Coronavírus

Médicos alertam para aumento de internações de grávidas em UTIs com Covid-19

Na pandemia, a gravidez também é fator de risco de doença e morte

Ana Luiza Azevedo, Agência O Globo

Até a Covid-19 quase lhe roubar a vida, Juliana Vidal, de 28 anos, se considerava uma jovem saudável. Grávida de seu segundo filho, sem comorbidades e ativa, Juliana nunca entraria numa lista de grupo de risco. Mas seu caso, de tão grave, comove e impressiona os médicos do Instituto Estadual de Infectologia São Sebastião (IEISS). Também mostra como o coronavírus continua sendo um inimigo imprevisível.

A força dela e a dedicação dos médicos trouxeram ao mundo Joaquim. Ele chegou na virada de 24 para 25 de dezembro, num Natal inesquecível para a equipe que às pressas ajudou a grávida que lutava pela própria vida a dar à luz um menino.

Consultora de vendas, ela só ia de casa para o trabalho, em São Gonçalo. Começou a apresentar sintomas em 21 de novembro. Passou dez dias peregrinando por atendimento em hospitais de sua cidade, mas não conseguia sequer diagnóstico. Ouviu que não era Covid-19, era ansiedade e que “queria pegar o vírus”. Pouco depois desmaiou e uma das últimas coisas que se lembra é que chegou transferida ao IEISS já com 95% dos pulmões comprometidos:

"Daí em diante, tudo o que via eram máscaras"

Ela teve alta da UTI e entrou em trabalho de parto. Mal nasceu, Joaquim, prematuro, de 29 semanas, precisou de uma máscara de oxigênio. A mãe foi para casa em fevereiro, após 52 dias de internação e 18 dias de tubo. O filho teve alta apenas em 3 de março, mas precisa de acompanhamento médico.

Gestantes personificam a celebração da vida. Mas na pandemia, a gravidez também é fator de risco de doença e morte. Médicos alertam que as gestantes correm um perigo maior e deveriam ter prioridade no acesso a tratamento, incluindo internação em UTI, e a testes de diagnóstico. Se na primeira onda, as gestantes não chegaram a causar especial preocupação, agora o quadro é outro. Médicos têm observado um número maior delas nas UTIs, à medida que aumentou também o de jovens — os casos entre eles, segundo a Fiocruz, cresceram mais de 500%, de janeiro a março.

A infectologista do IEISS Ana Luiza Oliveira conta que os idosos quase já não estão mais internando, possivelmente já pelos efeitos da vacina, mas que agora os jovens, muitos sem comorbidades, predominam nas UTIs e as gestantes estão entre eles. A situação das grávidas preocupa mais porque o risco delas é maior. Um estudo da Universidade de Washington publicado em fevereiro estima que a Covid-19 é 70% mais frequente em gestantes do que em mulheres da mesma faixa etária. Já uma pesquisa do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA com 400 mil mulheres com coronavírus, 23.434 das quais grávidas, chegou à conclusão de que a gestação é fator de alto risco de agravamento da Covid-19. A chance de uma gestante ser internada em UTI foi 62% maior que a de mulheres da mesma faixa etária. A de intubação foi 88% maior.

A gestação reduz a atividade do sistema imunológico para que o bebê não seja rejeitado. O útero dilatado comprime o diafragma e isso reduz a capacidade pulmonar. A grávida costuma sofrer ainda inflamação e tem uma maior tendência à formação de trombos, ambos fatores de agravamento da Covid-19. E se soma a isso tudo o fato de que muitas gestantes apresentam com frequência as comorbidades mais associadas à Covid-19: obesidade, hipertensão e diabetes.

Não há comprovação de que o coronavirus pode ser transmitido durante a gestação, mas a inflamação e a infecção da mãe podem afetar o feto, com consequências ainda incertas. Na linha de frente do tratamento de gestantes desde o início da pandemia, a infectologista Raíssa Perlingeiro diz que parte do agravamento se deve à demora no diagnóstico e em conseguir vaga para tratamento adequado.

Perlingeiro, de 32 anos, compreende o drama como poucos. Ela própria espera o primeiro filho, numa gestação descoberta num plantão. Com 22 semanas de gestação de Heitor, decidiu continuar no atendimento da UTI:

"Foi uma decisão difícil, mas era o certo a fazer".

Uma das que precisou de ajuda foi Francinete Pacheco Correia, de 37, hipertensa e diabética. Na segunda gestação, acabou pegando Covid do marido, em fevereiro. Sua filha nasceu de cesariana de emergência na UTI, com 38 semanas. Ela só conheceu a filha depois de 14 dias, quando saiu do tubo. A menina que se chamaria apenas Quésia passou a ser também Vitória, em celebração às vidas salvas de mãe e filha.