Conexões e Negócios

Afinal, criatividade para quê(m)?

A criatividade foi apontada pelo relatório “The Future of Jobs” como uma das principais competências necessárias ao profissional contemporâneo

Rodrigo Almeida*

Lado a lado às habilidades associadas aos pensamentos crítico e analítico, e à capacidade de resolver problemas complexos, a criatividade foi apontada pelo relatório “The Future of Jobs”, difundido pelo Fórum Econômico Mundial, como uma das principais competências necessárias ao profissional contemporâneo da indústria 4.0.

O 10º relatório anual de Tendências Criativas para 2021, elaborado pela Shutterstock, revelou o inexplorado como uma das tendências para “ficarmos de olho”, apontando o quanto profissionais de criação estão dedicados a descobrirem algo novo, propondo, inclusive, fenômenos conectivos e desconhecidos entre corpo e mente, uma nítida referência ao inovador criativo e disruptivo.


Acontece que, enquanto a criatividade é sinalizada por empresas e headhunters como habilidade essencial para o exercício laboral, a sociedade cria uma mística sobre a competência, como se ‘ser criativo(a)’ fosse algo exclusivo para profissionais eleitos e superiores, desconsiderando-a como aptidão a ser estimulada, provocada, orientada e desenvolvida.

A fim de explorar o entendimento social sobre criatividade, indaguei a 4 pessoas – com diferentes perfis - sobre qual conceito atribuem quando questionados: o que é criatividade?

Segundo a executiva Daniela Lacerda, CEO da rede de supermercados Corujão24h, “Criatividade é uma maneira de agir, sem receio aos julgamentos”. Para o artista plástico Alberto Pitta, “Criatividade é o ato de criar e esse está necessariamente ligado ao momento de inspiração, pois é preciso estar acima de tudo motivado, mesmo em estado de caos, estado caótico”.

Quando abordo Diara Akinlana, de apenas 4 anos, e pergunto “o que é criatividade?”, ouço um sonoro, rápido e divertido: criatividade é ir para a escola, em uma referência lúdica e inocente ao seu compromisso diário e interativo.

Na busca por uma definição acadêmica, solicitei à Dra. Camila de Sousa Pereira-Guizzo, Mestre e Doutora em Educação Especial pela UFSCar. Professora Adjunta do Centro Universitário SENAI CIMATEC e Orientadora de pesquisa no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu, uma classificação sobre a criatividade.

“Uma das definições de criatividade, de acordo com a literatura da área, refere-se à capacidade de uma pessoa realizar uma produção que tenha originalidade e utilidade; e que seja adaptada ao contexto. A expressão da criatividade é influenciada por diferentes variáveis pessoais e contextuais. A Identificação de variáveis do ambiente que podem favorecer a expressão criativa tem sido foco de muitos estudos na atualidade”, explica.

O fato é que criatividade está diretamente associada a estímulos e ação, seja pelo olhar do empresariado ou da criança, do artista ou da academia, do crítico ao leigo. Criatividade está muito mais vinculada ao desenvolvimento, exercício e provocação, do que a um “dom” pertencente aos eleitos.

Ser/estar criativo(a) exige flexibilização de pensamentos, tolerância aos erros, questionamentos constantes e muita, muita ousadia para se permitir romper o óbvio. Extrapolar o indubitável promovendo novas conexões não costuma ser um movimento natural às pessoas mais críticas, mas sim a um trabalho de despertar da consciência e afrouxamento de regras rígidas.

Mas então, conscientes de que o exercício criativo demanda provocações, rupturas, questionamento e ação, desperto de volta à reflexão: afinal criatividade para quem e para quê?

1) Para todos! Desde o paleolítico – ou Idade da Pedra Lascada – mediante a produção das primeiras ferramentas e instrumentos de trabalho, avançando à arte rupestre e as manifestações da natureza, que o sujeito revela a sua capacidade inventiva e criativa.

Expressa e manifesta de diversas maneiras, ser criativo(a) é para todos que se permitem à experiência associada à experimentação contínua. Ser criativo, ou estar criativo, é uma capacidade inerente a todos os indivíduos, necessitando somente de desafios, estímulos e iniciativas.

2) Para inovar e sobreviver às adversidades. Para promover mudança em cenários estruturados, questionando formas de fazer e renovando formatos arcaicos. Para sobreviver em meio às adversidades, criando possibilidades e oportunidades antes “impossíveis” ou “impensadas”, reconhecendo a capacidade humana de adaptabilidade ao meio e transformação do ecossistema social.

Como um vetor de transição e renovação, a criatividade serve para que o homem possa transformar e integrar a realidade naquilo que amolda, reagindo a crises e intempéries da forma mais adequada e oportuna possível.

Potencializada quando em grupos multidisciplinares, diversos em aspectos socioculturais, econômicos e comportamentais, a criatividade quando estimulada nos ambientes organizacionais promove assertividade de ações, adaptabilidade às mudanças, diálogo plural extensivo aos públicos, desenvolvimento tecnológico e inovação contínua.

Promover ambientes criativos, entendendo que a criatividade é intrínseca à realidade humana, é reconhecer potencialidades de mudanças e mobilidades individuais e coletivas.

Entendido isso, deixo um último pedido: assumir-se criativo(a) é um compromisso que vocês vão proclamar a partir de agora.

Combinados?

Por – Rodrigo Almeida

Relações Públicas, Mestre em Gestão e Tecnologia Industrial (SENAI - Cimatec), pós-graduando no programa de MBA em Tendências e Inovações, Palestrante, Professor Universitário de pós-graduação, Consultor e Diretor da agência CRIATIVOS.