Economia

Do cofrinho às moedas virtuais: qual a forma certa de lidar com o dinheiro?

A forma de lidar com o dinheiro não está associada à classe social ou à idade, mas à quantidade de risco que se quer e se pode tolerar

Agência O Globo

O mercado financeiro é feito de riscos e, de acordo com a regra básica das finanças, quanto maiores eles forem, mais altos os potenciais de ganhos e também de perdas. Nesse cenário, há investidores que apostam alto e outros que se resguardam, com medo de perderem o que acumularam.

O técnico em segurança do trabalho Gleysom Diogo, de 28 anos, é um exemplo de investidor que gosta de arriscar. Ganhando pouco mais de dois salários mínimos por mês, ele investe em criptomoedas. Em 2017, quando a moeda virtual bitcoin saiu de U$ 800 e passou a valer US$ 19 mil, o rapaz teve um lucro de 200%. Já o universitário Bernardo Bonissatto, de 22 anos, tem um comportamento oposto e prefere guardar tudo o que ganha como recreador de festas infantis numa gaveta.

Para o coordenador do MBA em Gestão Financeira da Fundação Getulio Vargas (FGV), Ricardo Teixeira, a forma de lidar com o dinheiro não está associada à classe social ou à idade, mas à quantidade de risco que se quer e se pode tolerar. Em geral, os pessimistas são mais conservadores nas aplicações financeiras, e os otimistas acreditam que oportunidades vão surgir e não querem estar de fora. O diretor da escola de investidores Trade Brasil, Flávio Lemos, avalia que nenhum dos dois comportamentos é ideal, pois é necessário ter equilíbrio para gerir o dinheiro.

— Quem tem medo de perder dinheiro em investimentos e o deixa guardado em casa está, de fato, perdendo. Os R$ 2.500 que se tem hoje não são os mesmos R$ 2.500 que se terá no ano que vem, por causa da inflação. Além disso, o dinheiro tem um custo. Se a pessoa pegar um empréstimo no banco, por exemplo, isso vai lhe custar juros por mês. Já quem investe em ativos de risco ainda não regulamentados pode perder tudo o que tem. Para aplicar em renda variável, tem que estar ciente de que não vai ficar rico da noite para o dia. É um investimento que requer tempo — disse.

Dinheiro digital: promessa de alto retorno

O estudo “O perfil do investidor em criptomoedas no Brasil”, elaborado pelos administradores Tarik Abdala e Fernando Pinheiro, mostrou que dentre os investidores de criptomoedas, 40,2% têm um rendimento mensal individual menor do que R$ 2.500. Outros 29,5% ganham entre R$ 2.501 e R$ 5 mil.

As moedas virtuais dividem opiniões por serem baseadas em redes de computadores abertas e por, serem diferentes do real e do dólar, não terem um Banco Central controlando sua emissão e seu funcionamento. Enquanto uns enxergam isso como alternativa ao sistema financeiro tradicional, outros consideram o investimento um jogo de sorte. Para Fernando Carvalho, CEO da QR Capital, essas moedas são uma aplicação de longo prazo volátil. Segundo ele, após a baixa ao longo de 2018, a expectativa é de alta.

Além de investir sozinho, por meio de uma corretora, o interessado pode aplicar em fundos brasileiros que investem de forma indireta em criptoativos ou escolher um serviço de gestão, ofertado por algumas gestoras. Segundo a especialista Vera Rita de Mello, tanto o excesso de otimismo quanto o pessimismo são um problema:

— Nos dois casos, a pessoa sai fora da realidade, e o comportamento não envolve a análise cuidadosa dos fatos.

Economista e planejadora financeira Paula Sauer, de 44 anos, adverte que excesso de confiança leva a cair em golpes:

— Um indivíduo com excesso de confiança está mais propenso a cair em golpes e participar de pirâmides, por se considerar um sujeito de sorte. Um indivíduo extremamente pessimista, muitas vezes, “perde o bonde” analisando milimétrica mente todas as possibilidades. O problema está nos extremos. Não se deve ser otimista ao ponto de achar que nada de ruim pode acontecer nem pessimista demais ao ponto de perder boas oportunidades procurando “cabelo em ovo”, para confirmar um viés negativo.

Apego às economias

Por não confiar em instituições financeiras, a empregada doméstica Guaraciara Dordenones, de 41 anos, guarda todas as economias numa garrafa plástica. No ano passado, ela juntou R$ 2.600 e viajou para Cabo Frio, em setembro, com o marido e um dos filhos. Desde dezembro de 2018, ela já acumulou mais R$ 2.500. Sua meta é fazer um aporte mínimo mensal de R$ 400 para conseguir comprar uma casa na comunidade onde mora.

— Prefiro guardar o dinheiro, porque vejo que, aos pouquinhos, meu objetivo está sendo alcançado — explicou.

De acordo com Vera Rita de Mello, uma das maiores especialistas em finanças comportamentais e autora dos primeiros livros no Brasil sobre o tema, o apego ao dinheiro concreto tem relação com experiências anteriores:

— Essa maneira de lidar com o dinheiro pode ter uma razão, em especial se a pessoa passou por um trauma, como o confisco da poupança.