Memórias da Bahia

A festa do 2 de Julho na mídia baiana do século XIX e inícios do século XX

Um dia o povo de fato se incorporou ao desfile, a partir de 1828, com a introdução do carro do caboclo no cortejo e logo mais dos batalhões patrióticos formados por civis

Nelson Cadena

No ano seguinte ao fim da Guerra da Independência um jornal baiano descreveu os festejos do 2 de julho, vamos chamar assim por força de hábito, na verdade não passou de um desfile militar igual a tantos outros realizados antes do conflito. A matéria foi publicada em 06 de julho de 1824, no jornal O Grito da Razão. A sua importância está na detalhada descrição do evento o que desqualifica a versão assumida por muitos historiadores de que nasceu como resistência, seria um movimento popular. Não era, mesmo.

O equívoco dessa percepção, já tive a oportunidade de escrever neste espaço ao respeito, nasceu da falaciosa história contada por Manoel Querino: o índio velho que teria desfilado, por iniciativa do povo, numa carroça abandonada que populares resgataram no campo de guerra de Pirajá. Uma versão que Manoel Querino e, apenas ele, ouviu como tradição popular, mais de 80 anos após o suposto fato ocorrido.

Foto: reprodução / Memórias da Bahia
A longa reportagem de O Grito da Razão nos dá conta do Te-Deum na Catedral, da impecável formação dos batalhões militares, da marcha pelo centro da cidade, a salva de tiros nas fortalezas, “na maneira do costume”, ressaltou o jornal. A narrativa fala dos “Vivas” às autoridades, da cidade toda iluminada à noite, “algumas pessoas o fizeram por três dias”, esclarece. Esses elementos descritos eram comuns nas festas cívicas, desde o século XVIII, nenhuma novidade e o papel do povo era assistir, não integrava nenhum cortejo. Aplaudia das sacadas, das janelas, ou mesmo, da rua. Outra reportagem, publicada no ano seguinte, descreveu a exibição de um retrato do Imperador no palanque. Tudo muito oficial. Cadê o povo?

Um dia o povo de fato se incorporou ao desfile, a partir de 1828, com a introdução do carro do caboclo no cortejo e logo mais dos batalhões patrióticos formados por civis, inclusive o da imprensa. Pela mesma época os jornais passaram a publicar edições especiais comemorativas da efeméride do 2 de julho. A mais antiga que eu conheço é de 1832, edição extraordinária da Gazeta da Bahia, contendo sonetos e um hino da Independência até hoje inédito, de autoria desconhecida. Logo mais, em 1836, nasce um jornal denominado “Pirajá”, circulava na semana da festa. As publicações aqui referidas eram impressas na Tipografia da Viúva Serva & Filhos.
Foto: reprodução / Memórias da Bahia
Três anos depois é lançado o “Dois de Julho”, distribuído pelo Jornal Aurora. Com o mesmo nome de Dois de Julho circularam nesta cidade jornais alusivos ao evento em 1849 e 1858 e ao longo do século XIX outras publicações específicas e suplementos da grande imprensa. No Século XX, Abílio Bensabath, notável publicista, o maior de seu tempo, editor contumaz de publicações especiais, lança a Revista Cívica publicada anualmente contendo matérias históricas e muitos anúncios.

Por ocasião do Centenário da Independência, em 1923 Bensabath se superou. A revista circulou com mais de 60 páginas, farta matéria editorial e reclames. Nessa data histórica do Centenário os principais jornais de Salvador publicaram suplementos e chamadas abrangendo toda a primeira página, vide O Imparcial, A Tarde e o Diário da Bahia. Dentro de quatro anos certamente teremos edições especiais da imprensa em suas várias plataformas, comemorativas do bicentenário.
Foto: reprodução / Memórias da Bahia
Publicado no Correio ** em 28 de junho de 2019