Mito da Supermãe

'Educação doméstica e escolar precisam andar lado a lado', diz mãe de dois

Especialista e mães apresentam suas perspectivas e desafios na hora de educar os filhos

Naiá Braga (naia.braga@redebahia.com.br)
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A velocidade das transformações do mundo deixa cada menos previsível a forma de lidar com inúmeras esferas da vida e também não é diferente na hora de educar os filhos. A sensação de estar "perdida" acompanha muitas mães na hora de educar os pequenos, mas para o psicólogo Alessandro Marimpietri, as dificuldades são particulares de cada geração e temporais.  "Até bom pouco tempo atrás o mundo era mais certo, previsível e polar. Hoje num mundo fluido, incerto e imprevisível é esperado que todos fiquemos um tanto angustiados e perdidos. Com as mães não se faz diferente. Entretanto, temos que pensar que isso não é uma falha dessa ou daquela mãe e sim uma realidade do nosso tempo. Já passamos por outras dificuldades na história e vamos também ar conta desses desafios", afirma. 

Ludymilla e o marido se preocupam com os excessos. Foto: Foto por Senhoritas Fotografia

A fotógrafa Ludymilla Anunciação Cunha, de 28 anos, tem dois filhos: Ágata 3 anos e Zyah 1 ano, diz que busca equilíbrio na hora de educar os filhos, mas ainda se angustia com os excessos de cuidados. "A maior dificuldade minha na hora de educar é saber separar cuidados de super proteção. Quero que as crianças cresçam, sejam independentes, confiantes, sejam cidadãos do bem, com caráter e ética. Então, é preciso dosar muito bem, para que não prejudiquemos seus desenvolvimentos", diz. A advogada Ana Paula Garcia, lembra a insegurança com a experiência de ter sido mãe pela primeira vez. "No nascimento do meu primeiro filho havia sempre gente palpitando na educação dele e a insegurança por ser marinheira de primeira viagem fez com que eu me sentisse perdida algumas vezes. Mas logo a gente aprende a só dar ouvidos ao que é importante (afinal os palpites nunca cessam) e a se estabelecer como a real condutora daquela criança em conjunto com o pai", diz. 

Dividir a educação dos filhos com a escola, babá e outros profissionais é um dos pontos cruciais do criação das crianças. "A terceirização é maléfica para as crianças. Porém as mães podem contar com ajudas e auxílios. Uma criança nunca é responsabilidade apenas dos pais. Ela é responsabilidade dos pais, da família, da escola, da comunidade do Estado e etc. A educação é tarefa da família que por sua vez pode contar com apoio da escola e nunca o inverso", alerta Marimpietri.

Advogada Ana Paual Garcia e seus filhos
Foto: Acervo Pessoal
A advogada Ana Paula Garcia mãe de Davi, de 3 anos e José, 1 ano, entende que não há um limite definido entre as responsabilidades da família e da escola. "Acredito que a educação doméstica é a base da criança. Tem valores (pessoais) que os pais passam para os filhos que a escola muitas vezes não consegue modificar. A escola tem uma participação mais efetiva na socialização e nos valores da coletividade. Mas não existe um limite definido. Procuramos sempre escolher uma escola que coincida com os nossos valores", garante. 

Para Ludymilla, é "pesado" usar o termo terceirização da educação dos filhos e ela entende que a divisão é complementar. "Nossa filha Ágata de 3 anos e 9 meses frequenta escola no período pela manhã, foi uma decisão que fizemos em conjunto. Nossa gatinha demonstrava muito interesse em socializar com outras crianças, como nossa família mora em Minas, achamos que foi o melhor meio para conseguir atingir o nosso objetivo. Temos em casa uma secretária para nos auxiliar, como eu e meu esposo trabalhamos fora, sentimos a necessidade de ter alguém para nos ajudar. Acho o termo "terceirização da educação" pesado, é como se isso nos isentasse das nossas responsabilidades na educação. Acreditamos que todas as pessoas que estão no nosso ciclo e na nossa rotina são co-responsáveis pela a educação dos nossos filhos", reflete. 

A psicóloga Teresa Paula Galvão Vieira da Costa diz não se sentir perdida na hora de educar as gêmeas Morena Lua Costa do Rosário e Clara Luz Costa do Rosário. "Não tenho muito esse sentimento. Quando aparece percebo que vem da angústia de já ter tentando várias estratégias e não saber mais o que fazer diante de algum desafio da educação. Assim, o não saber como fazer realmente angustia... mas quando vejo que cheguei nesse ponto para para pensar em outra estratégia, converso com alguém, pesquiso", afirma. 

Teresa Paula é mãe de Morena Lua e Clara Luz. Foto: Acervo Pessoal

Costa acredita que a interação das crianças com outras pessoas afeta o que elas aprendem e acreditam. Ela já relatou ter sido surpreendida com a percepção das filhas diante de coisas simples. "Já tive experiências de perceber ensinamentos de babás das minhas filhas - acredito sim que motivadas em orientar o correto - para mim equivocadas e desnecessárias. No momento o que fiz? Apresentei para elas o que para mim seria o melhor. Todos nós temos posições pessoais e subjetivas a respeito do que é o melhor, os nossos filhos sempre estarão expostos aos melhores e piores de todos e a minha postura nisso sempre foi de apresentar a minha como mais uma existente. Um dia antes de tomar banho minha filha falou "Mãe, uma formiga! Mata", perguntei porquê e ela me respondeu "Porque ela morde". Perguntei quem disse e ela respondeu. Abaixei em sua altura, olhei nos olhos e disse "Você sempre ouvirá as opiniões das pessoas e elas muitas vezes serão diversas. Você precisará ouvir um, ouvir outro e se consultar para ver com qual concorda, pensando sobre o que ouve", complementei " Para mim, não devemos matar só porque ela morde, deixa ela aí, está andando de um lado para outro, só isso, para mim, mas se estiver te fazendo mal, defenda-se", relembra."

Questionado sobre educação de gênero, Marimpietri acredita que a distinção é, na verdade, uma "distorção adulta". "Acho um absurdo meninos não poderem brincar com bonecos ou meninas de carrinho. Isso é uma distorção adulta do que é o brincar infantil. Não nada que diga que azul serve a meninos e rosa a meninas a não ser mau gosto e miopia machista. Entretanto, as crianças precisam de nortes e referenciais simbólicos, portanto,  acreditar que podemos criar crianças sem algumas referências de gênero pode ser difícil para a criança se estruturar. Obviamente que se há algo que ponte para conflito temos que acolher e cuidar. Mas isso seria tema para outra conversa",enfatiza.