Conexões e Negócios

No Brasil, 50,4% dos empreendedores iniciais são motivados pela necessidade

Existem 11.262.383 MEIs ativos no Brasil, de acordo com o Mapa de Empresas do Ministério da Economia

Rodrigo Almeida*

“Sandra é uma microempreendedora individual como tantas outras brasileiras. Mulher, 35 anos, parda, ensino médio completo e empresária à frente do Look Fashion Delivery, Sandra viu no empreendedorismo a possibilidade de educar os seus dois filhos, auxiliar o seu marido desempregado, equilibrar as contas da casa e ainda realizar sonho de ter o próprio negócio.


Antes de se tornar MEI, a empreendedora, que vive em um bairro de classe média da capital baiana, já vendia roupas ‘de porta em porta’ na informalidade, apostando em uma clientela feminina fiel e entusiasmada, que enxerga em Sandra uma mulher forte, de bom gosto, independente e criativa.


Agora em 2021, apesar de ainda levar as suas roupas até a casa da cliente, Sandra também comercializa as peças através de um e-commerce bem-organizado e do seu perfil no Instagram, onde consegue expandir as vendas, aproximando as clientes da sua revenda, sempre com muito carinho, determinação e incansáveis horas de trabalho".

Para quem já chegou até aqui, essa é a história de Sandra, personagem fictícia que representa a narrativa de uma, entre os 11.262.383 de MEIs ativos no Brasil, de acordo com o Mapa de Empresas do Ministério da Economia, em referência ao terceiro quadrimestre de 2020.

Utilizando o modelo simplificado de negócios para quem trabalha por conta própria e sem a necessidade de regulação por conselhos de classe, a possibilidade de atuação no modelo MEI (Microempreendedor Individual), tornou-se alternativa para 56,7% do total de negócios em funcionamento no país – segundo o Ministério da Economia, revelando um cenário crescente de desemprego e a principal opção para a população se manter economicamente ativa em um contexto de recessão.

Conforme dados da Receita Federal, em 2020 foram inscritos 2,6 milhões de novos MEI, maior número registrado nos últimos cinco anos. Entre os destaques, 180 profissionais atuam no Comércio Varejista de Vestuário e Acessórios; 140 mil na Promoção de Vendas; 131 mil no ofício de Cabeleireiros, Manicure e Pedicure; 106 mil operam no Fornecimento de Alimentos para Consumo Domiciliar; e 105 lidam com Obras de Alvenaria.

Tão importante quanto incentivar o desenvolvimento do pequeno empreendedor, o fortalecimento do comércio local e a relevância do trabalhador formalizado, é também significativo assimilar o que está por trás desse cenário empresarial.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2020 cerca de um milhão de empresas finalizaram as suas atividades e aproximadamente 13,4 milhões de pessoas encerraram o ano desempregadas. Hoje, considerando os dados do primeiro trimestre de 2021, já são 14,8 milhões de pessoas potencialmente ativas na busca por um emprego.

Previsto através da Pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), em colaboração com o Sebrae, o crescimento do empreendedorismo no Brasil já era uma realidade esperada. Isso porque indicativos apontavam que em contextos de recessão econômica, o brasileiro recorre ao empreendedorismo por necessidade, como alternativa para geração de renda e ocupação laboral.


Com renda média mensal de R$ 4.400,00, para uma família de 4 pessoas, entender o contexto empreendedor é importante em cenários cada vez maiores de glamourização do empresariado, onde ‘empreender = sucesso profissional, enriquecimento e independência financeira’. 

Enquanto para Sandra - nossa personagem fictícia -, ter o seu próprio negócio já era um sonho, dados do Sebrae apontam que em 2020 o número de empreendedores iniciais motivados por necessidade cresceu de 37,5% para 50,4%, revelando a assustadora conclusão de que metade da população empreendedora do país atua à princípio por escassez e/ou necessidade.

Carentes de políticas públicas que verdadeiramente estimulem o crescimento dessas jovens empresas, muitos profissionais MEIs não conseguem capitalizar os seus negócios, seja por total desconhecimento do mercado, falta de incentivos administrativos ou suportes de governança.

Estimular o pequeno empreendedor através da compra e aquisição de serviços, reconhecendo os seus contextos e dificuldades, é uma forma do cidadão auxiliar no desenvolvimento econômico do país, sem se apropriar da responsabilidade do estado. Cobrar atuação governamental na formação continuada do pequeno empresário é também um compromisso que deve ser firmado pela população e pela categoria. 

Mais do que glamourizar o empreendedorismo inicial, encorajando ilusões de fórmulas mágicas para o sucesso, é importante fortalecer a rede de consumo, buscando proporcionar crescimento, fortalecimento e desenvolvimento para quem começou o negócio, acreditando que essa era a única forma de se manter ativo(a) no jogo.



Rodrigo Almeida* - @rodrigoalmeidarp

Relações Públicas, Mestre em Gestão e Tecnologia Industrial (SENAI - Cimatec), pós-graduando no programa de MBA em Tendências e Inovações, Palestrante, Professor Universitário de pós-graduação, Consultor e Diretor da agência CRIATIVOS.