Brasil

Tema da redação do Enem 2018 é 'Manipulação do comportamento do usuário'

Inep divulgou informação em sua conta no Twitter segundos depois de a prova começar

Agência O Globo

O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2018 é "Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet". O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que é responsável pela prova, divulgou a informação no Twitter logo após o início da prova. Na opinião de professores, embora seja um tema atual, os alunos podem encontrar algum tipo de dificuldade para desenvolvê-lo, já que não se trata de uma questão trivial.

Neste domingo, os candidatos fazem as provas de Ciências Humanas, Linguagens e Redação. Eles terão das 13h30 às 19h para resolver 180 questões e escrever o texto. No próximo domingo, os estudantes farão as provas de Ciências da Natureza e Matemática das 13h30 às 18h30.

— Num primeiro momento, quando o aluno quando lê a frase da proposta, talvez fique impactado pelo tema. Mas acredito que a coletânea de textos deve ajudar bastante os alunos a entenderem do que se trata, porque essa é uma discussão muito atual — afirma Rafael Pinna, coordenador de redação do Colégio de A a Z. — O Enem tem privilegiado temas que são problemas históricos no Brasil. Nos últimos anos tivemos violência contra mulher, racismo, intolerância religiosa. Desta vez, no entanto, optou-se por uma questão atual, então os alunos que se preocuparam em acompanhar o noticiário vão bem.

Foto: reprodução

Pinna explica que o assunto tem estado cada vez mais na pauta desde 2016 a partir da eleição de Donald Trump, com o direcionamento de informação a partir da manipulação de dados de usuários do Facebook, obtidos pela empresa Cambridge Analytica.

— Esse foi um assunto muito discutido desde a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e nas eleições desse ano no Brasil acabou sendo alvo de muito debate, principalmente por conta de notícias falsas e o direcionamento do tipo de conteúdo que a cada usuário pode receber ou não — exemplifica.

Professora de redação do Descomplica, Carolina Achutti também ressalta que o tema foge da regra das últimas edições do Enem, com recorte social e de minorias. Este ano, segundo ela, é um tema quase político, global, que pede exemplificações que vão além do Brasil:

—  É importante falar de marketing dirigido, marketing de internet. Não é só fake news, como muitos podem pensar à princípio ao lerem a descrição do tema. Você tem uma bolha na internet, nós alimentamos um perfil nas redes sociais e elas nos devolvem tudo aquilo que é compatível com esse perfil. Nesse caso, podemos falar das últimas eleições presidenciais americanas.

Como proposta de intervenção, Carolina sugere que um bom caminho é citar o Marco Civil da Internet, lei de 2014 que regula o uso da rede no Brasil.

—  A gente já tem uma lei que deveria estar funcionando para que tivéssemos neutralidade, liberdade de expressão, entre outros. Mas isso não está acontecendo na prática. Propor a fiscalização, para fazer com que essas regras de fato sejam colocadas em prática, pode ser um bom caminho para os estudantes.

Um outro ponto importante, segundo a professora, é que haja conscientização. A população precisa ter uma relação crítica e clara com a internet, para que saiba o quanto a exposição de dados pode ser perigosa.

— Esta também pode ser uma proposta de intervenção para o longo prazo: fazer com que as crianças e jovens se acostumem desde cedo a discutir esse tipo de assunto, para que eles estejam mais preparados para lidar com o uso de seus dados.

Na opinião de Juliana Oliveira, professora de Linguagens do Sistema COC, ainda que esse tema não seja tão trabalhado em sala, os estudantes terão repertório para esscrever sobre ele.

—  O desafio é que este é um tema muito amplo. Então dificulta o candidato a pensar numa proposta de intervenção, como o Enem pede — diz ela.—  Pode-se falar da ingenuidade do próprio usuário da internet, das grandes empresas de technologia que "sugam" os dados dos internautas, da ainda pouca regulamentação dentro do ambiente digital.

Em relação à proposta de intervenção, o professor do ProEnem Romulo Bolivar diz que os estudantes precisam estar atentos para não defender nenhum tipo de censura à circulação de informações.

— O candidato pode criticar a manipulação de dados, mas na hora de fazer proposta não deve sugerir que se condene qualquer tipo de informação. Negar o acesso à informação, defendendo, por exemplo, a proibição de encaminhar notícias via Whatsapp, pode ser visto como desrespeito aos direitos humanos, embora isso não zere mais a redação, a pontuação do candidato pode ser prejudicada — diz o professor. — É bom lembrar que também é perigoso focar somente em algum tipo de manipulação. O tema é amplo, o candidato não pode falar apenas sobre fake news e esquecer que a manipulação de dados  é um fenômeno complexo, que envolve vários aspectos.

Cinco competências avaliadas


A prova de redação avalia cinco competências, a primeira diz respeito ao domínio da linguagem formal. Na competência dois, a banca avalia a capacidade do candidato de compreender a proposta e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema. Na terceira competência, os avaliadores observam a capacidade de relacionar opiniões e argumentos a favor de um ponto de vista.

A quarta competência se refere ao conhecimento dos mecanismos linguísticos para construção da argumentação. O último critério avaliado pelo Enem se refere à elaboração de proposta de intervenção para o problema, com respeito aos direitos humanos.

Até o ano passado, o candidato que desrespeitasse os Direitos Humanos na prova de redação do Enem recebia zero. Na última edição, após uma determinação do Supremo Tribunal Federal, o critério passou a não mais zerar a prova, mas ele ainda penaliza, com retirada de pontos.