Carnaval

Empodere-se: a moda ditada pela política e pelo feminismo

Hot pants, acessórios com mensagens, adesivo no peito, purpurina no bumbum... O que você vai encontrar nos blocos

Ludmilla de Lima, de Agência O Globo

A sereia e o unicórnio ainda têm seu espaço, mas, neste carnaval, o que elas querem mesmo é colocar o corpo na rua. Sem medo nem neura. As fantasias tradicionais foram ultrapassadas pela moda ditada pelo feminismo, em meio à politização dos foliões. E mesmo os maiôs estão perdendo para as hot pants e os nipple pasties — aqueles adesivos para mamilos hoje encontrados até em lojas como Renner e Farm. A dupla é o que há nesse carnaval.

Foto: Brenno Carvalho | Divulgação

Mas, por trás do que parece ser um simples modismo, há uma mensagem. Há quem faça questão de deixá-la bem clara, em letras garrafais. “Sai machista”, diz um brincão ostentado pela estudante de medicina veterinária Eduarda Kurtz de Carvalho, de 22 anos, que, já no pré-carnaval, foi para a folia de rua com os adesivos de peito.

— Estou usando pela primeira vez. Nos outros anos ainda não me sentia muito segura. Mas muitas coisas mudaram de um carnaval para o outro em relação às mulheres — conta Eduarda, dizendo que recebeu elogios de mulheres e que percebeu olhares masculinos, mas que não se sentiu constrangida. Só em casa foi um “babado” com os pais.

— Nunca comprei o adesivo como adereço, e sim como algo que fosse tipo: “oi, esse aqui é meu corpo, tá calor, não quero fantasias pesadas ou quentes. Quero me sentir à vontade e acabou” — resume a foliona, que criou em uma impressora 3D do namorado uma série de modelos de brincos com pegada política — como o “Sai machista” e o “Não é não” —, feitos de plástico biodegradável, que podem ser vistos no Instagram @dudabrincuda.

Expressões políticas, algumas herdadas dos protestos nas ruas, também têm feito, literalmente, a cabeça de muita gente. Um acessório que está bombando nos blocos entre as folionas (e foliões também) são as tiaras — às vezes em tamanho mega — com palavras como “Não passarão” e “Meu útero é laico”. E, se a internet não perdoa, o carnaval muito menos. Há muita gente brincando por aí com a “Ursal” — sigla de União das Repúblicas Socialistas da América Latina, que virou meme na campanha presidencial.

Criadoras desses adereços, a estudante de história Carolina Corrêa, de 30 anos, e a fotógrafa Taí Caitê, de 34, colocaram na coleção desenvolvida por elas para esse carnaval o nome “Amar e mudar as coisas me interessa mais”. No ano passado, foi “Yes, somos feministas!”. A criatividade da dupla está na rede como @usedesbunde.

— Somos militantes de pautas como feminismo e diretos humanos — conta Carolina, que viu nas tiaras uma forma de chamar atenção para esses temas. — Sempre gostei de inventar coisas para usar. E, quando veio o momento difícil da política, resolvemos fazer as tiaras com essa pegada de empoderamento e tendo o que dizer. Sem o medo de desagradar.

A atriz Julia Tizumba, de 28 anos, integrante do musical “Elza”, usa esses acessórios como bandeiras. Num deles, levanta o verso de Caetano “gente é pra brilhar”:

— Eu acredito muito na arte como forma de sensibilização das pessoas e como ferramenta de transformação.

Bumbum purpurinado

No carnaval retrasado, foi a vez do maiô. Muitas vezes, só com pochete. Mas como o carnaval do Rio nunca é igual, a moda nos blocos seguiu em frente, e agora a febre é das hot pants (peça que vestia a Mulher Maravilha da TV na década de 1970). Tem quem use com meia arrastão e até mesmo com um quimono, como tem garotas que preferem só o shortinho retrô, sem disfarces. Por falar nele, cobri-lo com purpurina é outra onda que pegou agora.

Cantora do Bloco Fogo e Paixão, de música brega, Mariana Guedes, de 31 anos, fala dessa evolução:

— Esse movimento cresceu com as mulheres que buscam se sentir mais à vontade. Quando todas começam a sair dessa forma, esse respeito só aumenta.

Mariana lembra que, há alguns anos, passou a vestir nos shows maiô com saia. Depois, maiô com meia arrastão. Hoje é só hot pant com purpurina.

— Não gosto de meia arrastão, me incomoda, acho quente — afirma, acrescentando: — Adesivo no peito ainda é um processo para mim.

A figurinista Daphne Ramos, de 24 anos, há alguns carnavais faz as suas próprias hot pants, que passou a vender. Elas servem como base para qualquer produção, explica a dona da marca Aurora:

— A hot pant tem a ver com a galera querendo ousar mais na criatividade e com a aceitação do próprio corpo. Quem só usava no ano passado com meia arrastão, hoje não está ligando para celulite.

Portanto, a dica para esse carnaval é: empodere-se.