Carnaval

Malê Debalê e Muzenza correm risco de não sair no Carnaval

Os dois blocos afros, assim como o Ilê, estão endividados e não têm patrocínio para este ano

Roberto Midlej (roberto.midlej@redebahia.com.br)

As dificuldades financeiras do Ilê Aiyê foram reveladas na edição de ontem do CORREIO. A instituição declarou que possui uma dívida de R$ 600 mil. Mas a situação de outros tradicionais blocos afros de Salvador não é diferente: Malê Debalê e Muzenza, segundo seus presidentes, não teriam condições de desfilar caso o Carnaval fosse hoje.

“Se o Carnaval acontecesse hoje, não sairíamos. Normalmente a 20 dias do Carnaval nossos contratos de patrocínio já estão fechados. E às vezes já temos dinheiro na mão. Mas neste ano é uma incógnita”, diz Jorge Santos, presidente do Muzenza.

Claudio Araújo, presidente do Malê Debalê, é ainda mais enfático: “É bem provável que na próxima semana, na terça ou quarta-feira, eu, lamentavelmente, comunique à Bahia que o Malê, maior balé afro do mundo, não vai desfilar”.


Foto: Marina Silva/Arquivo Correio

Segundo Claudio, parte dos patrocinadores da instituição tem um débito de R$ 190 mil com o bloco, oriundo do Carnaval de 2016. Com isso, o Malê não pôde quitar dívidas a fornecedores e prestadores de serviços. “Estamos devendo a costureiras, seguranças, cordeiros e também à empresa que nos alugou o trio elétrico”, revela o presidente.

Segundo Claudio,  o total de dívidas do Malê Debalê é de aproximadamente R$ 180 mil. “Só à empresa que fornece o tecido das fantasias, a gente deve R$ 30 mil. No ano passado, a essa altura, os tecidos já estavam em nossas mãos, sendo encaminhados para as costureiras. Mas neste ano não pudemos encomendar os tecidos porque não sabemos se poderemos pagar”.

O presidente do Malê Debalê diz que, para ir às ruas em três dias de Carnaval, o bloco precisa de R$ 900 mil. “Mas, até hoje, não recebemos nada das empresas que costumam nos patrocinar. Somente a Caixa Econômica Federal sinalizou que vai patrocinar. Mas, ainda assim, nos entregará somente 10% de tudo o que a gente precisa”, queixa-se Claudio. O Projeto Ouro Negro, do governo estadual, também deve ceder uma cota, que, segundo o presidente do Malê, será de 25% do total que o bloco necessita.

O Muzenza, que costuma sair com cerca de 2,5 mil foliões, não quis informar ao CORREIO os custos de seu desfile. “Tem um patrocinador com o qual estamos negocinado e há uns 80% de chances de fechar esse contrato. Mas essa verba não é suficiente”, diz Jorge Santos.

O CORREIO procurou também o presidente em exercício dos Filhos de Gandhy, Francisco Lima, que optou por não falar com o jornal, pois estava participando da festa de Iemanjá. A reportagem também contactou o Olodum, mas não obteve resposta até o fechamento da edição. 

Petrobras 

Ontem, o CORREIO revelou que o Ilê Aiyê possui uma dívida de R$ 600 mil. O bloco alegou que parte desses débitos surgiu porque há uma dívida de quase R$ 400 mil da Petrobras à instituição.

Em nota enviada ao jornal, a Petrobras respondeu às acusações da entidade: “O patrocínio ao projeto Ilê Aiyê Construindo o Futuro (...) tem um saldo contratual correspondente a 20% do valor total, que só poderia ser pago após o cumprimento integral do que foi previsto em contrato. (...) Foi verificado que as ações previstas no plano de trabalho (...) não foram integralmente executadas. A instituição também não alcançou a meta de  participantes previstos por ela no plano de trabalho, onerando o custo per capita do projeto.  Dessa forma, não foi possível a liberação dos recursos restantes”. Na próxima segunda-feira, o bloco terá uma reunião com representantes da estatal.