Saúde

Especialistas avaliam novas orientações da OMS para partos

Organização defende menos medicação e intervenções na hora do nascimento

Agência O Globo

Menos medicação e intervenções durante o trabalho de parto, mais tempo para dar à luz e mais participação da grávida nas decisões. Estas são as circunstâncias ideais de um nascimento, segundo o novo guia da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o assunto, divulgado nesta quinta-feira, que inclui 56 recomendações sobre a hora do parto. Esse conjunto de orientações é considerado mais um importante passo da entidade na tentativa de frear a epidemia de cesarianas e estimular o parto humanizado ao redor do mundo.

Foto: Reprodução

Tatianna Silva e o marido, Pedro Savaget, seguram o filho após 48 horas de trabalho de parto. Ela se sentiu bem preparada no pré-natal e se esforçou para evitar uma cesáreaCesárea aumenta risco de asma e obesidade na criança e de problemas futuros para a mãe, diz estudo

Estima-se que, anualmente, 140 milhões de nascimentos ocorram no mundo — a grande maioria, sem complicações. No entanto, algumas intervenções, como a realização de cirurgias cesarianas ou a administração do hormônio sintético oxitocina para o bebê nascer mais rapidamente, têm sido usadas de forma excessiva nas últimas décadas. Em muitas ocasiões, segundo a OMS, essas intervenções não são apenas desnecessárias, mas fazem com que a mãe tenha uma experiência negativa em um momento tão importante.

Para evitar isso, a extensa lista de orientações da entidade tem como um dos principais itens a recusa de intervenções de qualquer tipo como rotina. Isso inclui cesariana e episiotomia — corte feito no períneo, na área genital externa da mulher, para ampliar o canal de parto. O novo guia também encoraja que as mulheres caminhem à vontade durante o início do trabalho de parto e escolham a posição em que terão o bebê — com a liberdade de mudar de posição sempre que quiserem. Reforça ainda o direito da mãe de ter opções para alívio da dor e o de ter um companheiro de sua escolha nesse momento.

Para Princess Nothemba Simelela, diretora-geral assistente da OMS para Família, Mulheres, Crianças e Adolescentes, as novas diretrizes são um passo para reduzir as altas taxas de intervenções médicas desnecessárias ou ineficazes.

— Não podemos manter nosso foco apenas na sobrevivência. A OMS acredita que “cuidados de alta qualidade” devem abranger a prestação de serviços e a experiência da mulher. As diretrizes colocam a mulher e seu bebê no centro do modelo de cuidados, para alcançar os melhores resultados físicos, emocionais e psicológicos possíveis — considera a médica.


PADRÃO DE DILATAÇÃO É ‘IRREAL’

Pesquisas dos últimos anos, incluindo um estudo da própria OMS com 10 mil mulheres na Nigéria e em Uganda, indicam que um ritmo de dilatação do colo do útero de 1 centímetro por hora, que era até então tido como parâmetro para indicar normalidade do trabalho de parto, é “irreal” para a maioria das gestantes. De acordo com Olufemi Oladapo, do Departamento de Saúde Reprodutiva da OMS, o ritmo da dilatação pode ser mais lento sem que isso prejudique a saúde da mãe ou do bebê.

— As pessoas são únicas, e algumas mulheres podem ter um tempo maior do que outras e, ainda assim, terem um parto considerado normal. O parâmetro de 1 cm/h é irreal para muitas mulheres — afirmou o médico, em entrevista coletiva em Genebra, na Suíça.

Um parâmetro mais adequado, segundo a entidade, seria o de 5 centímetros de dilatação durante as primeiras 12 horas para uma mulher que dá à luz pela primeira vez. Em partos subsequentes, o esperado é de 5 centímetros em dez horas. Durante esse processo, os sinais vitais da mãe e os batimentos cardíacos do bebê devem ser monitorados.

— Queremos um cenário em que a mulher tenha uma escolha consciente e que esteja no processo de decisão — destacou Oladapo.

No Brasil, dos 3 milhões de partos realizados em 2015, último ano com dados consolidados, 55,5% foram cesáreas e 44,5% foram partos normais. De acordo com levantamento da OMS, esta é a segunda maior taxa de cesáreas do mundo, atrás apenas da República Dominicana, onde o índice chega a 56,4%. O recomendado internacionalmente é que as cesáreas representem em torno de 15% do total de partos.

O médico brasileiro Renato Sá, coordenador de obstetrícia do grupo Perinatal, destaca que a cesariana inclui todos os riscos associados a qualquer cirurgia, por isso deve ser evitada quando a mãe estiver apta a ter seu bebê por parto normal. No entanto, entre os obstáculos para isso estão aspectos culturais.

— O problema da cesariana no Brasil é cultural. Ela foi introduzida no país no começo do século XX, com divulgação mais intensa na década de 1940, como uma forma de salvar as mulheres da dor do parto. E essa noção veio ganhando uma aceitação cultural muito grande — diz o médico.

Ele ressalta que não se trata de demonizar as cesáreas e as intervenções, mas de usá-las somente quando houver indicação clínica. Orientações como as da OMS ajudam a nortear médicos, enfermeiros e as próprias grávidas na tomada de decisão.

— Tecnologias salvam vidas, quando bem empregadas. O problema não é a tecnologia, mas a forma como é empregada. O uso da oxitocina sintética, por exemplo, pode levar a grávida a ter contrações mais fortes do que o normal e colocar o bebê em sofrimento — observa Renato Sá. — Por outro lado, o uso desse hormônio sintético é responsável por evitar hemorragia pós-parto em muitas gestantes, o que é uma das principais causas de morte materna. A cada quatro minutos, morre uma mulher no mundo por causa disso.

Na avaliação do pediatra Ricardo Chaves, professor de Medicina da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a discussão provocada pela OMS é uma tentativa de resgatar o entendimento da gravidez como uma situação de normalidade fisiológica:

— São recomendações para os médicos terem um novo olhar para a gravidez. Fazer de tudo para dilatar o mais rapidamente possível o canal vaginal, por exemplo, é não reconhecer que o períneo da mulher é adaptável à cabeça do bebê.


ENFERMEIRAS OBSTÉTRICAS AJUDAM

Segundo Chaves, o modelo de assistência à gestante feito por enfermeiras obstétricas, e não apenas por médicos, durante todo o pré-natal e no parto tem sucesso em todo o mundo na redução, ainda que lenta, das taxas de cesáreas e no aumento da satisfação das grávidas. No Brasil, o Ministério da Saúde informou que tem investido em cursos voltados para a formação de enfermeiras nessa área. De acordo com a pasta, até setembro de 2017, participaram dessa iniciativa quase 1.500 enfermeiras.

Diana Schneider, de 33 anos, é uma delas, já tendo acompanhado mais de 700 partos. Quando ela se preparava para ter seu próprio bebê, em dezembro de 2016, escolheu ter o acompanhamento de duas enfermeiras obstétricas, em um parto domiciliar.

— Para mim, foi fundamental ter total liberdade de mudar de posição, andar, participar das decisões — ressalta ela, hoje mãe de Gael. — A OMS reforça o que a gente vem falando há tempos: “respeitem a fisiologia". A mulher sabe parir, e o bebê sabe nascer. É preciso entender isso.