quando a assessora de imprensa dele, Edna (Gomes), desistiu da delação premiada (no dia 30 de abril). Ao mesmo tempo, também fiquei me perguntando o quanto uma fala dela seria crível.

Confesso que achava que ele não seria preso em momento algum. Digo isso pelas amizades que ele tem, inclusive com ministros do Supremo Tribunal Federal. A prisão foi uma surpresa positiva.

Por isso, logo no início, principalmente no primeiro mês, eu tinha o medo dele ser liberado a qualquer momento. Mas quando ele passou Natal e ano novo na cadeia, me veio a segurança de que ficaria lá.

Sei que as coisas na Justiça são lentas. Sei que um processo por abuso não é simples. Ele conseguir a liberação para estar no hospital não é algo que eu goste, mas sei que é previsto. Só quero que chegue logo o momento do julgamento.

O que mais me incomoda no momento é a impressão de que todas as outras coisas continuam acontecendo lá, como lavagem de dinheiro, por exemplo. Acho que o poder dele ainda está sendo exercido, mesmo da prisão.

Queria que tivesse um confisco geral, mesmo. Não para me pagar qualquer coisa, eu não quero o dinheiro dele, ainda mais agora, sabendo de onde vinha. Mas também não julgo quem quer indenização.

O principal foi que tudo foi mostrado e que isso faz a diferença para as pessoas se informarem antes de irem lá.

Num primeiro momento eu não conseguia lidar com isso. Eu nao teria coragem em momento nenhum de denunciar sozinha. As vozes das outras foram muito importantes para me dar força.”

33 anos, São Paulo: "Ele vai responder à justiça divina"


“Até hoje tem um ou outro amigo que lembra das viagens que eu fiz a Abadiânia  e me pergunta se aconteceu algo. Eu desconverso. Dói muito falar sobre.

Cheguei a me esforçar para não deixar meu pai saber, mas acabei precisando contar por causa do processo. Foi um caos na minha família. Para cada pessoa que eu precisei contar, até para meu advogado, foi difícil.

No começo, eu queria ler tudo, ver tudo. Mas percebi que estava me fazendo muito mal. Eu chorava todos os dias. Então decidi me afastar. Mas, agora que a imprensa parou um pouco de ficar em cima, parece que ninguém mais está dando tanta bola para isso, o que me incomoda.

Também no começo eu queria que ele se ferrasse, que ele pagasse por todos os horrores que me fez, pelos meus sonhos que ele destruiu. Entrei em um grupo de Facebook que reunia vítimas do meu estado, mas não me ajudou. As pessoas estavam querendo muito brigar com ele na justiça, pedir indenização. Tinha muita informação ali e achei melhor falar com um advogado amigo, que me abriu os olhos. Hoje sei: não vai ter dinheiro que repare o que ele fez comigo. Não acho que as pessoas que estão pedindo dinheiro sejam aproveitadoras. É só que não vale a pena o desgaste psicológico.

Olhando para tudo que aconteceu, acredito que ele tinha, sim, um dom espiritual. Acho que ele usou isso para coisas malignas. Me deixa enfurecida que ele não esteja na cadeia, que esteja num hospital. Já passei dias nervosa pensando que ele pode morrer antes de ser condenado. Mas me consolo que, se ele não vai ter tempo de responder à justiça dos homens, vai ter bastante tempo para responder à justiça divina.”

37 anos, Estados Unidos: "Procurei pessoas ligadas à Casa, nunca obtive resposta"


“Depois de ler as primeiras denúncias, eu pesquisei um pouco mais no noticiário e decidi procurar a polícia. Em alguns momentos eu parava de ler, mas isso se devia muito mais ao fato de eu precisar de tradução do que por qualquer dificuldade psicológica em encarar as informações.

Uma amiga, que eu conheci na Casa (de Dom Inácio) traduzia as notícias, mas chegou a um ponto em que tudo soava igual: João cometeu atrocidades sob o disfarce de curandeiro; ele está na prisão; Abadiânia se tornou uma ‘cidade fantasma’.

Me pergunto o que as pessoas que viviam lá estão fazendo hoje.

Tive contato com uma jovem brasileira que passou por algo similar ao que eu passei. As mensagens que trocamos foram importantes para mim.

Procurei pessoas ligadas à Casa, mas não obtive resposta. Nunca.

A verdade é: essa história não afetou minha fé porque apenas validou as conclusões que tive ao deixar Abadiânia, anos atrás. Eu não senti nada de bom vindo de João naquele tempo. Minha saúde não melhorou. Conheci duas mulheres que estavam doentes e elas não melhoraram, também. Um homem não pode te curar. A cura acontece entre você e Deus.”