Tecnologia

Atenção, pais: parem de compartilhar vídeos sobre o desafio da boneca Momo

Há boatos de que conteúdo que incita a automutilação estaria disponível na versão infantil do YouTube, mas material está circulando é em grupos e redes sociais de pais

Sérgio Matsuura, da Agência O Globo

Após provocar pânico pelo WhatsApp, o desafio da boneca Momo está de volta, e com uma pequena ajuda dos pais. Desde o mês passado, estão circulando nas redes sociais vídeos infantis que, de repente, são cortados e substituídos pela imagem que foi associada ao desafio, ameaçando e dando ordens de automutilação. Os relatos afirmam que as imagens foram capturadas do YouTube Kids, um aplicativo criado exclusivamente para menores de 13 anos, mas sem nenhum link ou referência gráfica ao aplicativo. E todo esse alvoroço, que se reflete em buscas na internet, está impulsionando esse conteúdo on-line, tornando-o mais acessível para as crianças.

Foto: Reprodução
Nas buscas realizadas pelo GLOBO foram identificados três vídeos diferentes. Um com os personagens de “Peppa Pig”; outro sobre o clipe “Baby Shark Dance”, da dupla Pink Fong; e o terceiro num vídeo de uma menina brincando com slime. Neste existe uma marca d’água de um site chamado GuffDump.com. Informações do site who.is mostram que o endereço foi registrado no dia 16 de fevereiro. A conta no Twitter, também criada em fevereiro, tem apenas três publicações, sendo a primeira o vídeo com o desafio Momo.

A Revista Crescer publicou uma matéria afirmando que um desses vídeos burla a segurança do YouTube Kids, com base no relato de uma mãe que recebeu o conteúdo por um grupo de WhatsApp. Ao conversar com a filha, a menina contou, assustada, que já havia visto o material. Relatos parecidos estão viralizando no Facebook e em grupos de pais no WhatsApp, e vídeos sobre o tema estão sendo publicados aos montes no YouTube.

Apuração do Ministério Público da Bahia
Com base nesse material, o Ministério Público da Bahia abriu no sábado um procedimento para apurar o caso. Foram enviadas notificações para Google e WhatsApp pedindo informações e a remoção desse conteúdo, num prazo de 24 horas.

— Não há uma prova de que o vídeo com a boneca Momo foi veiculado no YouTube Kids. Houve um relato na imprensa e nós instauramos o procedimento imediatamente — explicou o promotor Moacir Nascimento do Núcleo de Combate a Crimes Cibernéticos (Nucciber) do MP. — Não é dizer que o Google e o WhatsApp sejam culpados. Culpado é quem fez o vídeo. Nós queremos saber é em que medida essas empresas podem ajudar.

Em comunicado, o YouTube afirma não ter recebido “nenhuma evidência recente de vídeos mostrando ou promovendo o desafio Momo no YouTube Kids“.

“Conteúdo desse tipo violaria nossas políticas e seria removido imediatamente. Também oferecemos a todos os usuários formas de denunciar conteúdo, tanto no YouTube Kids como no YouTube“, diz a companhia, destacando que menores de 13 anos devem ter o uso restrito ao YouTube Kids, com supervisão de pais ou responsáveis. “É possível que a figura chamada de “Momo” apareça em vídeos no YouTube, mas somente naqueles que ofereçam um contexto sobre o ocorrido e estejam de acordo com nossas políticas”.

Contatado, o WhatsApp não se manifestou até a publicação desta matéria.

Como funcionam os algoritmos?
Os relatos afirmam que as pessoas por trás desses vídeos hackearam o YouTube Kids para burlar a segurança do aplicativo, mas, na verdade, são os pais que estão sendo hackeados. Ao gerar o pânico, pais desesperados correm atrás de informações, buscam pelos vídeos no YouTube e, dessa forma, fazem com que os algoritmos de buscas aumentem a relevância do termo “Momo”. O Google Trends, por exemplo, registra um aumento repentino nos últimos dois dias para as buscas “momo aparece em vídeos”, “vídeo momo slime”, “vídeos momo slime”, “momo em vídeos de slime”.

O efeito perverso dos algoritmos é que com o aumento das buscas com o termo “momo” relacionado a “slime”, é maior a probabilidade de uma criança buscar por “slime” e se deparar com um vídeo com referência ao desafio “Momo”. A preocupação dos pais é justa e compreensível, mas, pelo bem das crianças, parem de repassar esses vídeos em grupos de WhatsApp e de publicá-los no Facebook e no YouTube. Os vídeos existem, mas quem está fazendo a divulgação deles na rede são os pais.

No Reino Unido, esses vídeos também circularam no fim do mês passado. O UK Safer Internet Centre, organização pela segurança na navegação na internet, classificou o fato como “notícia falsa”, sendo o desafio Momo nada mais que um “pânico moral” espalhado por adultos.

— A boneca não faz mal a ninguém, ela não pode matar uma pessoa. O grande problema é uma criança navegar pela internet desassistida — alertou Nascimento. — Tem pais que não fazem ideia do que os filhos fazem na rede. A internet é um janelão aberto para o mundo, onde existem pessoas perigosas. Se você não deixa seu filho sozinho numa praça pública, não pode permitir que ele se conecte com qualquer pessoa.

Como proteger as crianças?

David Emm, pesquisador do Kaspersky Lab, afirma que a melhor defesa das crianças contra conteúdos maliciosos que circulam na rede, como o desafio Momo, é o contato próximo e aberto com os pais. Ele recomenda que os responsáveis tenham conversas regulares com as crianças e entrem em acordo sobre quais sites são apropriados, fazendo-as entender o raciocínio dessa decisão. Os filhos também devem se sentir seguros em falar sobre qualquer coisa perturbadora que tenham se deparado on-line.

Os pais devem se certificar de que os filhos entendam que não devem “fazer amizade” com alguém que não conheçam na vida real, nem adicionar números desconhecidos em seus contatos. Também devem conscientizar as crianças a nunca compartilhar informações pessoais, como números de telefone e endereços. O uso de configurações parentais e de segurança também é recomendado.

— Estamos notando que o suposto "desafio" Momo ainda tem criado pânico e histeria em toda a internet — afirmou Emm. —  E, à medida que o mistério em torno do desafio cresce, as chances de mais pessoas serem tentadas a assustar seus amigos ou, mais preocupantemente, usar o meme para assediar e intimidar, aumentam.