Brasil

João de Deus coloca responsabilidade nos espíritos em depoimento à polícia e se contradiz

Médium diz que não entregava receitas, mas fiéis recebiam de suas mãos papéis com rubricas que deveriam ser entregues na farmácia

Helena Borges e Daniel Marenco, da Agência O Globo

Em depoimento à polícia, no dia 16 de dezembro, João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, afirmou que não entrega receitas ao fiéis que vão à Casa de Dom Inácio de Loyola. Na realidade, ao passarem pela fila de atendimento, os fiéis recebem das mãos do próprio João papéis com rubricas feitas pelo médium, que devem ser entregues na farmácia da Casa na hora de comprar os remédios. No depoimento, João também responsabilizou "Deus" e "o espírito" pelos procedimentos feitos na casa.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Em julho deste ano, o GLOBO esteve no “hospital espiritual” de João. Ele entregou um papel com sua rubrica à repórter. Voluntários explicaram que o papel deveria ser entregue na farmácia para comprar remédios. Foram cobrados R$ 100 por duas caixas de passiflora com 80 cápsulas cada uma. Segundo a orientação impressa na embalagem, o paciente deveria tomar o remédio duas vezes ao dia. No depoimento, João afirmou que não havia entrega de receitas escritas e que o preço seria de R$ 50 por uma embalagem com 10 comprimidos.

Ainda no depoimento, João afirma que não tem responsabilidade pelo que faz nos atendimentos espirituais. Ele diz que “as orientações são repassadas pelo espírito”. Questionado se faz tratamento com cirurgias incisivas, ele nega e diz que “Deus que faz”. As notas taquigráficas do depoimento mostram a explicação dada pelo médium:

“No atendimento não é repassada receita, as orientações são repassadas pelo espírito, ou seja, não é de maneira escrita. Esclarece que apenas atende e orienta. Informa ainda que alguns frequentadores já adquirem os produtos, mesmo sem o encaminhamento do espírito, pois são frequentadores do local há muitos anos e acreditam na eficiência do produto.”


João negou, também, ter chamado “qualquer pessoa para se submeter a um atendimento individualizado”. Segundo seu depoimento, “são as pessoas que o procuram em busca de um atendimento individualizado, vez que são os frequentadores quem solicitam tal atendimento e não o interrogado”. As vítimas, por sua vez, contam terem sido orientadas pelo próprio médium, durante a sessão coletiva, a encontrarem com ele após o atendimento geral para uma reunião.