Brasil

Mulher com gravidez de risco dorme no chão desde que perdeu cama em enchente

"A enxurrada levou tudo. Até comida! O que eu tenho agora é de doação. Prato, panela, copo, tudo!", disse Suiene

Agência, O Globo

Suiene de Paiva Santos, de 31 anos, tem gravidez de risco e a recomendação médica de fazer repouso. Mas a moradora da Rocinha, no Rio de Janeiro, não consegue descansar. Na enchente que atingiu a favela de São Conrado há dois meses, ela perdeu tudo do pouco que tinha, incluindo a cama de solteiro. Desde então, dorme no chão sobre duas mantas doadas.

— A gente tinha um fogãozinho de duas bocas, dois banquinhos e um radinho. Era o que a gente tinha. Perdemos tudo. Até o chinelo do meu marido e a minha escova de lavar roupa — conta Suiene: — Agora tenho um fogão de quatro bocas e uma geladeira que ganhei de doação. E um rádio que achei no lixo.

Suiene é casada com Oswaldo Ramos de Araújo, de 68. Ele faz bicos como pedreiro, mas desenvolveu uma alergia nas mãos, que surge quando manipula cimento. Ela é paulista; ele, carioca. Conheceram-se em São Paulo e se apaixonaram. Mas a birosca que garantia o sustento em Poá, na Região Metropolitana do estado, faliu e eles decidiram, em 2017, tentar a vida no Rio. Primeiro, foram morar no Caju (“Era o lugar mais perto da rodoviária”, lembra Suiene), e há cinco meses estão na Rocinha.

Mantas são colocadas no chão Foto: Arquivo pessoal

— Meu filho, vou te falar uma verdade. Eu e meu marido ficamos a noite todinha tirando água de dentro de casa. A enxurrada levou tudo. Até comida! O que eu tenho agora é de doação. Prato, panela, copo, tudo!

A preocupação maior é com o bebê que está na barriga há 22 semanas. Ela já fez cinco cesarianas (de filhos que moram com o pai, em Minas Gerais) e, por isso, há riscos para a criança. A placenta descolou no último parto e ela afirma que quase não sobreviveu. Quando fica muito preocupada, tem sangramentos. O médico já disse que vai ser natural e que ela deve repousar.


Suiene está grávida de 22 semanas Foto: Arquivo pessoal

— Quando isso acontece, vou no médico e ele me coloca no soro para parar o sangramento. O que ele mais fala para mim é ficar de repouso, não pegar peso e não passar nervoso — diz Suiene, que espera um menino, cujo nome só escolherá ‘‘quando der uma boa olhada nele’’.

'Importante é que a gente tem saúde'

— Todo mundo fala para mim um nome diferente para o meu filho. Eu vou pensar. Quero um nome bonito. Um nome que seja bem forte para o meu filho ser guerreiro, batalhador. Trabalhador! E honesto. O importante é que a gente tem saúde. Deus ajuda. Por exemplo: eu não tenho mais onde dormir, mas pelo menos a gente está debaixo de um teto. A gente não tem televisão para assistir, mas pelo menos a gente fica conversando. Eu e meu marido. A gente fica relembrando o passado. Quando a gente não tem nada para fazer, eu falo “amor, vamos dar uma voltinha, pegar umas latinhas no meio da rua”. Eu trabalhava com reciclagem lá em São Paulo. Então, quando eu passo perto de uma lixeira, eu vou olhando para ver se tem alguma coisa que me serve. É muito triste a gente ver a pessoa que a gente ama com um problema na mão como esse e eu não poder fazer nada para ajudar. O que eu posso fazer é pegar latinha na rua, que já rende uma mixariazinha e dá para comprar uma misturinha, um pão, uma coisa assim — conta a moradora da Rocinha.