Carnaval

Carnaval do Pelô se destaca por diversidade artística e cantos de resistência

Ao longo de cinco dias de festa, foram somadas aproximadamente 400 horas de apresentações de música e performances entre as 130 atrações

Redação iBahia (redacao@portalibahia.com.br)

O carnaval  e Salvador mostrou que, realmente, 'O Mundo se Une Aqui' – tema adotado para a folia do samba, das batidas dos blocos afro, do balanço do reggae e do toque dos afoxés, evidenciaram as razões que levaram a Bahia a atrair olhares de todo o mundo. Nos vários ritmos que se misturaram na folia do Pelourinho, nos encontros entre artistas do Brasil e nomes internacionais, e no colorido das ruas entre as bandas, grupos, microtrios e nanotrios. Destacou-se o caráter democrático e diverso deste que é o maior evento popular do planeta.

Foto: Alexandra Martins/Secult BA
Para a secretária de cultura do estado, Arany Santana, “o mundo se une na Bahia pela diversidade étnica e cultural que existe aqui. Por ser esse estado único, ele atrai muita gente durante o carnaval, e todos sentem o acolhimento dessa terra que é mãe”, diz.

Centro da diversidade
Ao longo de cinco dias de festa, foram somadas aproximadamente 400 horas de apresentações de música e performances entre as 130 atrações que movimentaram os palcos e ruas do Carnaval do Pelô. A programação têm atraindo milhares de foliões para este que é considerado o melhor circuito para quem busca curtir ritmos diversos com maior tranquilidade e segurança, sem sair do clima de descontração, agito e alegria característicos do carnaval. Entre cantores, músicos e performers, foram cerca de 1.100 artistas envolvidos para fazer a folia acontecer, entre estes, aproximadamente 400 artistas de rua, que fincam no Pelourinho a sua tradição.
Foto: Alexandra Martins/Secult BA
“Podemos dizer e reafirmar que o Pelourinho faz o carnaval cultural da Bahia, mostrando a diversidade e shows de qualidade. Com uma variedade surpreendente de ritmos, de hits para o folião curtir e usufruir. É também um diferencial do Pelô o seu público, crítico, consciente, maduro e com suas convicções do que quer ver, o que contribui para tornar uma festa que todos podem curtir com paz e tranquilidade”, explica a secretária Arany Santana.

O palco principal, no Largo do Pelourinho, em muitos momentos se tornou espaço de empoderamento de mulheres, negros e da população LGBT, mostrando que a diversidade da qual se fala que o Carnaval do Pelô evidencia e valoriza, vai muito além dos ritmos.
Foto: Alexandra Martins/Secult BA
Na abertura, que aconteceu na sexta-feira (01), o público presenciou a união de gerações de mulheres negras, que através da música preservam um legado de resistência e ancestralidade. A voz que abriu os trabalhos foi a da cantora Márcia Short, uma das figuras mais representativas do carnaval baiano. Embora tenha na bagagem a conta de 30 carnavais, destes, 25 no Pelô, esta foi a primeira vez da artista na abertura da folia. A noite foi coroada também com a apresentação de um trio de mulheres que representam uma geração de cantoras, compositoras e instrumentistas do samba de roda do Recôncavo Baiano. Foram elas Maryzélia Santos, Dona Chica do Pandeiro e Mestra Ana, que levaram ao público o “Samba das Yabás”, abrindo as apresentações do Projeto Três Artistas, promovido pela SecultBA via chamamento público e que neste ano selecionou 12 shows para o palco principal.

Reforçando que o mundo se une aqui, o Carnaval do Pelô também fortaleceu conexões entre a Bahia e o berço de nossa cultura, o continente africano, recebendo convidadas internacionais, ainda por meio do projeto Três Artistas. No domingo de carnaval, o Largo do Pelourinho lotou para o encontro da banda camaçariense Afrocidade com a cantora baiana Majur e a angolana Titica, considera mundialmente uma das grandes representantes do ritmo Kuduro. Outra marca importante da apresentação foi fazer subir ao palco principal duas artistas trans, reforçando o discurso de representatividade. Na mesma noite, o Pelô foi palco de mais um encontro da música negra mundial, a Blackfolia World Black Music, dos artistas baianos Daúde e Dja Luz, e da nigeriana Okwei Odili. O repertório uniu música cubana, jamaicana, nigeriana, estadunidense e brasileira.
Foto: Lucas Rosário/SecultBA
A história do carnaval foi contada através de shows como o Baile de Autor, encontro entre Jorge Zarath, Manno Góes e Tenison Del Rey. Os três são autores de músicas que se tornaram hits através de artistas como Netinho, É o Tchan, Banda Mel, Márcia Short, Chiclete com Banana, Ricardo Chaves, Olodum, entre outros, e este passeio por suas carreiras se mistura com a própria trajetória do carnaval. Assim como os carnavais de época, das marchinhas e bailinhos, foram atualizados por shows como do Bailinho de Quinta, junto a Ivan Sacerdote e MorotóSlim, e o Pelô Brasil, projeto que uniu Janaína Carvalho, Pedro de Rosa Moraes e Lala Carvalho.
Foto: Alexandra Martins/SecultBA
A união e colaboração entre cantoras que representam as histórias de empoderamento e resistência das mulheres negras foi o destaque da noite final do Carnaval do Pelô. Os shows Aya Bass e Lindas Pretas Carnavalizando reuniram, respectivamente, Larissa Luz, Xênia França e Luedji Luna; e Nara Couto, Ellen Oléria e Paula Lima. Outros grandes encontros que marcaram os cinco dias de folia foram entre Ganhadeiras de Itapuã, Seu Regi e Grupo Botequim, comemorando os 15 anos do grupo formado por mulheres; as Três na Folia, com Claudia Cunha, Manuela Rodrigues e Sandra Simões; o Musical de Carnaval com Denise Correira, Hugo Sanbone e Diogo Lopes Filhos; e um encontro entre expoentes da nova geração, com a pernambucana Duda Beat, representante da “sofrência pop”, o rapper baiano e gay Hiran, que traz no repertório reivindicações de direitos das minorias, e a baiana radicada no Rio de Janeiro, Illy, representante da música popular brasileira.
 
Orquestras, bailes infantis e atrações do estilos samba, axé, reggae, hip-hop, antigos carnavais, guitarra baiana e arrocha, também selecionadas via chamamento público, movimentaram os cinco dias de folia nos largos Pedro Archanjo, Tereza Batista e Quincas Berro d’Água. O fortalecimento da cultura hip-hop foi uma característica marcante desta edição do Carnaval do Pelô, que ampliou o número de atrações do segmento, contando com a banda feirense Roça Sounds, a ilheense OQuadro, e os soteropolitanos Negro Davi e da banda Opanijé. Mais artistas de fora da capital participaram da folia no Centro Histórico de Salvador, entre eles o grupo de samba Circuladô, de Euclides da Cunha, os artistas consagrados no reggae, Dionorina, de Feira de Santana, e Sine Calmon, de Cachoeira, e ainda o Samba Chula de São Braz, de Santo Amaro.


Todo mundo sabe que a nostalgia é uma das marcas do Carnaval do Pelô, devido à força que tem a folia nas ruas com os bandões e as bandinhas de percussão e de corda percussão, além das performances e dança. Dia e noite, o colorido e musicalidade era espalhado pelas vielas e ladeiras do Centro Histórico, os agrupamentos percorreram, no total dos cinco dias de folia, mais de 200 km. Pra completar, o carnaval dos microtrios e nanotrios passou a ocupar de vez o Pelourinho, foram realizadas 10 apresentações no Terreiro de Jesus, apostando em repertórios de clássicos do carnaval, aspectos cênicos e muita animação. O público conferiu e aprovou os microtrios com Los Cuatro, Banda Marana, Verlando Gomes e Rural Elétrica, Maíra Lins no Boteco Elétrico, Ivan Huol e Banda Microtrio, Sylvia Patrícia e Tuk Tuk Sonoro, e o BaianaFolia; além dos nanotrios Bicicletrio Toca Raul com banda Arapuka, Coletivo di Tambor com Mamah Soares, e o Pelô Bossa Reggae, com Banda Estylo Candeal.