Salvador

Da moradia de ciganos mouros ao atual bairro da Mouraria

Bairro de localização estratégica reserva ainda hoje casarões e ruas de paralelepípedo, que remetem à Salvador antiga

Érica Torres (erica.torres@redebahia.com.br)
- Atualizada em

Cenário do inesquecível filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, local de ensaios do grupo de percussionistas Marreta, ponto de saída de um bloco carnavalesco que já divertiu muitos foliões, Os Internacionais. Estas são algumas das lembranças relatadas por moradores que marcaram a história da velha Mouraria. O bairro, assim como o Largo da Palma, que se une a ele, guarda até hoje marcas de uma Salvador antiga, onde os casarões e as ruas de paralelepípedo são maioria e o tempo parece passar mais devagar.


Durante à noite, o clima de sossego se transforma em agitação devido aos bares que tomam conta das calçadas. A especialidade de todos eles é a mesma: Lambreta. Este fruto do mar atrai clientes de vários pontos da cidade e garante uma boa renda para os proprietários como José Correia Filho, morador do bairro há 23 anos e dono do Mini Bar, há 13. “Aqui é bom de morar e trabalhar porque é um ponto central e estratégico. Tenho tudo que quero perto de mim e os clientes são fiéis”, esclarece. Localização

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O bairro tem como característica marcante a centralização. De um lado Nazaré, Fonte Nova e Barbalho, do outro lado, São Pedro, Lapa e Campo Grande, ao redor encontram-se ladeiras e ruelas que desembocam na Barroquinha e no Pelourinho. Talvez por este motivo, grande parte do local cedeu espaço para o comércio que fervilha através de clínicas, restaurantes, lojas de produtos sortidos, além de cursos de especialização e pré-vestibular.


Essa movimentação de carros e pedestres contribui para segurança, garante moradores. E o que é melhor, não atrapalha a tranquilidade do local. A estética do bairro também não é afetada e mantém em bom estado a maior parte das fachadas das casas construídas há décadas, tombadas como patrimônio histórico da capital baiana.

História

A Mouraria teria surgido a partir da necessidade de uma zona de acampamento obrigatório das primeiras famílias de ciganos que vieram de Portugal, no século XVIII. No espaço do abrigo encontra-se hoje o Quartel General da 6ª Região Militar, explica Luiz Eduardo Dórea, em seu livro intitulado Histórias de Salvador nos nomes das suas ruas. O nome do bairro, por sua vez, teria surgido a partir da denominação de “mouros” dada pela sociedade da época a estes povos.


As igrejas fortalecem ainda mais as lembranças que o bairro proporciona de uma época memorável da capital baiana. “No entroncamento, entre a rua principal e a Avenida Joana Angélica, do lado esquerdo está a Igreja Santo Antônio da Mouraria, cuja pedra fundamental foi colocada em 1724 pelo governador D. Vasco Fernandes César Meneses”, ressalta Dórea. Anos antes, no Largo da Palma, foi erguida a Igreja de Nossa Senhora da Palma por voto do então alferes Bernardo da Cruz Arrais. Atualmente, ela divide espaço com a Reitoria da Universidade Católica de Salvador, antigo mosteiro dos religiosos Agostinhos Descalços, revela Afrânio Peixoto em Breviário da Bahia.


Personagens

O poeta Isaias Monteiro, mais conhecido como Maninho, mora na Mouraria há 43 anos e afirma: “Aqui é o melhor lugar do mundo”. Ele explica que gosta muito da tranquilidade de andar pelas ruas do bairro e cumprimentar os amigos vizinhos. O trabalho dele é recitar poesias próprias e de outros grandes nomes como Gregório de Matos e Vinícius de Moraes, na praça da Piedade, toda quarta às 18h.


O projeto Poetas na Praça faz parte da Associação dos Poetas e tem como objetivo recuperar a oralidade da palavra e mostrar ao povo a importância da poesia. Segundo Maninho, a iniciativa intercala as artes da música e do teatro.


“Sempre amei a poesia. Já fui até refém dela na época da Ditadura. Eu e meu amigo Gilberto Costa fomos presos quando escrevíamos  Praça da Poesia,  no chão da Piedade. Os guardas não paravam de me perguntar cadê a minha arma,  e eu dizia ‘só tenho uma, a minha caneta’ “, relembra. Antigamente, explica ele, era muito mais prazeroso sentar na praça e recitar poesias pelo próprio gogó. Hoje, infelizmente, com o crescimento da população e do comércio, os veículos atrapalham o trabalho dos poetas que precisam do auxílio de microfones para não perder a voz.


Maninho ressalta o gosto pelas artes: “Me formei em Belas Artes, fiz Licenciatura em Artes Plásticas, invernei pela Escola de Teatro e passei  dez anos trabalhando com o diretor de teatro Manuel Lopes Pontes. Depois, fui convidado pelo professor Juarez Paraíso para ser aluno fundador do Museu de Arte Moderna (MAM). Lá, aprendi belas técnicas de arte com Bel Borba, Renato Vianna, Renato da Silveira, entre outros grandes colegas”.


Outra figura conhecida na Mouraria é o baiano do acarajé Luís Conceição Santos. Todos os dias a partir das 16h ele monta o seu ponto. “Sou eu mesmo que preparo os acarajés e abarás”, diz orgulhoso. O cheiro atrai estudantes e gente que trabalha por ali, e em pouco tempo uma grande fila é formada. “Gosto de trabalhar por aqui. Tenho o ponto há três anos e moro na região há 17. Definitivamente, não tenho do que reclamar. O que mais me agrada aqui é a movimentação dos bares à noite”, conta Santos. A acarajé ganhou o quinto lugar no requisitado prêmio Veja Salvador.


Curiosidade

O Largo da Palma deu nome ao livro publicado pelo jornalista Adonias Filho no ano de 1981. A obra que trata de problemas sociais é dividida em seis narrativas no gênero novela que se passam no largo, o qual, por diversos momentos é transformado em importante personagem. A Igreja da Palma é lembrada, assim como as ruas estreitas e ladeiras que fazem parte da região.


Além do livro, a primeira edição do filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, com direção de Bruno Barreto e presença dos protagonistas de peso, Sônia Braga e José Wilker, foi gravada no Largo da Palma em 1976. Assista ao vídeo que mostra trecho desta obra memorável:





A Mouraria durante muitos anos foi o local de preparação para a saída em direção à avenida do bloco Os Internacionais do Carnaval de Salvador. A sede localizava-se atrás do Quartel General da 6ª. Região Militar e dividia espaço com um bar que era do mesmo proprietário e levava o nome do bloco.