Brasil

Morre o roqueiro Serguei, aos 85 anos

Em uma carreira marcada por excentricidades, Sérgio Augusto Bustamante se tornou um dos personagens mais queridos do rock nacional

Agência O Globo

Morreu nesta sexta-feira (7), aos 85 anos, o roqueiro Serguei. Com a saúde debilitada sobretudo a partir de 2013, o cantor começou a passar por dificuldades financeiras. Recebia uma ajuda mensal da Prefeitura de Saquarema. Portador do Alzheimer,  foi internado no dia 6 de maio, com desidratação, desnutrição e infecção urinária.

Foto: Divulgação
Serguei não era um grande astro do rock. Serguei não compôs nem gravou clássicos inesquecíveis do cancioneiro nacional. Serguei não era um artista de obra profundamente original. Serguei não era um pensador agudo do pop. Serguei não era um farol hippie a guiar a juventude num mundo yuppie.

Seu grande feito, porém, foi ter criado em torno de si um personagem que era tudo isso — e no qual ele, mais do que ninguém, acreditava. Um personagem que teve um caso — ou como quiserem chamar um relacionamento na era amor-livre-flower-power — com Janis Joplin, frequentou festas com Jim Morrisson e Jimi Hendrix, assumiu um posto de guru pansexual que transava com árvores, mereceu um museu dedicado à sua pessoa, foi o grande bastião do rock nacional em meio à caretice da MPB. Com um inegável carisma (e pouquíssimos discos), criou uma mitologia em torno de si que o levou a realizações reais — como o épico show no Rock in Rio de 1991.

A idade e a saúde frágil na última década não o impediram de manter até o fim o folclore em torno de sua figura rock'n'roll.

— Continuo com a minha epiderme borbulhando erotismo — disse em entrevista a Jô Soares em 2012, aos 75 anos.

Sérgio Augusto Bustamante ganhou o apelido de Serguei ainda na infância, de um amigo russo que não conseguia pronunciar seu nome. O apelido pegou tanto que virou seu nome artístico — inicialmente com a grafia sem "u", como mostra seu primeiro compacto, que trazia "As alucinações de Sergei" de um lado e "Eu não volto mais" do outro.

Seu fascínio pela cultura anglosaxônica e, sobretudo, pelo rock, se consolidou quando, aos 12 anos, foi morar com a avó em Nova York. Lá, participou de seus primeiros festivais estudantis. De volta ao Brasil, aos 22 anos, trabalhou em bancos e em companhias aéreas (como comissário de bordo). Em 1969, esteve no festival de Woodstock e, pouco depois, contou ter ficado amigo de Janis Joplin — uma amizade que incluiu, segundo ele, passeios de madrugada com a cantora de topless pelo Leme.

Sua carreira discográfica iniciada em 1966 foi exclusivamente de compactos até 1991, quando lançou seu primeiro álbum, "Coleção de vícios".

— Ninguém tinha coragem de me gravar em LP. Tinham medo de mim. Queriam ver o diabo mas não queriam me ver. Mas o diabo não é mais sexy do que eu — disse em entrevista a Rogério Skylab em 2013.

Também em1991, tocou no Rock in Rio II — ele voltaria ao palco do festival na edição seguinte, em 2001. Mesmo tendo lançado mais dois álbuns ("Serguei", de 2002, e "Bom selvagem", de 2009), ele se consolidou mais como um personagem do que como cantor. Suas participações em programas de TV como "Show do Tom", "Programa do Jô" e "Serguei Rock Show" atestavam isso.

Morador de Saquarema desde 1982, Serguei se tornou uma personalidade local, e sua casa uma espécie de museu, batizada de Templo do Rock. Um de seus espaços favoritos ali era o que chamava de quarto psicodélico. O cômodo, iluminado com luz negra, tem quadros de tinta fosforescente de Bob Marley e Jim Morrison, além de almofadas e panos pelo chão.

— Era assim que os hippies viviam. Deitavam em lugares assim, dormiam, às vezes se beijavam, ficavam pelados — disse Serguei em entrevista ao GLOBO em 2016 , mostrando o ambiente. — Um dia veio um garoto visitar a casa e deitou pelado aí, como os hippies.