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Médica 'receita' conteúdo de influenciadores e intelectuais para jovem com depressão

A médica postou uma foto da receita em seu perfil do Facebook que repercutiu entre internautas

Louise Queiroga, da Agência O Globo

Após ficar internado em estado grave em decorrência da depressão, um jovem negro, gay e evangélico de 22 anos que sentia-se culpado por, segundo ele, não conseguir "corrigir sua sexualidade", recebeu uma prescrição inusitada da médica Júlia Rocha. Ela recomendou que o paciente conhecesse o conteúdo produzido por personalidades negras que dominam temas como o combate ao racismo e à homofobia, e também feminismo.

A médica postou uma foto da receita em seu perfil do Facebook que repercutiu entre internautas. Desde sexta-feira, angariou cerca de 15 mil curtidas e 3,2 mil compartilhamentos. Ela contou que fez essa receita, "impregnada de um desejo imenso de vê-lo melhor", cerca de duas semanas antes da publicação.


"Ele já estava em acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Já estava usando medicações. A família já estava mobilizada para apoiá-lo, mas pra mim ele precisava se aprofundar no entendimento do seu lugar social como um homem gay, negro e periférico. Tem horas que só enxergando e conhecendo as estruturas que nos oprimem pra conseguir dar o próximo passo", afirmou Rocha, atua como médica de família em Belo Horizonte.

Entre os produtores de conteúdo sugeridos estão nomes conhecidos entre usuários de redes sociais, como Spartakus Santiago, que se apresenta como um "youtuber negro, gay e nordestino" que busca debater questões raciais e LGBT, e o jornalista AD Junior, que também tem um canal em que aborda assuntos semelhantes. A médica também "prescreveu" os trabalhos de Conceição Evaristo, doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), que trabalha com ênfase em temas de gênero e etnia.

Outras personalidades recomendadas foram os escritores Silvio Almeida, autor do livro "O que é racismo estrutural?" (Letramento), Juliana Borges, de "O que é encarceramento em massa?" (Letramento), e Djamila Ribeiro, autora do best seller "Quem tem medo do feminismo negro?" (Companhia das Letras, 2018).

Segundo a médica, o paciente foi encaminhado para um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) após uma tentativa de suicídio, onde recebeu atendimento psicológico e psiquiátrico. Inicialmente, foi prescrito um antidepressivo e realizada uma abordagem psicoterápica. Num encontro posterior, Rocha avaliou que podia acrescentar algo diferente ao tratamento.

— Essa ideia de "receitar" personalidades e intelectuais negras surgiu porque tenho essa característica de buscar abordagens mais voltadas às questões da sociologia, para que a pessoa entenda o lugar que ela ocupa na sociedade. Às vezes as opressões são estruturais e a gente fica achando que as situações acontecem por questões individuais. Essa foi minha tentativa de mostrar que existe uma estrutura maior, que é uma estrutura de opressão racista, machista e lgbtfóbica, que acaba agravando esse quadro dele. Ele não está deprimido porque é gay. Um homem gay, principalmente um homem negro, é visto de determinada forma pela sociedade, e é isso que o adoece. Acho que foi importante para ele se interessar por essa temática e buscar outras coisas que fazem mais sentido para ele.

No dia em que a médica compartilhou a história da receita com seus seguidores, relatou ter encontrado o paciente "muito querido" e já ter notado uma melhora em sua autoestima. "Ele sorriu e me deu um longo abraço. Aquele instante durou uns anos", contou Rocha.

Após perguntar como o jovem estava, ele lhe respondeu: "Estou melhor. Bem melhor.... Li o livro ("O que é racismo estrutural").... passei a receita pra outros amigos....". Em seguida, o jovem disse sentir vontade de marcar uma nova consulta. Questionado sobre as novidades em sua vida, Rocha contou que "ele se aproximou pra falar o segredo: 'Tô namorando'".