Maternidade

Chá revelação: mães gastam até R$ 6 mil para divulgar sexo do bebê

Eventos contam com balão gigante, bufê personalizado, creperia e bolo que pode custar R$ 700

Rafaela Fleur*, do Correio 24h (rafaela.fleur@redebahia.com.br)

Uma mão toca a barriga e imediatamente questiona: é menino ou menina? Essa é uma das situações mais comuns na rotina das mulheres grávidas. Há algum tempo, ao saber da resposta, bastava um telefonema para acalmar os ânimos dos curiosos. Ou, então, uma mensagem no grupo do WhatsApp.  Porém, os tempos são outros e divulgar o sexo do bebê virou motivo de festa - com direito a decoração temática, bufê colorido, balões e todo um ritual. O evento simbólico, geralmente feito apenas para os mais chegados, é chamado chá de revelação. E há quem não economize no investimento: a pequena reunião pode chegar aos R$ 6 mil. 

Como é isso? 

Sabe o chá de bebê? Esqueça. É diferente. No chá de revelação, originado nos Estados Unidos, não precisa, necessariamente, levar fralda. A intenção é apenas contar para a família e os amigos mais íntimos se a criança é menino ou menina. Contar não, descobrir - porque os pais, que organizam quase toda a festa, também só ficam sabendo na hora.  

Foto: Arisson Marinho | CORREIO*
O teste de sexagem, exame que revela o sexo a partir do segundo mês de gravidez, tem o resultado divulgado na internet. Aí, é só passar o nome de usuário e a senha para alguém de confiança. O procedimento, nos seis primeiros laboratórios sugeridos pelo Google quando se busca por “teste de sexagem”, varia entre R$ 190 (DNA Laboratório) e R$ 265 (Labchecap).
Foto: Reprodução | Instagram

O bufê é personalizado e as comidinhas costumam ter as cores rosa e azul, alimentando ainda mais o clima de mistério. O mesmo vale para a decoração, também feita na base do meio a meio. “Cancelei o chá de fraldas e optei por fazer apenas o chá de revelação. Foi muito bacana. A ansiedade era gigantesca”, destaca a servidora pública Natália Guimarães.

Elas fizeram

Natália fez uma festa para 30 pessoas. Decoração e docinhos foram feitos pela família. “Contratei apenas um serviço de crepe que era ilimitado, as pessoas podiam comer o quanto quisessem”, comenta ela, que desembolsou R$ 900 (@buffetlacreperie) pelo agrado aos convidados.

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A revelação, ponto alto da festança, foi feita através de um balão gigante de quase dois metros - método escolhido por todas as seis mamães com quem conversamos. Basta estourar e conferir a cor do confete. “Era menino e vai se chamar Leonardo. Estou em contagem regressiva!”, admitiu.
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Um balão desses custa, em média, entre R$ 140 (@balloonsfest) e R$ 220 (@balloonsdesigners). A segunda opção mais comum é o bolo, onde o segredo será descoberto de acordo com o tom do recheio. Uma versão simples, com dois andares, para 30 convidados, custa R$ 350 (@sweetbolos). Algo mais elaborado pode chegar a R$ 700 (@ivanacalumby).
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Amanda Butros, mãe dos gêmeos Daniel e Gabriel, que têm quatro meses, recomenda o evento. “A emoção do momento não se paga. Quis algo incrementado, mas dá pra fazer com pouco dinheiro, nem que seja só um bolo”, aconselha. A paixão de Amanda pela coisa é, literalmente, um negócio que vai muito além da maternidade: ela é decoradora e especialista em eventos intimistas (@montandoamesa). Uma decoração completa, já com os doces, para 20 pessoas, custa a partir de R$ 2 mil.

Quem apostou na simplicidade foi a projetista Diane Moreira, que fez tudo em casa. “Eu nem queria, minhas primas que incentivaram por conta dessa moda toda”, confessa. Porém, o que era pra ser um chá de revelação, teve tudo, menos revelação.

“A ultrassom estava marcada para o mesmo dia da festa, só que o médico não conseguiu identificar. Como já estava tudo arrumado, decidi fazer o chá mesmo assim. Na hora que disse que não sabia, foi uma agonia”, ressaltou ela, que só descobriu aos quatro meses que estava aguardando Mayara.

Estereótipos de gênero

Cores neutras até podem ser usadas nos chás de revelação, mas a maioria esmagadora aposta no rosa e no azul na hora de definir o que é feminino e o que é masculino.

A decisão, tomada quase sempre de forma automática, segundo a cientista social e professora do departamento de Gênero e Feminismo da Ufba Maíra Kubík Mano, pode reforçar estereótipos de gênero.

“Essas festas celebram a desigualdade de gênero, acabam reproduzindo inúmero preconceitos. Reforçam esse idealismo de que homens e mulheres têm valores diferentes e devem ocupar lugares distintos. A comemoração deveria ser em torno de pessoas. A criança nem nasceu e a gente já dá toda uma carga de identidade de gênero, que pode nem ser correspondente à que ela vai assumir na vida dela”, assegura Maíra, destacando que identidade de gênero é diferente de sexo biológico. “Sexo é só a genitália”, explica. 

Gabriela Martinez, que fez o chá dividido em rosa e azul, acredita que as cores são apenas um detalhe. “É só uma forma de se apresentar”, comentou ela, que está esperando Mabel e garante: “Ela pode ser quem ela quiser”.

*Com orientação do editor Victor Villarpando