Sustentabilidade

Azeite de dendê é combustível para expedição de pesquisadores ao Peru

Eles farão uma viagem de 15 mil quilômetros em 20 dias utilizando o biodiesel B100, produzido no Laboratório de Energia e Gás (LEN) da Ufba

Victor Longo (victor.longo@redebahia.com.br)
- Atualizada em

Você já imaginou fazer uma viagem de carro até o Peru utilizando o azeite de dendê do acarajé que comeu no fim de semana como matéria-prima para o combustível? Acredite: essa façanha é possível. O professor Ednildo Torres, da Escola Politécnica da Ufba, e outros cinco pesquisadores vão provar isso a partir de hoje.


Eles farão uma viagem de 15 mil quilômetros em 20 dias utilizando o biodiesel B100, produzido no Laboratório de Energia e Gás (LEN) da universidade a partir de matérias- primas como azeite de dendê, óleo de cozinha (soja, milho, algodão e canda). A rota começa em Salvador e termina no Peru.



Os seis pesquisadores, que são da Ufba, da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e da Universidade do Minho (Portugal), sairão do Porto da Barra, costa do Oceano Atlântico, em duas Ford Rangers XLT 3.0 Diesel doadas pela Ford, e irão por via terrestre até o município peruano de Ilo, banhado pelo Pacífico.


Um dos veículos levará três pesquisadores abastecido com B5, o diesel vendido nos postos de combustível, composto de apenas 5% de biodiesel.


O outro será abastecido com o combustível B100, cuja composição é 100% de biodiesel, totalmente produzido na Escola Politécnica, no bairro da Federação. O azeite de dendê e o óleo de cozinha usados na fabricação do B100 são coletados em hospitais, restaurantes e em algumas residências de Salvador.


Sustentabilidade
O projeto, intitulado Travessia Interoceânica B100, tem o objetivo de contribuir para a formação de uma cultura de desenvolvimento sustentável, estimulando o governo a aumentar as plantações de dendê, soja e outras matérias-primas para a fabricação do combustível.


“Hoje não existe um programa para aumentar a produção de dendê para o biodiesel. Há muitas áreas degradadas no Sul e Sudeste da Bahia que poderiam ser utilizadas para isso”, sugere o coordenador do LEN, professor Ednildo Torres, do departamento de Engenharia Química da Ufba.


Segundo os pesquisadores, apesar de o governo federal apostar mais na plantação de soja, o dendê é mais viável, por produzir mais óleo. Enquanto a soja gera 400 litros de óleo por hectare plantado, o dendê gera 4 mil litros no mesmo espaço.


Segundo ele, no governo Lula, houve um maior incentivo à produção do biodiesel, mas Dilma Rousseff tem priorizado o pré-sal. “Em contrapartida, Dilma tem apostado mais na energia eólica”, completou.


De acordo com o especialista em combustíveis da Unifacs, professor Luiz Pontes, a pouca oferta de matéria-prima para a produção de biodiesel e a alta demanda desses produtos para a alimentação são fatores que tornam a utilização de biodiesel pouco viável. “Hoje, o biodiesel só é economicamente viável a partir da isenção de impostos concedida pelo governo”, diz. Segundo ele, 90% do biodiesel nacional tem o óleo de soja como produto.


Logística
Para a viagem, os professores levarão 1,2 mil litros de B100 dispostos em recipientes de 50 litros. Cada uma das caminhonetes levará 600 litros. Utilizando o B5, a Ford Ranger roda 12 quilômetros por litro de combustível, segundo os pesquisadores. Com o B100, o mesmo veículo é capaz de rodar 11 quilômetros por litro consumido. Essa é a primeira expedição dessa magnitude realizada com o B100 produzido na Ufba. “Antes, fizemos em torno de 8 meses de testes”, contou Torres.


A viagem teve um custo total de R$ 60 mil, dos quais R$ 30 mil foram doados pela Bahia Engenharia e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb). A Petrobahia doou R$ 5 mil em combustível B5. Os custos restantes serão cobertos pelos pesquisadores.


Matéria original do Correio
Azeite de dendê é combustível para expedição de pesquisadores ao Peru