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Em 1950, a Bahia ficou de fora da Copa do Mundo por falta de estádio pronto

Realização da Copa do Mundo de 2014 em Salvador é, antes de tudo, uma reparação histórica

Alexandre Lyrio (alexandre.lyrio@redebahia.com.br)

O anúncio do Guaraná Frateli Vita toma meia página da publicação. “O verdadeiro alimento para os músculos”, garante a propaganda. Algumas folhas depois, a Alfaiataria Londres promete “tornar o leitor mais elegante” e anuncia até o número do telefone de quatro dígitos: 25-56. Mais adiante, a Casa Clark promove seu principal produto: “Botinas para foot-ball”.

Mas, em meio à publicidade, o que realmente importava naquela 22ª edição da Revista Rádio Esportes, de 1947, estava nas páginas 22 e 23. “Do ‘campinho’ surgirá o grande estádio”, manchetou a revista, com título atravessando duas páginas. O “campinho” era nada menos que a principal “arena” do futebol baiano: o Campo da Graça. E, “para gaudio de toda a Bahia”, ele estava prestes a se tornar um estádio para a Copa de 1950. 

Como se sabe, isso não aconteceu. Nem na Graça, nem na região da Fonte Nova, o outro local em que se cogitou construir uma praça esportiva para o Mundial. E Salvador ficou de fora da Copa de 50. Mas, por que nenhum dos dois estádios tiveram condições de receber o evento? Reviramos arquivos e ouvimos especialistas que reforçam uma ideia: a realização da Copa 2014 em Salvador é, antes de tudo, uma reparação histórica. Afinal, enquanto o Brasil recebe o Mundial pela segunda vez, para a Bahia essa será a primeira.

Acanhado - No tempo em que a única forma de chegar à Graça era de bonde, havia a esperança de que Salvador fosse uma das cidades-sede daquele Mundial. Acanhado, o Stadium Artur Morais, nome oficial do campinho, carecia de reforma. “Deste amontoado de zincos e arquibancadas desengonçadas surgirá um estádio à altura do progresso da nossa capital(...) A nossa futura praça de esportes poderá servir de teatro para a disputa do Campeonato do Mundo”, confiava a revista.

A reforma foi projetada, plantas da nova estrutura publicadas em jornais da época. A Revista Rádio Esportes estampava o governador Octávio Mangabeira no lançamento da pedra fundamental, em pleno 2 de julho. Não saiu do papel. Segundo o pesquisador Mário José Gomes, 74 anos, foram dois os principais motivos que impediram o projeto de ir adiante. Primeiro: em uma primeira vistoria, o Campo da Graça não passou pelo crivo da Fifa. “Sequer as dimensões do campo eram oficiais. O Campo da Graça tinha menos que os 90 metros mínimos de comprimento. E naquela época já existia o padrão Fifa”, afirma Gomes. A outra questão era o lugar nobre em que ele ficava. “Os moradores da Graça, bairro de elite, protestaram. Eles não queriam a ampliação”.

Só havia outra possibilidade. Em 1939, o estado havia desapropriado uma área na Fonte Nova. Na verdade, antes mesmo da ideia da reforma da Graça, desde o início dos anos 40, já existia um projeto ousado para aquela região: a construção de uma grandiosa praça esportiva. Segundo o engenheiro Paulo Segundo da Costa, autor de biografia sobre Octávio Mangabeira, o então interventor Landulfo Alves chegou a determinar que a Secretaria de Viação e Obras Públicas fizesse o projeto. 

A tarefa coube ao escritório do engenheiro Mario Leal Ferreira, que incumbiu o arquiteto Diógenes Rebouças de elaborar o plano. Com a destituição de Landulfo Alves pelo presidente Getúlio Vargas, o projeto original jamais sairia do papel. “Faltaram recursos e o novo interventor não levou a coisa pra frente”, conta Paulo Segundo, na época estudante de Engenharia. Com a eleição de Mangabeira, em 1946, voltou-se a cogitar a construção. 

Mas aí surgiu o projeto da Graça, que poderia virar realidade mais rápido. A dúvida atrasou ainda mais as coisas. “Na Graça ou na Fonte Nova?”, questionou o colunista Luiz Alberto, alertando que não daria tempo de a obra da Fonte ficar pronta para o 4º centenário de Salvador e até para a Copa. “Até agora o que vimos foi uma porção de promessas vãs, de projetos em estudo, abandonados a esmo. Será um louco sonho admitir-se que o fabuloso estádio da Fonte Nova estará concluído pelo centenário da cidade”, escreveu. 

Decidiu-se apostar. Diógenes Rebouças mexeu no plano original e projetou a Fonte só com um anel, em formato de ferradura. Adiantou-se a terraplanagem, cortou-se as encostas onde ficariam parte das arquibancadas, mas não deu tempo. A Fonte Nova só seria inaugurada em 29 de janeiro de 1951. E ainda inacabada. “Eu mesmo fiquei numa parte da arquibancada ainda no barro. Tive que sentar num papelão”, lembra Mário Gomes.



Salvador romântica ouviu a Copa no rádio e chorou após decisão

Sem estádio para assistir à Copa do Mundo de perto, os baianos tiveram que se contentar com o radinho de pilha. Em uma Salvador bucólica, romântica e também provinciana, o “scratch” brasileiro chegou a empolgar mesmo de longe. “O futebol ainda não tinha essa popularidade toda. No Campo da Graça só cabiam umas seis mil pessoas. Mesmo assim, a Seleção criou expectativas”, afirma Paulo Segundo da Costa, 90 anos. 

Por isso, ao fim do jogo contra o Uruguai, o desastre no Maracanã, o clima era sepulcral. “A cidade virou um enterro”, conta. O artista e pesquisador Geraldo Portela, hoje com 74 anos, era menino, mas lembra do silêncio. “Me lembro que a cidade foi da euforia ao silêncio total. Primeiro o pessoal no rádio, empolgado. E depois ninguém comentava nada. Minhas tias animadas ficaram tristes. Teve gente que chorou”.

Arenas da Bahia - Se você quer conhecer mais dessa história, visite a exposição Arenas da Bahia - do Campo da Pólvora a Fonte Nova, durante a Copa.

O que: Exposição, fotos e áudio

Onde: Shopping Iguatemi, 3º Piso 

Quando: a partir de hoje e até o final da Copa