Coisa de Cinéfilo

O que esperar de Cruella, da Disney?

Ideia principal do longa é mostrar o surgimento de uma das vilãs mais emblemáticas dos clássicos da Disney; confira crítica

Marcela Gelinski, Coisa de Cinéfilo

Trilhar um caminho que já foi percorrido por Glenn Close não é exatamente uma tarefa fácil. Mas Emma Stone mostrou que não é apenas mais uma garota privilegiada de Hollywood, ao encarnar a pele da vilã Cruella, no filme que mostra a história da sua origem como antagonista. 

A ideia principal do longa é mostrar o surgimento de uma das vilãs mais emblemáticas dos clássicos da Disney. Cruella é sarcástica e impaciente. Trajada sempre na elegância, ela não tem escrúpulos algum no trato com as pessoas, muito menos com os animais. Seu olhar é maquiavélico e sempre revela uma loucura insana que corre nas suas veias.

Mas o que a levou a ser assim? É nisso que o filme se foca.


Uma garotinha que sofria bullying desde cedo, por conta de seu cabelo diferente e multicolorido, assiste ao assassinato brutal da mãe e acaba caindo na vida do crime como única alternativa à vida naquele momento. Foi assim que se deu início à história de Estella e os percalços que a levaram a se tornar posteriormente em Cruella. 


A menina tem um talento nato para moda e sonha em trabalhar em um dos ateliês mais famosos da época, sob a tutela da famosa Baronesa Von Hellman (Emma Thompson). O roteiro segue um caminho um pouco óbvio de tentar humanizar a personagem que sempre foi tida por sua insanidade e crueldade. 

A relação com os cachorros neste filme é bem diferente do que estamos habituados. Ela chega a ter um cachorrinho que a acompanha em muitos momentos. Bem diferente do ódio pelos dálmatas que víamos anteriormente. Embora isso seja toscamente pontuado no filme, é um dos principais pontos para criar empatia por parte do público.  

Roteiro sem a escuridão necessária

Cruella é uma das vilãs mais insanas que a Disney já produziu, inclusive foi alvo de muitos questionamentos por se tratar de uma personagem dentro de um longa infantil. O roteiro deste live-action não honra a intensidade da personagem. Ele passeia muito displicente por vários espectros, tornando-a comum e apenas mais uma fruto das dores de um passado de vida castigada. 

Cruella, a original, claramente tem traços de psicopatia que não são perpetuados ao longo da maior parte do filme. Quando chegamos na última parte do longa, o roteiro decidir plantar essa ideia em nossas cabeças, mas já é tarde demais. Podemos fazer um paralelo com “Coringa” (2019), filme protagonizado pelo genial Joaquin Phoenix, que tem a mesma proposta de contar a história de um vilão. Lá, no entanto, o roteiro se equilibra perfeitamente entre a loucura patológica de Arthur Fleck e os episódios cruéis de sua vida, que despertaram ainda mais a sua ira. 

Aqui em “Cruella”, o que vemos é uma falta de maturidade na vilã. O roteiro passa muito tempo criando empatia por parte do espectador, que, ao final, não consegue mais visualizar a personagem como verdadeiramente cruel. 

Emma consegue superar Gleen Close?

Quando surgiu o primeiro vislumbre do roteiro deste novo live-action, a primeira pergunta que surgiu para todos foi: quem viverá o papel icônico de Cruella? Gleen Close já o havia feito no longa “Os 101 Dalmatás” (1996), e protagonizou a vilã de maneira formidável. 

Close pegou essa aura insana do desenho animado e conseguiu transpor com perfeição ao live-action, conferindo mais alguns detalhes que eram perdidos na animação. Sua risada foi marcante o suficiente para gerar o terror nas crianças e a cena dela dirigindo raivosa em seu carro, correndo atrás dos cachorrinhos, é realmente incomparável.

Mas o que Stone fez por Cruella? Trouxe uma nova roupagem mais fashionista para a protagonista. Ela foca na moda e nos apresenta momentos similares ao ótimo filme “O Diabo Veste Prada”, com desfiles e looks deslumbrantes. Além disso, Emma é uma excelente atriz que se dedica completamente à construção de seus papéis. Somos presentados com uma cena-chave na mudança da personalidade de Estella, em que notamos a vilã surgindo na decepção da jovem castigada pela vida.  

Ainda assim, carece mais intensidade na personagem, falta um pouco de alma na atuação de Stone. Por mais que a proposta do filme seja a construção da vilã, se torna pouco convincente que ela seja a Cruella que conhecemos, já que o ódio e a crueldade não exalam de seus poros. Mas atribuo isso muito mais ao roteiro do que à atuação em si. 

Então, o que esperar?

“Cruella” tem muitos pontos positivos que o tornam um filme interessante de se conferir. Envolvido numa trilha sonora excelente e cuidadosamente escolhida, a aura punk da personagem e o estilo de Emma Stone conferem uma boa experiência ao espectador. No entanto, é preciso se descolar da ideia da Cruella que conhecemos, porque qualquer expectativa criada pode levar a um nível de frustração que interfira na experiência. 

Nota sobre a Disney+

O live-action entrou no catálogo do streaming na opção de Premier Access. Isso significa que o usuário, que já paga a mensalidade do Disney+, precisa desembolsar mais (pasmem) R$ 69,90. Um padrão que vem sendo imposto pelo estúdio para os lançamentos próprios na plataforma. O que é uma contradição, se comparado à sua concorrente Netflix, que lança dezenas de conteúdos e não cobra um centavo a mais por isso. 

Marcela Gelinski, editora do site Coisa de Cinéfilo