Brasil

'Se você não quer uma manifestação contra você, ande na linha', diz Bolsonaro

Entrevista ao programa "The Noite", de Danilo Gentili, no SBT, foi gravada no início da semana

Agência O Globo

O presidente Jair Bolsonaro voltou a afirmar, em entrevista exibida na madrugada desta quinta-feira, que os atos pró-governo do último domingo foram espontâneos e que a população que foi às ruas "demonstrou que quer mudanças". Perguntado se o presidente deve se preocupar também com as manifestações contrárias ao governo, Bolsonaro respondeu:

Foto: Gabriel Cardoso/SBT

— Se você não quer uma manifestação impopular contra você, você que ande na linha.

A entrevista ao programa "The Noite", de Danilo Gentili, no SBT, foi gravada no início da semana, logo após os atos favoráveis a pautas do Planalto, como a reforma da Previdência e o pacote anticrime, e antes das manifestações desta quinta-feira contra os cortes na Educação. Bolsonaro disse que os atos de domingo foram um "sinal de alerta" para todos os políticos do país.

— Foi uma manifestação espontânea, uma pauta definida que deu sinal de alerta a todos os políticos do Brasil. Não aceitamos mais só participar das eleições e achar que isso é democracia. Democracia (é) a classe politica estar perfeitamente afinada com os anseios da população -frisou.

Por outro lado, o presidente voltou a dizer que a maioria dos estudantes que foram às ruas contra cortes no orçamento da Educação "não sabia o que estava fazendo" e foi usada por uma "minoria de professores espertalhões".

— O certo é falar inocentes úteis. A grade maioria da garotada presente não sabia o que estava fazendo ali, diferente dessa última manifestação pedindo agilidade ao Parlamento. Uma minoria de professores espertalhões usa a garotada em causa própria tentando sempre destabilizar o governo — declarou.

Relação com o Congresso

Ao comentar as dificuldades que enfrenta na articulação com o Congresso para aprovar a reforma da Previdência, o presidente criticou a relação estabelecida, segundo ele, em governos anteriores ente o Executivo e o Legislativo. Para Bolsonaro, a forma de articulação que envolveria a negociação de cargos "não deu certo".

— Para mudar um paradigma você leva algum tempo. Hoje em dia acredito que a maioria dos parlamentares não estão pensando nisso, mas uma minoria mais antiga, que tem uma cabeça ainda voltada para o passado, busca uma maneira de continuar interagindo com o governo de uma forma que não deu certo no passado. Até porque não temos alternativa, não dá para fazer política dessa forma mais. O país está quebrado — declarou Bolsonaro.

— Não existe mais como se gastar tanto como no passado sem responsabilidade.

O presidente afirmou que a distribuição de cargos "não é governabilidade":

— Geralmente o político tem fama de mentiroso. Pela primeira vez na história do país vocês estão vendo um presidente que está buscando fazer o que prometeu durante a campanha, porque geralmente o que acontece: acaba a campanha, esse chefe do executivo vai para um canto, chama líderes partidários e distribui cargos e diz que isso é governabilidade. Isso não é governabilidade. Não estou atacando o parlamento, nem ofendendo o parlamento brasileiro. Isso sempre foi uma verdade até 31 de dezembro do ano passado. Escolhemos um ministério técnico e estamos trabalhando nesse sentido, com os parcos recursos que temos, buscar trazer felicidade para o nosso povo — afirmou o presidente.

Aprovação da Reforma da Previdência
Bolsonaro disse ainda acreditar que a reforma da Previdência será aprovada em dois ou três meses no Congresso:

— Os parlamentares têm a consciência disso também. Os deputados estão no mesmo barco. Não temos outra alternativa - declarou Bolsonaro, destacando o risco para a economia do país, caso a reforma não avance:

— O governo não se sustenta sem uma economia pelo menos razoável. Sem a reforma na Previdência, estamos dando sinal para o mercado interno e de fora também de que não estamos fazendo o devido dever de casa. Ninguém vai querer investir num país que tem uma dívida brutal como essa e crescendo de forma galopante ano após ano. (...) Acredito, segundo Paulo Guedes, meu posto Ipiranga, que em 2022 no máximo (se não for aprovada a reforma) o Brasil quebra.

Divisão do Governo

Bolsonaro também negou que haja divisão entre ala mais ideológica do governo e a formada pelos militares.

— Não tem essa ala. Não existe. O que tenho orientado é não responder a provocações. Não existe essa divisão sistemática. Lógico que existem interesses de cada um, mas não atrapalha o governo. O que acontece é que a imprensa, qualquer negocinho, potencializa o que eu falo.

Reeleição

Bolsonaro também não descartou tentar a reeleição ao cargo de presidente nas próximas eleições:

— Não sei. Depende de aprovar uma reforma política bastante profunda. A gente pode discutir esse assunto, a reeleição — afirmou.

Decreto de Armas

Bolsonaro voltou a defender os decretos editados por ele que flexibilizaram a posse e o porte de armas no país, cuja constitucionalidade é questionada pelas áreas técnicas da Câmara, do Senado e pelo Ministério Público Federal (MPF).

— A certeza de que (o criminoso) vai encontrar o cidadão desarmando é que faz com que a violência cresça - defendeu o presidente, criticando a política de desarmamento:

— Desde que teve o Estatuto do Desarmamento, a violência só aumentou. É um sinal de que essa política não deu certo.

Facada

O presidente se emocionou ao relembrar a facada que levou durante uma agenda de campanha nas eleições de 2018, em Juiz de Fora (MG). Bolsonaro exibiu no programa as cicatrizes deixadas pelas cirurgias a que foi submetido.


Foto: Gabriel Cardoso/SBT

— (num primeiro momento) achava que era um soco no estômago apenas, porque não é normal acontecer aquilo — revelou.