Salvador

Comércio fervilha na Barroquinha

Cultura do couro, vai e vem de transeuntes e muita agitação. Esse é o dia a dia da Barroquinha, um dos locais mais tradicionais de Salvador, que merece ser conhecido


Do iBahia por: Márcia Luz


marcia.luz@redebahia.com.br


Não é bem um bairro, mas  a Barroquinha pode ser considerada um

universo muito particular em Salvador. Só por isso já vale uma visita ao

local, um dos mais antigos e movimentados  do comércio em Salvador.

Tudo por lá é muito peculiar e  o  mais interessante é que a rua é, de

fato, o palco para todas as coisas.  Mesmo as lojas de roupas, em sua

maior parte feminina, não se contentam em seus limites e colocam ofertas

e manequins na porta. É o carrinho de café e de mingau, é o cara com o

megafone anunciando as promoções, são as barracas, os ambulantes… O lixo

e o luxo do popular enfeitam a rua.


Barroquinha é também paradoxal. De dia é puro movimento, de noite é

deserto. A rua vira dormitório, ponto de drogas e banheiro público,

perigoso até e bem diferente do vai e vem colorido que preenche o dia. O

mais interessante é que as coisas dividem espaço, se sobrepõem. Não é

uma coisa ou outra, é tudo ao mesmo tempo. Tem cheiro (muitas vezes

desagradável), tem som (das pessoas se comunicando ou da música gospel

em ritmo de forró que alegra o interior das lojas), tem visual (colorido

das roupas, das bandeirolas, das barracas e fachadas), ou seja, a

estética é multi, complexa, exagerada, popular e, por isso mesmo, tão

baiana e tradicional.


Tradição do couro - Não tem

outro lugar em Salvador no qual o comércio do couro seja tão forte

quanto na Barroquinha. São 20 barracas instaladas no local, vendendo

bolsas, sapatos, sacolas de viagem, tapetes e uma infinidade de artigos.

O mais importante é que isso representa a tradição artesanal do

negócio. Todas as peças são feitas por trabalhadores em cidades do

interior e trazidas para a capital. O cheiro forte – muitas vezes até

desagradável do couro – é uma das marcas da cultura enraizada ali no

local.


Há 15 anos trabalhando no lugar, o comerciante José Miranda comenta

que sempre procura oferecer à sua clientela produtos diferenciados.

Assim, ganha a fidelidade dos compradores e dribla a concorrência.  Suas

peças são trazidas de cidades como Jequié e Jorro.


Outro comerciante, Jucelino Nery Conceição, diz que trabalhar no

local é bom, mas os vendedores precisam de mais assistência por parte da

prefeitura.  Suas barracas disputam espaço com lixo. Além disso, a

segurança é outro ponto que deve ser reforçado.  “Também já enviamos um

memorando para a prefeitura, pedindo que a Barroquinha seja incluída no

roteiro turístico da cidade. Afinal de contas, esta é a maior área

coureira do Norte-Nordeste”,  afirma ele.


Além de resistentes, as peças em couro são baratas. Pelo menos, na

Barroquinha! Uma sandália rasteira, por exemplo, pode sair por apenas R$

20. Se o modelo for infantil pode custar até R$ 10 e, se a conversa for

boa, tem descontos. A peça mais cara entre as barracas chega aos R$

150, uma bolsa de viagem. Dizem os vendedores que com o tempo e o uso, o

cheiro forte do couro deixa de existir. É experimentar para ver!




Lailane e Leilane


Personagens do cotidiano - Elas são irmãs, mas não são gêmeas,

embora muito parecidas. As meninas Laiane e Leilane, de 18 e 15 anos,

respectivamente são frequentadoras assíduas da Barroquinha. Quando

pensam em comprar roupas, que shopping que nada! Elas gostam mesmo é das

lojas de rua, nas quais entram e saem sem pagar pela beleza dos grandes

centros de compras.


Elas moram em Sussuarana, enfrentam ônibus, mas querem pesquisar os

preços e poder escolher suas aquisições entre os jeans do movimentado

comércio local.  “Passamos para pesquisar os preços. Aqui está meio

acabadinho, mas tá bom”, dizem. O visual das duas é muito parecido! O

penteado é o mesmo, mas elas mudam apenas de lado. Bem-humoradas e até

um pouco tímidas, seguem estilos bem parecidos também no modo de vestir:

o jeans é a base dos looks.


Uma vida na Barroquinha - Jucelino

Nery Conceição é comerciante de couro e há 36 anos vive na Barroquinha.

Morar, morar, ele não  mora, mas como passa mais horas do seu dia no

lugar do que em casa, já considera-se “cidadão da Barroquinha”.  Ele

conta que seu maior prazer é trabalhar ali, atendendo turistas e

soteropolitanos, de segunda a sábado, das 8h às 18h. Ali já viu muita

coisa e, claro, fez amigos. Histórias para contar é o que não lhe

faltam.


“Quando cheguei aqui em 1974, ainda não tinha a escada. O calçadão

também não.  Existiam apenas três barracas, eram duas de couro e uma de

bijuteria. Depois o comércio foi crescendo e agora são 20 barracas”, 

salienta o vendedor. Ao longo dos anos em que está na Barroquinha, o

episódio mais triste e difícil que viu até agora foi o incêndio da

igrejinha, onde hoje funciona o Centro Cultural Barroquinha.  Passados

anos, ficou, porém, uma história engraçada: “Até 1986 quando a igreja

pegou fogo, alguns camelôs guardavam as coisas no lugar. Um deles era

muito católico e toda noite se ajoelhava lá para rezar, mas depois que o

fogo destruiu tudo que ele tinha, virou evangélico e hoje vive no

bairro de São Caetano. Eu nunca tive vontade de sair daqui. Já estou

aposentado, mas quero ficar aqui até quando der”.




Megafone - Definitivamente, não

é tarefa fácil  levar clientes para dentro das lojas em uma rua

comercial onde os estabelecimentos oferecem produtos bem parecidos. A

guerra pelo cliente é grande e vale tudo. Quem mais se destaca, vende

mais.  Com o megafone na mão, frases de efeito na ponta da língua cabe a

Rafael Santana  anunciar a plenos pulmões as ofertas da Marivan Moda.  “Lugar

de comprar barato é aqui na Marivan Modas” , divulga.  A vergonha,

segundo ele, ainda tem, mas como precisa trabalhar, dá um jeito de

esquecer essa parte e desempenhar bem sua função. E dá certo, viu?  Só

tem um probleminha: bem em cima da Marivan Modas existe um hotel. Isso

mesmo! Imagine alguém hospedado em um hotel da Barroquinha e acordar

sábado de manhã com o Rafael e seu megafone convocando os transeuntes a

comprar barato na loja? No mínimo, inusitado!


Ruas degradadas - Bem ali no

coração do Centro Histórico de Salvador, um local cheio de história,

está a degradação instalada na Barroquinha. Quem passa ou trabalha no

local tem convive diariamente com lixo, pobreza, ruas cheias de buracos,

mendigos, enfim, com a degradação física, arquitetônica e até humana,

como um homem que dorme caido no chão, embaixo do sol e de um aviso:

Proibido jogar lixo! O mais impressionante é que a situação já é tão

arraigada e cotidiana, que as pessoas que passam de um lado para o outro

parecem não enxergar mais o que está bem ali na frente. É preciso ter

cuidado para andar pela Barroquinha e suas proximidades, pois as pedras

soltas desintegram as calçadas, mas nada é feito. Nenhum sinal de

recuperação ou presença de representantes da prefeitura no lugar. Nada

que sinalize alguma possibilidade de recuperação!


Além da estética degradada, o cheiro do local não é nada agradável.

Se durante o dia o movimentoé intenso, à noite a Barroquinha é deserta e

seus cantos servem de “banheiro público”. O fedor de urina é

impregnado, insuportável mesmo! Em dias de chuva, a situação pode piorar

bastante, pois o lixo vira lama. Aí, só muita coragem para pisar por

lá.



Edificações  - Atrás da antiga Igreja da Barroquinha e na

esquina com a rua Visconde de Itaparica estão os restos arquitetônicos

da que foi, talvez, a edificação mais imponente da Barroquinha: o

casarão de número 8, que abrigou o Hotel Castro Alves. As informações

mais recentes sobre o local são do ano de 2008, quando o casarão desabou

no dia 24 de abril. Hoje ainda estão erguidas as paredes da fachada e

da lateral, mas o imóvel, que pertenceu à antiga Associação de Caxeiros

Viajantes da Bahia, foi condenado e interditado pela Superintendência de

Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município de Salvador (Sucom).


Moda - A rua é palco para tudo

na Barroquinha. A prova disso é que as lojas extrapolam os limites dos

estabelecimentos e ganham a rua. Os manequins são expostos, assim como

os balaios de promoções. Os vendedores também chamam as pessoas que vão

passando para entrar e aproveitar as promoções.  Os looks exibidos nos

manequins não são exatamente o que há de mais atualizado, na visão de um

fashionista louco por grifes, mas são bem em conta e satisfazem o

público.  Já os balaios são o que há, além do preço baixo, é uma forma

democrática de os compradores tocarem nas peças e avaliarem se o produto

vale a promoção.





Castro Alves - A Barroquinha

está entre dois pontos importantes do Centro Histórico:  na parte de

cima está a Praça Castro Alves e na parte de baixo, a Baixa dos

Sapateiros.  A Castro Alves é uma das mais famosas de Salvador,  vigiada

pelo próprio poeta. Ali está o antigo cinema Glauber Rocha, que ganhou

reformas e  hoje abriga o Espaço Unibanco de Cinema, lugar frequentado

pelo público cult da cidade.   Durante anos, a praça foi palco do ponto

alto do Carnaval baiano: o encontro de trios, liderado por Dodô &

Osmar. Não era apenas a despedida da festa, mas o momento das

homenagens, a confraternização entre os artistas, a consagração da

guitarra baiana e a reunião de todos os foliões, na manhã da

Quarta-feira de Cinzas.  O antigo cinema Glauber Rocha virou o Espaço

Unibanco de cinema com vista privilegiada para Baía de Todos os Santos,

café, livraria e filmes de arte.



Baixa dos Sapateiros - Descendo

a Barroquinha, passando pelo terminal, chegamos à Baixa dos Sapateiros,

nome “artístico” da avenida JJ. Seabra, que ficou conhecida depois de

ser homenageada com a letra do mineiro Ary Barroso. O comércio é

movimentado e apesar das muitas promessas de revitalização do lugar,

quem circula por lá esbarra dia após dia na falta de conservação. Lá

está instalado o Quartel do Corpo de Bombeiros, que todo 8 de dezembro

fica em festa para celebrar sua padroeira: Santa Bárbara. Foi ali que o

engenheiro Ramo de Queiroz instalou os primeiros trilhos dos bondes da

Linha Circular de Carris da Bahia, para facilitar a vida dos

trabalhadores do Cais do Porto no Comércio, que subiam a Balança do

Taboão e se dirigiam da Baixa dos Sapateiros ao Bonfim.







Anúncios - Desbloqueio e venda de aparelhos celulares,

reformas de roupas e até venda de um prédio e do remédio à base de raiz

da Amazônia para curar problemas na próstata… Tudo é anunciado da

maneira mais desordenada possível com cartazes e placas colados ou

pendurados em paredes e muros. É interessante notar, ainda, como os

lugares ganham novas funções. Por exemplo: a loja de roupa,

momentaneamente, perde sua primeira função que é vender roupa para

servir de suporte para o anúncio da venda do prédio.  Na porta do

estabelecimento é a primeira mensagem percebida por quem chega ou passa

em frente.