Memórias da Bahia

A Bahia das orquídeas

Eduardo Guinle, orgulhava–se de ter adquirido na Bahia, um magnífico orquidário com mais de uma centena de espécies raras

Nelson Cadena

Os seletos visitantes, dentre os quais muitos estrangeiros, que visitavam o Palácio das Laranjeiras no Rio de Janeiro na segunda década do século XX, impressionavam-se com sua fachada inspirada no traçado de Garnier para o Casino de Monte Carlo; admiravam as belas esculturas de Guillaume e Gardet; as obras de arte espalhadas pelos oito salões; invejavam os finos móveis da Maison Bettenfeld. No meio desse monumento de opulência, ao entardecer sentia-se a fragrância de flores que o seu proprietário, Eduardo Guinle, orgulhava–se de ter adquirido na Bahia, um magnífico orquidário com mais de uma centena de espécies raras.

O empreiteiro e industrial visitava com frequência Salvador, seu irmão Guilherme Guinle era o responsável pela eletrificação dos bondes da cidade alta; mais tarde eletrificaria e modernizaria o Elevador Lacerda. Eduardo tinha sido escolhido por J. J Seabra para construir a Avenida Sete, como contrapartida de sua intermediação junto aos bancos estrangeiros para obter o financiamento da obra. Em uma de suas costumeiras viagens a Salvador conheceu o Coronel Pedro Amorim, proprietário da Chácara Boa Sorte, em terreno de 45.000 M², localizada na rua principal de Brotas.

Foto: reprodução / Pixabay
Eduardo foi conhecer o orquidário, então tido como a maior coleção do Brasil e uma das maiores do mundo. O Coronel Amorim mostrou ao visitante os seus jardins com variedade de crisântemos, hortênsias, avencas, fetos…expôs as suas dez mil roseiras com matrizes adquiridas na Filadélfia e Nova Iorque, junto a Peter Henderson e Conard Jones, os mais seletos fornecedores de rosáceas no mundo e a sua invejada coleção de 30 mil orquídeas. Eduardo Guinle não resistiu, propôs ao Coronel comprar o orquidário, fechou negócio adquirindo um terço dele para o Palácio das Laranjeiras a um custo estimado de 75 contos de reis, valor de um sobrado e de alguns terrenos dados em troca.

Pedro Amorim era um apaixonado por flores, formou a sua invejável coleção de orquídeas ao longo de mais de uma década, adquiria as matrizes de países asiáticos, Europa e de toda a América. Era um hobby e, também, um negócio. Tornou-se o maior fornecedor de flores de Salvador para banquetes, recepções em hotéis, casamentos, aniversários, qualquer evento onde predominasse o luxo. Os baianos adoravam flores e as cuidavam nos jardins públicos e ter uma mesa decorada com orquídeas e rosas em um café fino, ou restaurante, era um privilégio e motivo de orgulho.

Nas festas da primavera a Chácara Boa Sorte participava dos afamados concursos do Ponto Chic, estabelecimento que promovia o principal evento da estação em Salvador. Sempre era premiada. Para manter em dia o seu admirável orquidário o Coronel Amorim mandou construir um reservatório de água com tanque de aço e capacidade de armazenar até 64 mil litros. O famoso orquidário de Brotas, a lamentar, deixou de existir quando ninguém da família deu continuidade à magnífica coleção.



E assim a Bahia ficou menos cheirosa. Perdeu o aroma das orquídeas do Coronel Amorim; a fragrância dos roseirais da Chácara Pinheiro no Rio Vermelho; perdeu as floradas das laranjeiras com seu cheiro peculiar, no Cabula e outros bairros; viu desaparecer as amoreiras da Baixa do Bonfim e da Avenida Dendezeiros onde os bichos de seda teciam seus ricos fios. Perdeu perfumes e cores. Com o fim das orquídeas a Bahia perdeu um pouco de sua beleza, delicadeza, amor, pureza e elegância, qualidades que o filósofo Confúcio atribuía às flores da espécie.