ESPECIAL JUNINO 2021

Caruru e vinho do porto no São João: confira curiosidades sobre origem da festa

Costume foi trazido pelos europeus e sofreu diversas misturas ao longo dos anos

Malu Vieira* (malu.vieira@redebahia.com.br)
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São João é sinônimo de interior, forró, licor e fogueira, mas você sabia que a festa nem sempre foi desse jeito? Assim como a maior parte da cultura baiana e brasileira, o São João é uma grande mistura dos costumes europeus, indígenas e africanos que datam centenas de anos. 

Para começo de conversa, a ligação das comemorações com a Igreja Católica é bem visível: a festa leva o nome do santo São João Batista que, segundo a Bíblia, era o primo de Jesus. Obviamente os costumes vieram para o Brasil através dos portugueses e o primeiro registro da festa foi no no de 1583, ou seja, apenas 34 anos após a fundação de Salvador, a primeira capital do Brasil. 

Segundo o professor, pesquisador e jornalista Nelson Cadena, a cultura do São João para os europeus ibéricos (portugueses e espanhóis) sempre foi muito forte. “Em 1624 Salvador foi tomada pelos holandeses e um ano mais tarde, recuperada pelos espanhóis. Quando chegou a véspera de São João, os espanhóis enfeitaram os navios com bandeirolas e soltaram espécies de luminárias no céu para comemorar a data”, explica. 

Mas o São João como a gente conhece já foi bem diferente. Confira as maiores mudanças que a festa sofreu durante as centenas de anos:

  • Comidas e bebidas 

Você já se imaginou batendo um prato de caruru em pleno 24 de junho? Lá nos primórdios da festa isso era bem comum. Implementados pelos africanos, o vatapá e o caruru foram as comidas típicas da festa nos primeiros dois séculos, mas ao longo do tempo desapareceram totalmente.  

Comida baiana já foi tradição no São João | Foto: divulgação

Além disso, o licor nem sempre foi o queridinho dos amantes de São João. “Inicialmente o vinho do porto acompanhava as comidas das pessoas mais ricas durante os festejos, até porque a legislação não permitia bebidas locais como a cachaça”, afirma Cadena.  

Apesar dessas diferenças, algumas comidas permaneceram na tradição. Isso acontece principalmente por causa da colheita do milho, que é feita nesta mesma época do ano e é a base da culinária junina. Canjica, bolo de milho, milho cozido e mugunzá são exemplos desses alimentos que não podem faltar na festa.  

  • O São João top era na capital 

Em tempos sem pandemia, Salvador vira um verdadeiro cemitério durante as festas juninas. Quem pode, parte logo para cidades do interior da Bahia como Santo Antônio de Jesus, Jequié, Senhor do Bonfim e Lençóis, conhecidas por oferecer um super São João com música típica, fogueira e climinha frio. 

Porém, os festejos já foram muito mais fortes na capital baiana e a resenha era comemorar a data nos bairros de Itapajipe e Liberdade. Segundo o pesquisador, no Centro até os bondes paravam de funcionar para não atrapalhar as fogueiras da festa. “Não era uma festa muito rural, mas o crescimento da cidade ela fez com que ela migrasse para o interior. Até porque a cidade se tornou restritiva: espadas e balões, por exemplo, se tornaram perigosos nas cidades”, explica o pesquisador. 

  • Música  

De acordo com Nelson Cadena, no primeiro São João comemorado em Salvador a música tocada não tinha nada a ver com o forró que dançamos hoje. No São João de 1583 se ouvia modinha típica dos bailes populares europeus. Nada de sanfona, triângulo ou zabumba.  

Esses bailes, inclusive, foram os responsáveis por dar origem à quadrilha junina. A dança coreografada e em pares era muito comum nos festejos populares da Europa.  

Já o forró é uma herança africana. Ao longo dos anos, o forrobodó, espécie de dança arrasta-pé, foi introduzido na festa até formar o forró brasileiro que conhecemos hoje.  

Grupo "Capelinha do Forró" se apresentando em 2018 | Foto: divulgação
  • Falar “anarriê” é quase falar francês 

Se você conhece as expressões faladas durante as festas de São João, parabéns, você sabe falar pelo menos um pouquinho de francês! Assim como os outros costumes, elas foram abrasileiradas, mas as origens vêm lá dos bailes da França. Confira: 

- Alavantú: em francês a expressão é  “en avant tout”, e, assim como nas quadrilhas, significa ir para a frente.

- Anarriê: em francês a expressão "en arrière", significa ir para trás, recuar. No São João, a expressão abrasileirada tem o mesmo significado e indica que os casais devem ir para trás. 

- Changê: "changer/changez" significa trocar. Ela é usada no momento de troca de pares da quadrilha. 

- Cumprimento 'vis-à-vis': pela facilidade da fala, a expressão seguiu com a mesma escrita e pronúncia no Brasil. Ela significa "cara a cara".

- Otrefoá: do francês "autre fois", significa "novamente". É utilizada quando a quadrilha deve repetir o passo anterior. 

Sob supervisão da repórter Cláudia Callado