Bahia

'Bomba aberta' e com 'forma de coração': confira relatos de quem diz ter visto o meteoro

Moradores de Monte Gordo, a 6 km de Guarajuba, garantem que corpo celeste caiu lá

Raquel Saraiva*, do Correio 24 horas (raquel.saraiva@redebahia.com.br)

Moradores da Rua Guajirus, na localidade de Monte Gordo, em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, jamais vão esquecer a noite de 20 de fevereiro de 2018 - quando um estrondo seguido de um clarão misterioso iluminou o céu de cidades da Bahia.

Moradores reunidos em quintal de motorista onde provável meteoro caiu (Raquel Saraiva/CORREIO)

Marcus Vinicius Simões, 50 anos, encarregado de manutenção, pensou se tratar da explosão do transformador de um poste próximo. "Vi um clarão forte, bem laranja. Vi o clarão batendo no chão e pensei: pronto que vou dormir no calor". A luz não faltou, mas Marcus demorou a dormir, mesmo com o ar-condicionado ligado. 

Ele foi um dos que foi para a porta de casa, depois do fenômeno que ainda intriga especialistas. Na Rua Guajirus, a 6k da Praia de Guarajuba, moradores garantem que um pedaço do corpo celeste que cruzou o céu da Bahia caiu por lá - entre 21h30 e 22h, precisamente na casa do motorista Edinei da Silva Almeida, pai de Ravine Almeida, 12 anos.

Morador da Rua Guajirus mostra suposto meteoro (Foto: Reprodução)

"Fechei o olho e saí correndo. Nem pensei em nada. Rezei uns três terços antes de dormir, cheguei em casa branca de medo", conta a menina.

Ela estava com o pai no terreno da família quando o objeto caiu do céu. "Só vi o clarão, pensei que fosse tiro", lembra a menina.

Para os moradores o objeto, que abriu um buraco de 1 metro de diâmetro e 60 cm profundidade no quintal onde Ravine costuma brincar, lembra uma "bomba aberta" e tem "formato de coração". 

"Não acho que foi nada de outro mundo,não. O objeto tem formato de  bomba, parece um coração. Acho que veio fechada e abriu na terra. Acho que tem coisa enterrada, porque o barulho foi muito alto pra só ter sido aquilo", diz Dona Deinha, se referindo ao objeto que foi encontrado no buraco no terreno vizinho à sua casa.

Perguntada sobre o que teria embaixo do buraco, dona Deinha sonha. "Pode ser que tenha ouro. Acho que vou cavar", ela brinca. E mesmo com o objeto estranho perto de casa, ninguém quis ir ver o que era. "Tá doida? Aqui tava muito escuro. Só liguei pra meus vizinhos e meus funcionários pra saber se tava tudo bem", ela lembra. "Veio rasgando o céu, quebrando telha e galho", lembra Deinha.

A comerciante Francisca Lima, 64, assistia a novela e pensou que um vizinho desatento tivesse sofrido algum acidente com uma panela de pressão.

"Pensei que uma panela de pressão tinha estourado, mas o barulho eu sabia que tava forte pra ser só uma panela ou um botijão. Aí pensei que o mundo tava acabando. Me tremi toda", afirma Francisca.

Ela conta que todos os moradores da rua saíram de suas casas com medo e para tentar entender o que estava acontecendo. "Não sei como não matou meus cachorros, o coração deles faltava voar. Não sei nem como meu coração não acabou de se lenhar", brinca a comerciante, mostrando uma telha e um galho da mangueira do seu quintal quebrados. Ela lembra que o chão e as paredes de sua casa tremeram com o estrondo.

Antes de cair, o objeto bateu em galhos de árvores. E não foi achado no buraco, mas a cerca de 300 metros do local. 

"O barulho foi muito alto. Todo mundo saiu correndo de casa. Mas não fiquei com medo não", diz o corajoso Almir Filho, 54, operador de processos.  Almir lembra que depois do clarão viu muita fumaça. "Uma fumaça que você não ia acreditar. Parecia de coisa queimada".

Hipóteses

O objeto foi trazido por uma equipe de TV para o Instituto de Geociência da Ufba. Lá foi analisado pela professora Débora Rios, estudiosa de meteoritos. Segundo ela, não é um meteorito. É  um fragmento metálico que precisa ser ainda analisado. 

“É uma peça metálica, manufaturada, feita pelo homem”, concluiu a professora. Segundo ela, não é possível ainda dizer que foi este o artefato que provocou o clarão e o estrondo de ontem, nem mesmo se a peça realmente caiu do céu.

“Camaçari é uma região industrial, então pode ser que tenha sido algo que saiu de uma explosão ou que já estivesse lá há tempos”, cogitou.

Outras hipóteses levantadas sobre a causa do clarão no céu de ontem são a de um pedaço de um foguete russo ou de um fragmento de um asteroide que estaria previsto para passar pela Terra ontem às 20h30, segundo a Nasa.

Os pesquisadores do Instituto de Geociências precisam ainda analisar a liga metálica constituinte da peça para chegar a uma conclusão. “Precisamos saber se não é uma liga metálica comum, como a usada nos cilindros de gás, por exemplo. O material usado em um foguete é muito mais resistente”, disse, acrescentando que a situação se complicaria se fosse um foguete russo, já que o país não costuma divulgar informações sobre as suas atividades espaciais.

*Colaborou Carol Aquino